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Abandonar ‘armadilha eleitoral institucional’ é o desafio da esquerda Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader   
Sexta, 19 de Setembro de 2008
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A poucos dias de mais uma eleição para prefeituras e câmaras de todo o país, o Correio entrevistou o sociólogo Ricardo Antunes para analisar o atual processo eleitoral e como hoje a população se comporta diante dele.

 

Para o professor da Unicamp, as posturas e propostas dos candidatos já não atraem tanta atenção da população, pois os mesmos já colocaram a credibilidade do exercício político abaixo, desestimulando uma maior participação popular. De acordo com Antunes, partidos de verdadeira oposição às políticas vigentes, como o PSOL e o PSTU, devem deixar a corrida eleitoral em segundo plano, priorizando as lutas populares e sociais, o que lhes permitiria angariar uma base popular mais coesa e preparada para realmente fazer frente aos partidos dominantes.

 

Antunes aponta ainda como imprescindível que não se aceite mais a dívida pública nos moldes em que ela é concebida. Sem essa premissa e sem conselhos populares para discutir a aplicação do orçamento da cidade, não acredita que se faça uma gestão que atenda aos anseios das camadas desfavorecidas e majoritárias da Paulicéia.

 

Correio da Cidadania: Como você enxerga hoje a cidade e o estado de São Paulo? Quais são os problemas e questões mais prementes?

 

Ricardo Antunes: A cidade e o estado de São Paulo são uma fotografia aprofundada das contradições brasileiras, um pouco da história do desenvolvimento urbano do país e capitalista recentes, com todas as suas mazelas e seqüelas presentes. Isto é a cidade de São Paulo, marcada por bolsões cada vez maiores de populações precarizadas, informalizadas e desempregadas.

 

O descuido com a atividade pública em São Paulo é completo, indo do abandono total da saúde, previdência e educação pública até o que diz respeito à vida, como lazer, esportes, expressões artísticas, coisas para as quais essas camadas são absolutamente desconsideradas.

 

São Paulo é uma fotografia da tragédia do capitalismo brasileiro, de nossa inserção subalterna e destrutiva na economia globalizada, que penaliza fundamentalmente a classe trabalhadora e seus estratos mais pauperizados da população.

 

A cidade, portanto, retrata o capitalismo hoje dominante. Na ponta de cima, o mundo financeirizado, brutalmente enriquecido e que hoje passa por uma crise estrutural profunda; na sua base, ficam as classes trabalhadoras profundamente pauperizadas e vulneráveis, sendo que, digamos assim, percebem-se várias clivagens entre esses trabalhadores. Uma parte possui alguma condição no emprego, outros estão terceirizados e precarizados e há ainda os que ocupam os bolsões de desemprego. Este é o retrato de São Paulo.

 

CC: Qual a sua visão sobre esse período pré-eleitoral em nosso estado? A população não lhe parece dessa vez muito indiferente?

 

RA: Digamos muito indiferente! A população tem se dado conta nos últimos processos eleitorais, há vários anos, que as eleições vêm sendo uma sucessão de disputas cada vez mais restritas aos políticos tradicionais. E os partidos em sua grande maioria se tornaram partidos de políticos profissionais. É como se as eleições hoje fossem uma sucessão de um candidato ao anterior, que sai desgastado e volta quatro anos depois; quem está no partido A vai para o partido B, volta amanhã para o A e depois pula para o C, de modo que a população tem a sensação de que o processo eleitoral se resume a uma disputa entre os mesmos. E essa disputa acaba fazendo com que ela não localize diferenças fundamentais nas propostas dos partidos, pois estão em quase sua inteira totalidade, com honrosas e pequeninas exceções, subsumidas à política do "é dando que se recebe", política dos partidos tradicionais.

 

É como se tivéssemos a seguinte situação: a política eleitoral é dominada pelos partidos tradicionais, configurando o exercício da política tradicional. Há, portanto, como resposta a isso, um certo movimento anti-político, embora este seja dúplice. Por um lado, é anti-político por conta de amplas camadas da população que vêem a política como o exercício da troca de favores. Em outro pólo, é também anti-político por causa de grupos sociais mais organizados, que mesmo minoritários recusam a luta política, por não quererem confundi-la com a luta eleitoral.

