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Crise dos EUA e visões catastrofistas Imprimir E-mail
Escrito por Altamiro Borges   
Terça, 07 de Outubro de 2008
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Há algum tempo atrás, quando se afirmava que o imperialismo estadunidense caminhava para o desfiladeiro, o que não significava prever a sua morte súbita, muitos questionavam o diagnóstico. Afirmavam que ele era catastrofista. Agora, porém, alguns analistas já admitem que o "império do mal" está em célere declínio, cuja maior expressão é sua grave crise econômica. A renomada intelectual Maria da Conceição Tavares, que escreveu vários livros e artigos sobre a inabalável hegemonia dos EUA, acaba de fazer uma autocrítica honesta e corajosa da sua visão anterior.

 

"Deus-mercado virou diabo"

 

"Não escreveria hoje, como escrevi em 1984, sobre a retomada da hegemonia americana", disse numa entrevista à Reuters. Sempre incisiva, ela antevê que "o século XXI não será mais norte-americano" e decreta a falência das idéias neoliberais. "O deus-mercado virou diabo na terra do gelo". Para ela, não há mais dúvida de que os EUA entrarão em recessão. "A ligação entre essa crise e o setor real agora é o aperto do crédito. Sem continuar, vamos para uma recessão global. Sem crédito, o capitalismo não funciona". A tendência, afirma, seria a da "desordem mundial".

 

Apesar deste diagnóstico, que seria taxado por alguns, no passado, de catastrofista e apocalíptico, a brilhante economista ainda vê saídas para o sistema. "No momento, interessa ao capitalismo se regular. O neoliberalismo foi-se, sofreu golpe mortal. O governo terá de regular, mas não é um processo fácil. Se conseguirem um acordo, ai já dá para todos (John McCain e Barack Obama) irem para casa disputar as eleições". Para ela, "ou os EUA resolvem quais são as regras agora, enquanto são donos do cassino, ou daqui a pouco não adianta porque não serão mais os donos".

 

"O dólar acabou"

 

Mais pessimista, o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, avalia que não há mais retorno para a crise estadunidense e prevê que ela contaminará o conjunto da economia mundial – "ela já chegou ao Brasil". Para ele, "o dólar acabou" e a crise só poderia ser estancada com um acordo entre as potências mundiais, um novo Bretton Woods. "Mas o problema é o seguinte: os EUA não vão deixar que o dólar acabe. Os americanos vão tentar distribuir essa conta pelo mundo inteiro".

 

Lessa também abraçou a tese do declínio do império. "Na história da humanidade, nunca houve uma sociedade tão poderosa quanto os EUA. É um poder militar, um poder cultural enorme, mas a chave desse poder chama-se dólar. Isto por uma razão muito simples: as reservas de todos os bancos centrais do mundo são lastreadas, predominantemente, em títulos do Tesouro dos EUA. Essa crise americana foi, na verdade, o jogo financeiro dos bancos americanos que, em última instância, debilitou profundamente o dólar. Ninguém sabe o tamanho do buraco". Com a crise do dólar, esse poder se derrete e, como efeito, o colapso econômico se espalha pelo mundo inteiro.

 

É o fim do neoliberalismo?

 

Mais cauteloso, o sociólogo Emir Sader avalia que a crise será grave, mas esboça dúvida sobre o fim da hegemonia ianque ou sobre a falência do neoliberalismo. Diante das maciças intervenções estatais nos EUA e na Europa para salvar o sistema do caos, ele pergunta: "Elas significam o fim do neoliberalismo? É possível a retomada de processos regulatórios globais, um novo Bretton Woods, que brequem estruturalmente a livre circulação de capitais e revertam os processos de desregulação econômica, essência mesma do neoliberalismo?". A sua resposta é inquietante:

 

"Nada indica que isso seja possível. Não existe uma lógica racional do capitalismo, que faça com que seus agentes – de grandes corporações a Estados dominantes – ajam conforme uma lógica. Trata-se de uma grande crise capitalista, já se diz que a maior desde a de 1929, que pode abrir caminho à construção de um modelo alternativo. Mas por enquanto não se vislumbra nenhum modelo que possa ter esse papel, nem sequer de maneira embrionária. Tudo indica que, entre a crise do modelo precocemente envelhecido e as dificuldades de surgimento de um novo, mediará um período mais ou menos longo de instabilidades, de sucessão de crises, de turbulências".

 

Crise crônica e sistêmica

 

Já no seu 11º congresso, em outubro de 2005, o Partido Comunista do Brasil (PC do B) reafirmava a sua tese sobre o declínio do império estadunidense. "Pode-se afirmar que o sistema capitalista-imperialista vive um período de aprofundamento de sua crise crônica e sistêmica. Sem cair numa visão fatalista e na atitude ingênua de prever a débâcle automática do sistema, pode-se asseverar que as contradições fundamentais do capitalismo estão em agravamento, mormente a contradição entre o caráter social da produção e a apropriação privada de seus produtos", diz a resolução. De lá para cá, a crise apenas se agravou, revelando que a tese do declínio nada tinha de catastrofista.

 

O estouro da bolha imobiliária, a crise das subprimes, confirmou o apodrecimento desta economia, após um curto ciclo de expansão que iludiu muita gente. Os EUA são hoje um país endividado, totalmente parasitário. Seu déficit gêmeo não pára de crescer e superou a casa de US$ 1,3 trilhão em 2006. O país precisa atrair cerca de US$ 3 bilhões ao dia para sustentar seus déficits. No final do ano passado, a dívida das famílias ianques atingiu a cifra recorde de US$ 11,5 trilhões e a das empresas superou US$ 8,4 trilhões. Na ocasião, o economista cubano Osvaldo Martinez garantiu que a "crise econômica dos EUA é estrutural e insolúvel". A vida confirmou o seu diagnóstico.

 

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PC do B e autor do livro recém-lançado "Sindicalismo, resistência e alternativas" (Editora Anita Garibaldi).

 

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