Mídia acoberta terroristas da Bolívia

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"Se precisar, vai ter sangue. É preciso conter o comunismo e derrubar o governo deste índio infeliz". Jorge Chávez, líder da oligarquia racista de Tarija.

 

"Não vejo razão pela qual se deve permitir que o Chile se torne marxista pela irresponsabilidade de seu povo". Henry Kissinger, secretário de Estado do EUA, poucos dias antes do golpe de 11 de setembro de 1973 que derrubou Salvador Allende.

 

É repugnante a cobertura que o grosso da mídia hegemônica tem dado aos trágicos confrontos na já sofrida Bolívia. Os serviçais da TV Globo tratam os chefões golpistas como "líderes cívicos" e "dirigentes regionais". Mirian Leitão, que esbanjou valentia ao sugerir que o governo brasileiro retirasse o nosso embaixador de La Paz e enviasse tropas às fronteiras quando da estatização do petróleo, agora é toda afável com a oligarquia racista deste país. Outros "colunistas" bem pagos da mídia chegam a insinuar que a culpa pelos violentos conflitos, que já causaram oito mortes, é do presidente Evo Morales, "um radical e populista" que instigou o separatismo regional.

 

A manipulação é grotesca até na terminologia. No caso das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há décadas enfrentam as oligarquias paramilitares e que foram excluídas violentamente da luta institucional no país, os guerrilheiros são estigmatizados como terroristas, narcotraficantes, bandidos. Já os bandos terroristas da Bolívia, organizados e armados pela elite racista que desrespeita o voto popular, são tratados como "comitês cívicos" e "grupos rebeldes". O embaixador estadunidense Philip Goldberg, que acaba de ser expulso da Bolívia por estimular abertamente a divisão do país, é apresentado pela mídia subserviente como "negociador".

 

A triste lembrança do Chile

 

O que está em curso na Bolívia é um golpe fascista organizado pela oligarquia local e teleguiado pelos EUA. Seus métodos terroristas lembram o ocorrido no Chile, em setembro de 1973, noutro golpe sangrento orquestrado pelo "império do mal". Visam desestabilizar e derrubar o governo democraticamente eleito de Evo Morales, confirmado em agosto num referendo. Poucos são os veículos midiáticos e os "colunistas" que denunciam esta conspiração, talvez porque torçam pela derrota do que FHC chamou num paper ao governo Bush de "esquerdização da América Latina". Como verdadeiro "partido da direita e do capital", a mídia burguesa não tolera a democracia!

 

Uma das raras exceções foi o lúcido artigo de Clóvis Rossi, que há muito estava adormecido por seu rancor anti-esquerda. "O que está em andamento na Bolívia é uma tentativa de golpe contra o presidente Evo Morales. Segue uma linha ideológica e táticas parecidas às que levaram ao golpe no Chile, em 1973, contra o governo de Salvador Allende, tão constitucional e legítimo quanto o de Evo Morales. Os bloqueios agora adotados nos departamentos são uma cópia dos locautes de caminhoneiros que ajudaram a sitiar o governo Allende... Nem o governo nem a oposição no Brasil têm o direito ao silêncio", escreveu, relembrando sua perspicácia e coragem do passado.

 

O criminoso Philip Goldberg

 

A conspiração golpista na Bolívia, acobertada pelo grosso da mídia nativa, exige rápida resposta das forças progressistas e democráticas do Brasil. Como afirmou Evo Morales, trata-se de "uma violência fascista com o objetivo de acabar com a democracia e dividir o país". Sob o biombo da autonomia regional, governadores de cinco departamentos (estados) e abastados empresários têm financiado bandos terroristas que já assassinaram oito camponeses favoráveis ao governo eleito, saquearam prédios públicos, destruíram uma emissora estatal de televisão, sabotaram gasodutos, bloquearam rodovias e proibiram o próprio presidente de pousar em três aeroportos do país.

 

Segundo relatos de Marco Aurélio Weissheimer, da Carta Maior, na semana passada "grupos de jovens de setores da classe média branca, que não escondem seu sentimento racista em relação a Evo Morales, lideraram as manifestações. Capitaneados pela União Juvenil Cruzense (UJC), eles invadiram o prédio da empresa estatal de telecomunicação para ‘entregá-lo à administração do governo Rubén Costas’, de Santa Cruz. Na Televisión Boliviana/Canal 7, saquearam o escritório, destruíram computadores e fizeram uma fogueira na entrada do prédio". Além de Santa Cruz, as ações terroristas ocorrem em outros quatro departamentos – Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca.

 

Os EUA estão diretamente metidos no complô. O embaixador Philip Goldberg já foi fotografado em eventos da União Juvenil Cruzenha (UJC), grupo terrorista de Santa Cruz que utiliza o slogan "terminemos com os ‘collas’ [indígenas], raça maldita". A embaixada ianque até contratou vários destes bandidos. Goldberg é um fascista convicto. Como embaixador dos EUA na ex-Iugoslávia, ele orquestrou a crise no Kosovo e a sangrenta guerra civil separatista naquele país. Declarado persona non grata, ele finalmente foi expulso da Bolívia. "Não queremos aqui gente separatista, divisionista, que conspira contra a unidade do país", justificou o presidente Evo Morales.

