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Estados Unidos: interromper o projeto neoconservador Imprimir E-mail
Escrito por Virgílio Arraes   
Qui, 25 de Setembro de 2008
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Até a eleição presidencial de 4 de novembro, as críticas à política externa norte-americana adormecerão. O motivo é a crise desencadeada pela desregulamentação do setor imobiliário que foi levada a cabo no início dos anos 90, no primeiro mandato de Bill Clinton. Seus desdobramentos negativos atemorizam mesmo o neoliberal mais panglossiano.

 

A poucas semanas do momento decisivo, a perspectiva política para os republicanos é bastante sombria, ao reverter-se o quadro de moderado otimismo em vigor até há alguns dias, quando John McCain, a despeito da notabilizada ausência de carisma, conseguiu manter-se empatado tecnicamente com o entusiástico Barack Obama.

 

A justificativa para isto deveu-se ao arranjo executado na política externa, acerbamente analisada desde o segundo termo de George Bush, pelo Departamento de Defesa com as seguintes medidas: a primeira conecta-se com a permanência temporária de mais efetivos em território iraquiano e a outra com a composição financeira com líderes políticos e militares locais dos centros urbanos, onde grassa o desemprego na população mais jovem.

 

Desde o fim do primeiro semestre, o grau de críticas lançadas à política exterior da administração Bush tem arrefecido, o que possibilitou, em agosto, o Departamento de Estado a arriscar-se politicamente a repreender a Rússia, em decorrência da inesperada defesa militar da Ossétia do Sul, área em litígio na Geórgia, pelo Kremlin.

 

A manifestação intimorata de Washington junto a Moscou reverberou para o público norte-americano como a retomada da confiança na condução da política exterior, embora ao restante do mundo tenha parecido mera exasperação. Na realidade, o desejo era demonstrar ao eleitorado que os republicanos são mais bem preparados para defender o interesse nacional.

 

Contudo, a debilidade de várias instituições financeiras de porte, oriunda do longo manejo incorreto do setor de hipotecas, espalha-se com a feição de rastilho na economia, tendo obrigado a Casa Branca a dispor de centenas de bilhões de dólares para amenizar oficialmente os efeitos contraproducentes para a sua população, especialmente para a endividada classe média.

 

Involuntariamente, o governo George Bush, ao intervir maciçamente no mercado, comunicou ao mundo a sua descrença cabal no virtuosismo do neoliberalismo, pregado de maneira diuturna no último quarto de século. O laconismo da declaração do primeiro escalão republicano aos meios de comunicação não foi suficiente para dissipar a melancolia do reconhecimento implícito da incompetência de um mercado auto-regulado.

 

Mesmo com a economia em dificuldades, não se deve dispor a política exterior para o segundo plano. O posicionamento subscrito da Casa Branca para opor-se ao terrorismo após o atentado de 11 de setembro é equivocado. Até mesmo o Paquistão, aliado, ainda que ambíguo, de Washington, retrocedeu e, desta maneira, ocasionou a retirada do poder, em agosto último, do General Pervez Musharraf pela renúncia, a fim de isentar-se um processo de impedimento.

 

A possibilidade de modificar o ambiente internacional pelo emprego da força, conforme aconselhou o Departamento de Defesa momentos depois do ataque a Nova York em 2001, está descartada. Duas tentativas em menos de dois anos foram feitas sem êxito. Não houve a pacificação regional, via destituição de tiranizadores, nem a eliminação de um fermento anti-americano.

 

Os formuladores neoconservadores realmente acreditaram que a presença norte-americana seria o empuxo necessário para remodelar o Oriente Médio, com ditadores a tombar tais quais peças de dominó. Sem os talibãs no Afeganistão e sem os baathistas no Iraque, a pedra iraniana e a síria também logo cairiam. Finalmente, a região se estabilizaria. A democracia seria o coroamento do processo.

 

No entanto, nenhuma das previsões se materializou, de sorte que a missão libertadora neocon deve de fato parar no Iraque, a fim de que os Estados Unidos tenham condição de avaliar os custos materiais e – principalmente – políticos do desastrado empreendimento.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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