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Os grampos do poder paralelo Imprimir E-mail
Escrito por Léo Lince   
Quarta, 03 de Setembro de 2008
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Uma frase, destacada na página de opinião da "Folha de S. Paulo" (2/9/2008), fornece a chave de decifração do atual momento político brasileiro. A professora Raquel Rolnik, estudiosa séria, afirmou que "o Estado brasileiro, em todos os níveis, perdeu a capacidade de formular projetos. Opta por uma interlocução privilegiada com os empreiteiros".

 

A afirmação terrível veio a propósito de um absurdo plano de obras viárias oferecido por construtoras para "servir de orientação" aos candidatos que disputam a eleição paulistana. No mesmo dia, o jornal estampa o propósito dos governadores Serra e Cabral de construir uma nova rodovia ao lado da Dutra, outro absurdo originário da mesma procedência.

 

O ideário da supremacia absoluta do poder privado, inaugurado na era Collor, consolidado no período Fernando Henrique e levado ao seu ponto culminante no governo Lula, está na raiz de todos os nossos desacertos, não apenas no contexto analisado pela professora Rolnik. O momentoso caso dos telefones grampeados, por exemplo, não passa de mais uma manifestação do mesmo fenômeno.

 

Os barões da telefonia privatizada estão em guerra. Os oligopólios que lutam para restabelecer o monopólio, desta vez privado, neste setor essencial e altamente rentável, operam na base do vale-tudo da máquina mercante. É o retorno a um contexto medieval, onde o poder dissolvente do dinheiro controla tudo. O cerne do poder público foi tomado de assalto pelos barões do poder privado, financiam o intestino grosso da pequena política e mandam nos poderes da república dilacerada.

 

Com os recursos da moderna tecnologia, qualquer araponga pode grampear sem autorização judicial. Tanto os que brigam entre si acoitados no aparato estatal, quanto os "empreendedores" da iniciativa privada. Os donos das empresas telefônicas, então, nem se fala. Bebem na fonte. E usam a posição privilegiada no reforço do interesse próprio. Todos se lembram, no início do processo de privatização da telefonia, dos famosos grampos da Telebrás. Até o presidente da época, FHC, foi grampeado. E os brasileiros tomaram conhecimento de expressões como "no limite da irresponsabilidade", "telegangue" e "rataiada". Agora, em vias de mais um rearranjo de poder na estrutura de um serviço público essencial que jamais poderia ser privado, retorna ao noticiário a grampolândia dos barões assinalados.

 

Sem poder público digno deste nome, controlado democraticamente pela cidadania e capaz de se sobrepor aos pontos fortes do poder privado, a República é retalhada em postas e se decompõe por falência múltipla dos órgãos. O mau exemplo vem de cima aos borbotões e contamina a totalidade do tecido social. Os tiranetes no varejo das drogas ilícitas, as milícias que se apropriam de territórios nas grandes metrópoles, as religiões de rebanho que montam impérios, as grandes corporações que dominam a economia, as máquinas eleitorais do interesse puro se equiparam como expressões da catástrofe que nos ameaça.

 

Quando o poder público se deixa dominar pela ideologia privatista, a sociedade passa a funcionar como um aglomerado de hordas. Guerra de todos contra todos, insegurança generalizada. Quando o poder soberano que emana do povo perde a primazia, tudo é permitido aos poderes paralelos dos mais variados calibres. O totalitarismo do mercado se afirma nos grampos do poder paralelo.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Última atualização em Sexta, 05 de Setembro de 2008
 

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