Partido Democrata: ofensiva ou defensiva eleitoral?

 

Dias atrás, o Partido Democrata anunciou a escolha do candidato à vice-presidência: senador Joseph Biden, presente no Congresso há mais de 35 anos, onde encabeça a Comissão de Relações Exteriores. As pesquisas mais recentes apontam um empate técnico entre os dois postulantes, ainda que com leve vantagem para o senador Barack Obama.

 

Superada a árdua fase de meses das primárias, os democratas passaram a apontar o seu representante como a face da renovação necessária; os republicanos, por outro lado, como a da inexperiência, especialmente em política exterior. Nesse sentido, a escolha de Biden - ele mesmo pré-candidato à indicação de seu partido até janeiro deste ano - tende a amenizar as críticas quanto à ausência de tarimba administrativa do titular da chapa.

 

Além do mais, a preferência por seu nome proporciona mais desenvoltura à campanha democrata, em virtude de três fatores basicamente: a sua boa circulação em Washington, onde tem sido um dos parlamentares mais atuantes, tendo-se desempenhado bem durante a prevalência republicana na década de 80. À frente da Comissão de Justiça, ele conseguiu indeferir em 1987 a indicação do ultraconservador Robert Bork pelo presidente Ronald Reagan para o Superior Tribunal; a aproximação com trabalhadores de áreas industriais, setor do qual ele havia feito parte em sua juventude e de onde extraiu consistência eleitoral ao longo de sua duradoura carreira; e, por último, a atração do eleitorado católico, credo a que pertence este irlando-americano. A sua desenvoltura extrapolou o peso político de seu estado, Delaware, pouco significativo no colégio eleitoral.

 

O ponto mais explorado no tocante à ausência de experiência de Obama localiza-se na política externa. Biden habilita-se sem dificuldades para contrapor-se às investidas dos republicanos, até em decorrência de seu importante cargo no Senado.

 

Pessoalmente, o parlamentar ainda conta com um trunfo político concernente à Segunda Guerra do Golfo: seu filho, Joseph Biden III, é capitão da Guarda Nacional de Delaware, não obstante ser o Procurador-Geral de Delaware, ao ter sido eleito em 2006.

 

Sua unidade deve ser enviada para o Iraque provavelmente em outubro próximo, às vésperas da eleição presidencial. Isto põe frente a frente o destemor e o desprendimento familiar do candidato republicano, com dois filhos oficiais em solo iraquiano. Assim, a possibilidade de invocar a idéia de sacrifício pela pátria iguala-se.

 

Embora Biden tenha apoiado o governo Bush no lançamento da Segunda Guerra do Golfo, algo que acertadamente Obama não fez, ele se tornou ferrenho crítico do confronto. Em seu favor, o amparo foi concedido com reticência, visto suas ponderações anteriores para esgotarem-se ao máximo os canais diplomáticos. Todavia, ele não esteve isolado em seu partido: os senadores John Edwards e Hillary Clinton também votaram a favor da invasão.

 

Seus protestos contra a existência de prisões como a de Guantánamo, onde não vigorava plenamente o teor das convenções de Genebra, foram constantes. Desta maneira, ele posicionou-se também em desfavor da chamada Guerra ao Terror, utilizada de distintas maneiras pelos governos aliados dos Estados Unidos, ao não identificar-se um real adversário.

 

Para ele, o medo não poderia ser o fio condutor da política externa estadunidense – em sua malograda campanha à indicação democrata, ele havia mencionado isto ao criticar a plataforma do republicano Rudolph Giuliani. Ao proceder desta forma, a liderança norte-americana no curto prazo solapar-se-ia e com ela a credibilidade política perante a sociedade internacional.

 

No Senado, ele havia delineado em 2006 um projeto para pôr a termo o impasse iraquiano: a federalização do país, com três governos regionais - xiitas, sunitas e curdos – e um central para administrar defesa e política externa. Diante da intransigência republicana, a proposta não avançaria.

 

Por fim, a predileção pelo nome de Biden revelou um posicionamento eleitoralmente defensivo dos democratas, visto que se buscaram anular as críticas lançadas pelos republicanos a Obama. Conquanto agregue qualidade política à candidatura, a escolha prévia aos republicanos possibilitar-lhes-á a contra-ofensiva: um vice que poderá opor-se ao perfil do parlamentar de Delaware.

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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