 

Posto tudo isso, o exercício a ser feito é descobrir como colocar em prática uma política radical, que seria a única forma de se contrapor a esse marasmo da política eleitoral, coisa que os partidos de esquerda estão com muita dificuldade em realizar. Suporia transcender o espaço da luta eleitoral parlamentar para a luta extra-institucional, mais calcada na organização da classe trabalhadora, dos movimentos populares e das inúmeras camadas que compõem o mundo do trabalho, de modo a organizá-los pela base, permitindo assim germinar novas formas de política marcadas por uma concepção radical.

 

Como os partidos não têm conseguido realizar isso, vemos o exercício da política tradicional. Um exemplo, para que não fique algo muito abstrato, de quem mais chega perto de uma política alternativa e radical é o MST, no sentido de que tem como eixo da sua ação a organização popular dos sem terra, das camadas pauperizadas da população do campo e também das cidades, que não possuem mais terra no campo nem trabalho na cidade, vivendo, então, em busca de outra forma de vida e sociabilidade.

 

O MST, portanto, organiza essa base popular, que impulsiona um outro tipo de luta política, aí sim de perfil mais radical. Por isso digo que o MST é quem mais se aproxima de colocar em prática tais diretrizes. O PT há muito tempo abandonou essa proposta. Se algum dia nos anos 80 passou perto, quando impulsionava as lutas sociais, hoje se tornou o que o Marx chamou de "o partido da ordem", o partido que faz todas as concessões necessárias para se manter no poder, como qualquer outro partido burguês tradicional. Basta ver que o PT tem dentro de si figuras que no passado recente estavam comprometidas com o pior da direita brasileira, como comprova o campo de apoio existente em torno da candidatura da Marta à prefeitura.

 

O PSOL e o PSTU exercem uma política eleitoral alternativa, mas com muita dificuldade, de várias ordens e dimensões. Naturalmente pela fragilidade de suas densidades social e popular, eles não conseguem se apresentar à população como uma outra forma de fazer a política radical; acabam sendo também confundidos como praticantes da mesma política, que faz com que a população, ao final do seu cálculo, trate a eleição deste ano com absoluta frieza. Vai decidir, digamos assim, muito em função das disjunções do lulismo. O que significa? Ela olha para o Lula, depois para as alternativas em jogo (PSDB e DEM) e conclui que são todos farinha do mesmo saco. No entanto, o governo Lula praticou um assistencialismo mais amplificado do que o aquele ultra-restrito, seletivo e elitista do PSDB ou do ex-PFL, o DEM, ironicamente chamado de Democratas.

 

Sabemos que o governo Lula também conta com essa aceitação popular porque garantiu a remuneração das classes dominantes, dos bancos e do grande capital como nunca na história do país. O próprio já cansou de dizer que nunca os ricos ganharam tanto dinheiro como em seu governo.

 

Então vejamos: atendendo aos interesses dos que mandam e alargando a sua base, sua massa de manobra, sobre os estratos mais pauperizados, ele tende a ter, dentro da frieza eleitoral, um resultado melhor no conjunto do país. São Paulo ainda é uma incógnita, pois, se a Marta tem mais votação, e nas pesquisas tem tido um desempenho melhor, é evidente que a separação Alckmin/Kassab é algo que se reconcilia no segundo turno.

 

Alckmin, Kassab e Maluf no segundo turno de um lado e somente a Marta no outro deixa a situação menos tranqüila para o PT, ainda mais lembrando que São Paulo frequentemente tem o voto mais conservador. E neste caso é realmente difícil saber qual desses pólos é mais conservador, pois todos têm muito dessa cara.

 

CC: Dentro deste cenário, você citou que, mesmo com dificuldades, o PSOL e o PSTU têm uma política eleitoral alternativa. Qual é a diferença entre o projeto desses partidos e o dos demais para as cidades?

 

RA: O projeto do PSOL e do PSTU, na frente de esquerda (uma pena o PCB não ter participado), é um pequeno pólo unificado, que no meu entender só pode fazer algum sentido se for capaz de, primeiramente, não querer se mostrar como um partido capaz de oferecer alternativas dentro da ordem. Se a esquerda tentar se mostrar moderada para ganhar votos, estará aniquilando seu projeto. O papel eleitoral da esquerda no momento seria ter a coragem de denunciar os mais graves problemas da cidade e do estado, sem a preocupação de com isso perder votos. Pelo contrário, ela não deve ter uma preocupação eleitoreira, mas sim uma preocupação de utilizar o momento eleitoral como forma de conscientizar a todos sobre a tragédia do país e da cidade, além da necessidade de uma outra alternativa, socialista.

