Obama: apenas uma ilusão americana

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Barack Obama surgiu como uma esperança não apenas para os americanos, mas também para o mundo. Suas posições liberais e sua coragem lhe deram maior visibilidade quando foi dos raros senadores que ousou enfrentar a opinião pública votando contra a invasão do Iraque.

 

Assim, a pré-candidatura de Obama a presidente conseguiu algo de inusitado: entusiasmar pelas eleições amplos setores da população, particularmente a juventude, desencantados com os cínicos políticos de plantão, que trocam de posição conforme suas conveniências.

 

Ao garantir que retiraria as tropas americanas do Iraque em 16 meses, deu maior credibilidade à sua bandeira de "mudança" no governo do país, assumida como artigo de fé por democratas e independentes.

 

O problema é que quem começou a mudar foi ele. No melhor estilo do "establishment" político, por ele condenado, levou seu apoio a Israel a extremos tais como considerar o extinto Sharon como "absolutamente construtivo para o processo de paz"; apoiou a invasão do Líbano e o bombardeio de Gaza; sustentou que o programa nuclear do Irã tinha de ser detido, senão pela diplomacia, que fosse pela força; defendeu a manutenção de uma presença militar no Iraque, ainda que limitada, para garantir a democracia e o petróleo.

 

Para os setores mais esclarecidos, tudo isso foi decepcionante. Obama parecia estar pegando a doença do oportunismo que assola a política americana. Estariam pesando fatos tais como: o voto judeu representa muito nas prévias de Nova York e Flórida; a eficiente campanha de propaganda do governo Bush seduzira a opinião pública contra o Irã; não convinha antagonizar-se com a poderosa indústria petrolífera, renunciando às reservas iraquianas ao retirar-se. Mas a massa do eleitorado de Obama mostrou-se tolerante, ainda que receosa, afinal, McCain seria muito pior...

 

Depois de consagrado candidato do partido, Obama passou a ser mais cauteloso. Temeu ser marcado como muito liberal pelo eleitorado americano, tradicionalmente conservador. Num curto espaço de tempo, aplaudiu a decisão da Suprema Corte, vetando a proibição de armas de fogo no Distrito de Columbia, apoiou uma lei de maior liberação das escutas telefônicas, à qual ele havia prometido se opor, falou a favor da pena de morte para estupradores de crianças e, mais importante, deixou dúvidas sobre a retirada do Iraque em 16 meses.

 

Não deu certo. Obama esqueceu-se de que, depois de oito anos de péssimo governo republicano, o conservadorismo do povo americano estaria abalado. Subestimou a juventude e os independentes que ele tinha inflamado com sua imagem de político sincero e de visão aberta, capaz de mudar o país.

 

A realidade foi dura. Se em 25 de junho (pesquisa Priceton Survey-Newsweek), Obama tinha 15% a mais do que o adversário, um mês depois (Rassmussem Report) estava empatado.

 

Obama sentiu o golpe e assegurou que ele foi mal entendido. Não havia alterado suas grandes propostas liberais. E garantiu: "Acabarei com a guerra do Iraque quando eu for presidente".

 

Porém, chega a convenção democrata e nova escorregada. Obama escolhe o senador Joe Biden para seu candidato a vice. A razão: McCain vinha insistindo na falta de experiência de Obama em política internacional. Biden tem de sobra – desde 1972 pertence à Comissão de Relações Internacionais do Senado, várias vezes como presidente.

 

Mas será que experiência vale mais do que competência e lucidez? Vamos aos fatos. Desde 1998, Biden defendia a invasão do Iraque. Antes da decisão favorável do Senado, na sua privilegiada posição de presidente da Comissão de Relações Exteriores, ele promoveu uma campanha pra vender a idéia da guerra aos senadores ainda céticos. Recusou-se a admitir que autoridades no Oriente Médio, inclusive membros do Pentágono e Scott Ritter, inspetor da ONU no Iraque, depusessem nas audiências públicas para discutir as armas de destruição em massa, presumivelmente, de posse de Saddam Hussein. Exatamente porque esse pessoal contestava a acusação.

 

Em compensação, convocou indivíduos de dúbias credenciais que acusaram Saddam de dispor de um verdadeiro arsenal biológico e atômico. Foi certamente o senador que mais ajudou Bush na sua tarefa de conquistar os votos dos congressistas e o apoio do povo para a guerra.

