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Sant'Anna de Stazzema: o fascismo como mal absoluto Imprimir E-mail
Escrito por Florence Carboni   
Terça, 09 de Setembro de 2008
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A Toscana é famosa por suas cidades medievais e renascentistas, como Florence, Arezzo, Volterra, Siena, e morros suaves recobertos de parreiras e oliveiras, dominados velhos casarões protegidos por altos ciprestes. Não é um estereótipo: essa Toscana existe e continua atraindo especuladores imobiliários e multidões de turistas interessados por seu precioso acervo artístico e suas belezas naturais.

 

No noroeste da região da Toscana, a cidade de Lucca, além de rico patrimônio arquitetônico, mantém ainda intactas suas muralhas renascentistas. Porém, nem toda a província de que Luca é capital parece-se às paisagens símbolos da Toscana. Quem avança de Lucca para o norte depara-se com a Garfagnana, situada nos Alpes Apuanos, formação montanhosa que se destaca dos Apeninos setentrionais, avançando em direção à estreita planície da costa tirrênica, ao oeste, ao golfo de La Spezia, ao norte, e aos montes pisanos, ao sul.

 

Região Pobre, Pobre Região

 

Desde a Antiguidade, o subsolo singular dessa serra ensejou uma intensa atividade de mineração, com destaque para a extração do famoso mármore de Carrara. Nessa região pouco favorável à agricultura, a população sobreviveu sobretudo graças ao pastoreio e à exploração de produtos florestais, entre eles a castanha e sua farinha.

 

Chega-se a Sant’Anna, distrito do município de Stazzema, por uma das tantas estradas tortuosas que percorrem essa serra agreste. Sant’Anna di Stazzema tem poucos atrativos turísticos. Trata-se de uma aldeia de tipo "aberto", comum a essas regiões serranas, formada por conjuntos de casas, em geral encravadas nas encostas dos morros altos e nos pequenos vales. No século 18, a edificação de uma pequena igreja deu origem ao centro dessa aldeia estendida.

 

Até agosto de 1944, a população de Sant’Anna era de uns quatrocentos habitantes, à qual se haviam agregado cerca de mil refugiados, provenientes do litoral da Versília e de outras regiões da península, ocupados pelos alemães. Em uma manhã de 12 de agosto daquele ano, praticamente toda a população da aldeia e quase duzentos refugiados foram massacrados em um dos tantos torpes crimes cometidos pelas tropas nazi-fascistas contra a população italiana.

 

República Fascista de Saló

 

Em 1943, após o desembarque dos Aliados na Sicília e a queda de Mussolini e do fascismo, o general Pietro Badoglio, que fora membro ativo do governo fascista, comandando as forças italianas na invasão da Etiópia, foi nomeado chefe do novo governo pelo rei Vittorio Emanuele. A esse título, assinou o armistício com os Aliados, em 8 de setembro de 1943, e fugiu, a seguir, junto com a família real, em direção ao sul da península, já livre dos alemães, deixando os habitantes da capital à mercê dos nazistas. A fuga do governo, que deixou o exército acéfalo, determinou a morte e a deportação nos campos nazistas de milhares de militares italianos.

 

Encarcerado pelos Aliados em julho de 1943, Mussolini foi libertado dois meses mais tarde pelos nazistas que, com o apoio do pequeno exército da República fascista de Salò, formada às pressas no norte da Itália, ocuparam a parte setentrional da península, de onde foram empurrados, cada vez mais, para o norte, pela ação da guerrilha comunista italiana e das tropas aliadas, entre as quais se encontravam os trinta mil soldados da Força Expedicionária Brasileira.

 

Após a liberação de Roma, em 4 de junho de 1944, as forças militares nazi-fascistas foram obrigadas a retroceder para uma nova linha defensiva [Linha Gótica] que atravessava a Itália de oeste a leste, do mar Tirreno ao Adriático, passando pelas regiões da Emília-Romanha e da Toscana, um pouco acima das cidades de Florence, Prato, Pistoia e Lucca.

 

Luta Guerrilheira

 

As zonas montanhosas do Apenino e dos Alpes Apuanos – e, portanto, da Garfagnana, onde se encontra Sant’Anna di Stazzema – constituíam refúgio privilegiado para as divisões da guerrilha comunista que, engrossadas crescentemente por ex-soldados italianos, lançavam freqüentes assaltos contra os ocupantes nazistas e seus cúmplices fascistas.