 

Frequentemente o PSOL também esbarra em seus próprios limites. Isso porque uma parte do seu conjunto ainda é formada por filhos do PT, que não querem, digamos assim, cometer os mesmos equívocos petistas. Mas a questão do PT não passa por ter nascido corretamente e aos poucos ter se deformado. Os vícios do PT são mais profundos; desde cedo, tornou-se um partido prevalentemente eleitoral e parlamentar. Se o partido calibra sua ação para este terreno, deixa de priorizar o que é decisivo, no caso as organizações populares e sociais.

 

Sendo assim, olhemos o erro que o PSOL em parte já vem cometendo: ao invés de centrar seu oxigênio, que não é muito por se tratar de um partido pequeno, na organização das lutas sociais e populares, fica gastando o que tem nas campanhas eleitorais. É o mesmo foco do PT.

 

Não adianta ser mais agressivo na campanha eleitoral, porque a população acaba não dando muita credibilidade a isso. Nós temos de construir a organização popular pela base, pois respaldados nesta organização é que a luta política e eleitoral pode ter alguma conseqüência. Mas que, de toda forma, deve ser sempre secundária, nunca prioritária. Seria preciso, portanto, dar uma virada no caminho que está sendo seguido.

 

O PSOL, infelizmente, em meu juízo e como parte dele, desde sua fundação, tem optado muito mais por tentar crescer nas eleições (algo quase impossível objetivamente) e com isso não tem fortalecido a sua ramificação nas forças sociais do trabalho, nos novos estratos da classe trabalhadora, da classe operária industrial, dos trabalhadores rurais, dos assalariados médios - aos montes pelo país, no telemarketing, no comércio, supermercados, nos trabalhadores informalizados, como é o caso dos motoboys, entregadores etc. -, e nas periferias, onde, digamos assim, se dá o espaço da população pobre. O espaço desta população está calcado nesses cinturões que caracterizam a periferia paulistana.

 

Como o PSOL direciona sua energia, não muito potente, no processo eleitoral, o partido acaba se exaurindo e obtém resultados muito tímidos, ficando paralisado numa luta contra os gigantes e perdendo a possibilidade de se fortalecer nos sindicatos, nas fábricas, nos campos, nos bairros operários e na periferia. Em suma, nos movimentos sociais.

 

Esse é o limite maior da esquerda hoje aglutinada em São Paulo, no caso o PSOL e o PSTU. Eles fazem as denúncias necessárias, mas talvez o movimento devesse ser um pouco diferente, como vínhamos fazendo, ao menos desde a fundação do PSOL.

 

CC: Essa metodologia por você sugerida parece ser praticamente o único meio de fazer com que uma candidatura de outro viés político prospere em meio ao monopólio da mídia e às disparidades financeiras de campanha, especialmente em uma cidade como São Paulo.

 

RA: Claro, primeiro deve-se ter base popular. Segundo, não fazer da eleição um trampolim eleitoral para os políticos. Por exemplo: ao invés de lançar candidatos que já são deputados, como todos os partidos fazem para fortalecer sua votação, deveríamos tentar organizar as bases assalariadas e a partir delas propiciar o nascimento de lideranças políticas que pudessem envolver algum tipo de atuação, mas respaldada nessa base social, o que de certo modo é feito pelo MST, por isso os citei.

 

 

Na medida em que temos pouca organização social e política pela base, em que os partidos não exercitam nenhuma tentativa de elaboração de uma política radical, resta participar do processo eleitoral com tom um pouco mais crítico do que o dos partidos dominantes. Isso não mexe com a população, porque ela não atribui credibilidade a tal proposta e não a vê como factível eleitoralmente. É uma armadilha, da qual é preciso sair.

 

Este é o desafio da esquerda: sair da armadilha eleitoral institucional. Isso não significa não participar das eleições, mas sim participar com outro conteúdo, densidade e substância, que só virão por meio de uma impulsão popular, o que nós ainda não possuímos.

 

CC: Em resumo, deve-se buscar uma força que não existisse somente em épocas de eleição.