 

Recentemente, quando a opinião pública voltou-se contra a invasão, Biden mudou de idéia. Declarou-se arrependido. No entanto, suas críticas dirigiam-se contra o modo com que Bush conduziu a guerra e a ocupação, não contra sua legitimidade.

 

Embora os democratas tivessem votos suficientes para acabar com a ocupação simplesmente negando os fundos requeridos por Bush, Biden sempre se opôs: "Enquanto existir uma simples tropa no Iraque, eu não posso e nem votarei contra a concessão de recursos para eles".

 

O Iraque continuou na mira de Biden quando defendeu a idéia de dividi-lo em três países – xiita, sunita e curdo –, o que, certamente, liquidaria seu projeto de Estado desenvolvido. E deixou os iraquianos indignados.

 

Enquanto Obama defende a paz e a diplomacia para resolver os conflitos internacionais, o "experiente" Biden vai por outros caminhos. Tem sido um dos líderes no Congresso da militarização do Oriente Médio e do Leste Europeu, de severas sanções econômicas contra Cuba e de apoio às políticas de ocupação de Israel, inclusive a de derrubar as casas de parentes de terroristas. Ele diz ser um "sionista genético" e que a questão do Oriente Médio só terá progressos quando os árabes se convencerem de que "nada separa os Estados Unidos e Israel".

 

Em 1995, foi co-autor de uma proposta congressual que tornava Jerusalém capital de Israel e indivisível. Obama repetiu esta mesma tese. Mas, posteriormente, se desdisse, afirmando que os povos da região é que deveriam resolver esta questão.

 

A escolha de Biden é mais uma prova de oportunismo do candidato da "mudança". Suas apregoadas qualidades de sinceridade, coragem e abertura parecem estar mais no reino da ilusão.

 

A dúvida que fica é até onde vai esse oportunismo. Chegando à presidência ele voltará a ser o Obama de antigamente? Ou, para evitar problemas com o complexo industrial-militar, a indústria petrolífera, a burocracia do partido e o lobby israelense, continuará a política imperial de George Bush? Provavelmente de forma diplomática, moderada, inteligente, respeitando o multilateralismo e as normas do Direito Internacional.

 

Até os interesses do "establishment" americano se sentirem ameaçados, é claro.

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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Comentários   

0 #3 Obama é pragmáticoRafael Benevides 15-09-2008 14:23
Obama é pragmático. Só mesmo se posicionando mais ao centro ele poderá ganhar as eleições e assim implementar suas posições mais de esquerda. Todos sabem que a maioria dos EUA e´conservadora. Ficar na extrema esquerda por todo o tempo não ganha eleição alguma. A teoria do votante de médio de Duncan Black e Antony Dawns explica isso.

Obama perdeu vantagem porque os independentes penderam para McCain. Na verdade, não foi Obama quem perdeu eleitorado, e sim McCain quem ganhou. Uma análise mais precisa dessa situação foi feita pelo site politico.com:

http://www.politico.com/news/stories/0908/13422.html
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0 #2 Antonio Ferreira Lima Neto 31-08-2008 17:30
É incrível como algumas pessoas, dentre elas militantes honestos, como ativistas do movimento negro e de outros movimentos, deixam-se enganar pela figura do imperialista Barack Obama pelo simples fato dele ser negro. Não conseguem visualizar que, apesar desta característica, ele faz parte do establishment ianque. Suas constantes mudanças de posições acerca de temas cruciais da política internacional, como a ocupação do Iraque, o conflito na Palestina, a questão do Irã, o trato com o terrorismo, mostram bem a quem ele serve.
Aos desavisados e aqueles que não aprenderam a lição com Lula, Chavez e Cia, esperem por mais uma decepção chamada Barack Obama!
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0 #1 Pera aí, companheiro!antonio mourão cavalcante 30-08-2008 09:14
Quando, no Brasil, o Lula escolheu o José Alencar como vice - em duas ocasiões - não se falou em oportunismo. Por que? Quem dita a política é o titular e as alianças eleitorais são circunstanciais. Os discursos da Convenção são declarações oficiais. E ai?...Será que Obama não foi suficientermente claro?
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