 

Intensificar a solidariedade internacionalista

 

O governo, mesmo aberto ao diálogo, não tem se submetido à pressão dos golpistas, que exigem a anulação da nova Constituição e do referendo que aprovou a manutenção do mandato de Evo Morales. Ocorrido em 10 de agosto, por demanda da própria oposição, o referendo confirmou a força do atual presidente. Evo foi ratificado em 95 das 112 províncias do país e, apesar do caos promovido pelos golpistas, teve mais votos do que na eleição presidencial – obteve 67,41% dos votos, bem acima dos 53,3% em 2005. Sua votação cresceu em oito dos nove departamentos e o referendo ainda revogou o mandato de dois governadores ligados às oligarquias racistas.

 

Desesperada, a elite investe no terrorismo e esbarra na resistência do governo e do povo. "Vamos agir com serenidade, mas também com firmeza", diz Alfredo Rada, ministro da Defesa. Walker San Miguel, ministro do Interior, garante que "os fascistas não passarão". O governo já decretou Estado de Sítio, ameaça deter os chefes terroristas e acionou tropas do exército nos departamentos para garantir o fornecimento de gás e a ordem pública. A derrota dos fascistas, porém, exige o apoio dos governos e dos movimentos sociais na América Latina. O que está em jogo é o avanço da democracia, é a derrota das oligarquias, do "império do mal" e da mídia mentirosa.

 

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PC do B e autor do livro recém-lançado "Sindicalismo, resistência e alternativas" (Editora Anita Garibaldi).

 

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Comentários   

0 #4 Abaixo a oligarquiaAlejandro Chuquimbalqui Guelac 16-09-2008 19:05
Defender a Democrcia, derrotar a oligarquia é justo e necessario.
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0 #3 Em nome da resistênciaPaulo Barbosa 16-09-2008 17:57
Vê-se que as forças oligárquicas da elite têm seus parentescos polícos em diversas instâncias e níveis. Não se aceita o ressurgimento de uma América Latina voltada para seu povo e anseios. Este continente, sempre pisoteado em seus direitos e necessidades, deu grande passo no rumo da democracia partipativa e na defesa de seus princípios éticos, étnicos, sociais e culturais. A colonização do passado continua presente sob "novas" aparências em favor da liberalidade ecônômica e capitalista. Este artigo elucida com crítica contundente e fundamentada o que os poderosos da pos-modernidade requerem: tudo subjugado a seus interesses. É triste constatar a mídia servil dos grandes grupos econômicos e saber que a maioria dos expectadores engolem o lixo televisivo e imprensa comprada. Uno-me ao articulista e à visão crítico-libertadora do Correio da Cidadania na luta dos pequenos em favor de suas prioridades. Evo Morales, Hugo Chaves e outros merecem nosso respeito por se verem livres e guerreiros pela soberania que ainda paira no consciente dos que não venderam na sua dignidade. "Não se tenha medo de enfrentar o medo e o poder das armas dos se acham melhores pelo seu poderio". E que essa luta não seja em vão.
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0 #2 Mobilização já !!!Breno Nascimento 16-09-2008 17:24
Meu caro Altamiro, há alguns dias comentei um ótimo texto do Luiz Eça também sobre esta conspiração do governo EUA, da mídia dominante, da burguesia racista e facista boliviana, contra a jovem democracia boliviana. Concordo plenamente com você. Proponho uma mobilização dos partidos verdadeiramente democráticos, das Centrais sindicais, do Movimento estudantil, para jornadas, atos públicos em todo o Brasil em solidariedade ao Presidente Evo Morales e o povo Boliviano. Vamos descobrir e-mails para enviarmos mensagens às TV´s, Rádios da Bolívia, de parlamentares bolivianos e brasileiros, do gabinete do presidente Morales, e também para os e-mails destes governadores repudiando suas atitudes divisionistas e terroristas. Acho importante criar uma central de solidariedade em cada estado brasileiro, e uma central a nível nacional para coordenar as atividades. A primeira iniciativa acho que é sensibilizar os dirigentes sindicais, partidários, estudantis, comunitários, da sociedade civil para que puxem as mobilizações e ações. Talvez seja interessante criar um site imediatamente para uma grande campanha na internetcriando um veículo de nosso repúdio à violência e nossa solidariedade ao povo Boliviano e seu presidente constitucional.
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0 #1 Odon Porto de Almeida 16-09-2008 17:17
O propósito dos grupelhos fascistas que assassinam trabalhadores na Bolívia é instaurar um poder reacionário simpático ao latifúndio e ao imperialismo.O que eles ensaiam é algo semalhante ao levante de Franco contra ao governo da Frente Popular na Espanh em 1936, ao putsch de Pinochet no Chile, ao golpe de 1964 idealizado pela CIA no Brasil etc. O povo boliviano deve jutiçar exemplarmente a minoria
fascista. E que conte com a decidida solidariedade do Povo Brasileiro à sua luta.
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