 

RA: Pelo contrário, uma força que participaria das eleições sem tê-las como prioridade, pois em primeiro lugar viria sempre a organização e o avanço da causa popular, dentro dos quais a luta eleitoral seria apenas mais uma batalha, não a mais importante, pois as lutas extra-institucionais ocupam este lugar.

 

Um exemplo: a ocupação da USP no ano passado. Teve muito mais importância política para São Paulo, e até para o país, que as eleições. Em um, dois meses de ocupação, a luta social e estudantil autêntica chacoalhou a política tradicional do país. Tantas vezes o MST já fez isso, tantas vezes as greves do ABC paulista paravam o país e traziam uma nova substância à luta política...

 

As eleições têm sido o eterno suceder da mesmice, onde tudo vale para que nada de substancial aconteça. E a população percebe isso.

 

CC: O que vê para o futuro da cidade de São Paulo com a vitória de algum dos candidatos de maior poder?

 

RA: Bom, tanto com Marta, como com Kassab ou Alckmin, para não falar da figura grotesca do Maluf, nós já sabemos como serão seus governos. Todos serão governos que vão recauchutar a cidade sem tocar em nenhuma das suas questões fundamentais. Desde as questões da periferia, da habitação popular, da destruição do meio ambiente da capital, até a própria questão do trânsito, cuja equação passaria por um enfrentamento, por exemplo, da política comandada pela indústria automobilística, coisa que nenhum desses candidatos chegaria sequer perto de fazer.

 

Não que sejam idênticos, não são, mas são faixas de diferenças que não alteram a qualidade entre eles. Dessa forma, com a vitória da PT, do PSDB ou do DEM, teremos variantes distintas do mesmo. O mesmo seria o quê? Recauchutar a cidade e ganhar forças para outras eleições. O que a Marta quer? Ganhar em São Paulo para poder fortalecer em 2010 a sucessão presidencial, por ela própria ou em nome do PT. Vencendo em São Paulo e mesmo não se postulando em 2010, terá a máquina da prefeitura à sua disposição para apoiar a candidatura do PT. O que quer o Alckmin? A mesma coisa, um trampolim para 2010. O mesmo faz o Kassab e o ex-PFL.

 

A população percebeu que são todos políticos de trampolim de plantão. E o PSOL não pode realizar essa mesma política, de ter uma candidatura para fortalecer outra candidatura e assim por diante.

 

 

A bússola da política deve ter um norte completamente diferente do que aquele que se vê no exercício da política tradicional. Isso, portanto, seria o embrião de uma política radical, capaz de combater ao mesmo tempo a política tradicional e a anti-política. Este seria o esboço do exercício de uma política radical.

 

CC: Por fim, como considera que os candidatos devam lidar com o orçamento dos municípios e com a dívida pública?

 

RA: A primeira coisa: a dívida pública, dentro de um país que possui os juros mais altos do mundo, já é uma forma de atar o governo eleito ao exercício da política tradicional e dominante.

 

Portanto, em relação à dívida pública, e isso o Ivan Valente apontou em alguns debates, é inaceitável que uma gestão de uma prefeitura com alguma inspiração popular seja a prisioneira que vemos ser, completamente corroída pelos juros altos, garantidores da remuneração do grande capital financeiro. O orçamento está diretamente ligado a isso e, se parte dele é destinada a garantir a remuneração da dívida, a prefeitura já se encontra semi-aniquilada.

 

Imagino que seriam dois os movimentos necessários: o primeiro é enfrentar a questão da dívida pública não aceitando o pagamento do que já foi quitado há muito tempo, o que acarreta uma luta política complicada, mas imprescindível.

 

O segundo é o seguinte: o orçamento da prefeitura tem de passar por uma discussão nos conselhos populares, de maneira que a população diga em que se investirá ou não. Isso o PT ensaiou em alguns de seus melhores momentos, no que se chamou de orçamento participativo, mas logo abandonou. Muito cedo o PT chafurdou no pior da política tradicional.

 

O orçamento deveria ser a combinação de um planejamento elaborado pela prefeitura sob a condução de conselhos populares. Fora isso, não faz o menor sentido participar da gestão de uma prefeitura somente para gerir a ordem segundo as diretrizes dominantes.

 

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

 

 

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Última atualização em Quarta, 24 de Setembro de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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