 

Para impedir que homens e mulheres se incorporassem à resistência, reprimir as ações da guerrilha e desalojar os combatentes de seus refúgios, os nazi-fascistas promoviam batidas sistemáticas nas aldeias de montanha, que serviam também para arrolar à força soldados para os exércitos da República de Salò, não hesitando em massacrar a população civil para mantê-la subjugada nem que fosse pelo terror.

 

Na manhã de 12 de agosto de 1944, a população de Sant’Anna di Stazzema possivelmente interpretou as notícias sobre a chegada, pela pequena estrada serrana, de uma coluna alemã como mais uma operação para obter soldados para as forças armadas fascistas. Devido a isso, os homens esconderam-se em posições mais elevadas dos montes, permanecendo mulheres, velhos e crianças na aldeia.

 

Vingança contra a População

 

Ninguém imaginava o desdobramento dos sucessos. Os habitantes do núcleo central da pequena povoação foram despertados do sono por soldados alemães e administradores fascistas locais e reunidos diante da igreja, onde todos, homens e mulheres, velhos, adolescentes, crianças e bebês, foram sumariamente fuzilados e, a seguir, queimados. Outros foram perseguidos e executados enquanto se refugiavam na mata ou foram trucidados nas velhas e pobres casas de pedra, sendo queimados a seguir junto aos poucos móveis e animais.

 

Mais tarde, após longas horas escondidos em antigas minas e pedreiras da região, ao voltarem para suas casas, os homens encontraram um cenário de horror: só lhes restou enterrar as centenas de mortos em valas comuns e tentar reconstruir o que sobrara de suas casas, de seus campos, de suas vidas arrasadas pela bestialidade nazi-fascista.

 

O crime contra a pequena e desprotegida aldeia não foi um mero acesso de crueldade. Como boa parte das tropas nazi-fascistas da região, a divisão alemã responsável pelo massacre da população civil de Sant'Anna vinha sendo duramente atacada pela resistência. Incapazes de reprimir e destruir essa guerrilha, vingaram-se simplesmente, de modo impiedoso, contra inermes mulheres, velhos, crianças e bebês.

 

Memória e Impunidade

 

Os parentes das vítimas e os poucos sobreviventes esperaram até 2005 para verem condenados à prisão perpétua dez ex-membros das SS que tinham seus nomes, junto com 405 outros responsáveis por crimes perpetrados contra a população civil italiana entre 1943-1945, registrados em 695 processos em poder da Justiça italiana desde o fim da guerra, mas mantidos sob segredo por pressão do governo dos EUA, interessado no apoio dos conservadores alemães e italianos contra o movimento social e operário da península. Apenas em 1994, esses registros foram encontrados por acaso, num armário fechado.

 

Em inícios dos anos 2000, durante o processo penal que se desenvolveu no Tribunal Militar de La Spezia, alguns testemunhos – como Mauro Pieri, Lídia Pardini e Alba Battistini, que, na época do massacre, ao qual escaparam milagrosamente, tinham 12 anos os dois primeiros e 15 a última – atestaram formalmente que, entre os algozes, havia quem falasse italiano, até mesmo no dialeto e com o sotaque da região. Não houve investigação ou processo contra esses criminosos fascistas italianos.

 

Em desrespeito cabal à memória das 560 pessoas violentadas, humilhadas, torturadas, trucidadas e queimadas e das centenas de milhares de populares italianos golpeados pelo fascismo, nesse 7 de setembro de 2008, Gianni Alemanno, atual prefeito de Roma - ex-militante do Movimento Social Italiano, partido neo-fascista fundado em 1946, e, após sua dissolução, da também direitista Aliança Nacional -, declarou, durante visita ao Museu do Holocausto, em Israel, que não houve mal absoluto no fascismo, mas apenas nas leis raciais que esse promoveu, segundo ele, em uma outra agressão à história, apenas cedendo à pressão de Hitler.

 

Florence Carboni, italiana, lingüista, é professora do curso de Letras da UFRGS. E-mail: fcarboni(0)via-rs.net

 

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