Mito e cinema III: sacralidade e natureza

 

Um dos temas mais presentes no pensamento mítico é o da relação do ser humano com a natureza. E freqüentemente essa relação aparece indissociável da relação humana com o divino e o sagrado, já que a deidade se manifesta na forma de fenômenos naturais: o relâmpago disparado por Zeus, a cobra que tenta Eva, o trovão que grita TU-PÃ!, o fogo roubado dos deuses etc. Assim, o pensamento mítico apresenta a relação com o sagrado como o primeiro fator da vida humana, anterior à organização social em comunidades, ao trabalho técnico e até mesmo à linguagem. Para o pensamento mítico, a religiosidade é primordial e essencialmente constitutiva da natureza humana.

 

Essa relação pode ser vista tanto como uma separação da natureza quanto como uma volta a ela, uma busca da essência perdida do ser humano. Pensemos na metáfora do Éden: desfeita a comunhão original com natureza (que lhes fora dada por Deus), os humanos desde então buscam reencontrar-se com a deidade e re-instaurar o elo perdido. Essa é função dos rituais religiosos: levantar altares, preparar oferendas e fazer libações para integrar mundo humano e mundo divino, carne e espírito, vivos e mortos, passado, presente e futuro. Ao afirmar a relação com o sagrado no momento da gênese da humanidade, o pensamento mítico a afirma como definidora do humano, como sua característica primordial e constitutiva, anterior a todos os outros dados da cultura.

 

É o que de maneira exemplar podemos ver em Os camelos também choram (Die Geschichte vom weinenden Kamel, dir.: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni, 2003). Pastores do deserto de Gobi têm de fazer um ritual para que a mamãe-camelo aceite seu raro filhote albino depois de um penoso parto. O ritual requer um "violinista" (na verdade, um tocador de morin khuur ou matouqin, tradicional instrumento de corda e arco), que é chamado do local quase-urbano mais próximo. A belíssima seqüência do ritual muito instiga a pensar: uma inter-relação entre seres humanos e animais espantosa para nossos ocidentalizados e de-mitificados padrões; um motivo invulgar para o questionamento das relações entre vida rural e vida urbana, por conseguinte, entre capitalismo e culturas tradicionais; e uma impressionante amostra da centralidade e importância dos rituais sagrados para a civilização (sejamos econômicos e fiquemos só com esses três).

 

Mas o cerne do filme parece não estar nas cenas do ritual musical, mas numa cena em que a comunidade se reúne aos lamas para orar. Diz um monge: "Nós do povo mongol homenageamos a natureza e seus espíritos protetores. Hoje as pessoas saqueiam a terra em busca de seus tesouros; assim fazendo, afastam os bons espíritos que deviam nos proteger do mau tempo e das doenças. Devemos nos lembrar que nessa nossa passagem pela terra não somos nem a primeira nem a última geração que por aqui passa. E por isso vamos rezar para pedir perdão, para que os bons espíritos voltem novamente. Devemos respeitar a natureza, o vento, o céu, a areia e a tempestade".

 

O homem sagrado não esquece que a natureza lhe dá o sustento; que a árvore é feita de madeira que pode ser cortada em lenhos; que a montanha é feita de minério que pode ser transformado em facas; que o fogo é carburador poderoso; que o camelo pode ser domado e feito meio de transporte; ou que a água do rio pode ser usada para impulsionar uma mó. Mas, a percepção mítica do sagrado na natureza impede a materialização, a profanização total de todas as coisas: reconhece na lenha, no fogo, nos animais e na água algo de divino, e vivencia o teor espiritual da natureza, não compreendendo ali somente uma fonte inesgotável de recursos. Eis o que transluz na oração do lama mongol e na relação dos pastores com os camelos.

 

Não se quer reatualizar aqui o mito do bom selvagem, afirmando que relações harmoniosas com a natureza só são possíveis numa mítica vida "primitiva". Isso seria desrespeito para com os pastores do deserto de Gobi, além de trocar um mito por outro (não necessariamente melhor). Há outras maneiras de relacionamento com a natureza – e aqui podemos perguntar: o que é a natureza? Há muito a examinar. O que será assunto para as próximas colunas.

 

Cordiais saudações.

* * *

Quente: A partir de quinta-feira, 02/10/2008, o Itaú Cultural e o AfroReggae apresentam o Antídoto - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. O evento tem início com a mostra de documentários CinePerifa, realizada em parceria com a Central Única das Favelas (Cufa-SP). Mais informações em http://www.itaucultural.org.br/.

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e não é mitômano. Ou pelo menos assim crê...

 

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #1 Sutileza...Maria Guiomar Benuto Frastrone 01-10-2008 16:54
Assisti o filme/documentário em uma ocasião muito especial! Contudo, vou tentar me abster do contexto para tecer alguns ingênuos comentários sobre o filme e consequentemente sobre o maravilhoso texto. As relações que a comunidade estabelece com a natureza nas diversas situações colocadas no filme é de uma sutileza e, ao mesmo tempo, de uma profundidade sem igual. O momento do ritual (com a violinista) como tentativa de aceitação do filhote mostra como é difícil encarar o diferente, o sofrido. Mas também mostra como pode ser \"emocionante\" aceitar o próximo, com todas as suas limitações, dificuldades e diferenças. Este texto é um presente, estava esperando alguém escrever algo interessante sobre esse filme maravilhoso!! E Cassiano superou todas as expectativas... como sempre!
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