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É doce morrer no mar Imprimir E-mail
Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer   
Terça, 26 de Agosto de 2008
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Peço licença e parafraseio o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, que colocou em epígrafe de sua buliçosa e brejeira canção ‘Aquele abraço’ uma evocação que é quase louvação: "Esse samba vai pra Dorival Caymmi...". E sigo pedindo a mesma permissão, eu que não sou artista e muito menos música, mas que ouso dizer: "Essa crônica vai pra Dorival Caymmi...".

 

Eu o vi pessoalmente apenas uma vez, e recentemente. Sua neta e biógrafa Stella é minha ex-aluna, amiga e companheira de fé. No aeroporto do Galeão, voltava eu de alguma peregrinação teológica Brasil afora quando vejo Stella em meio à numerosa família: tios, primos etc. E ela me pergunta, carinhosa: "Quer conhecer meu avô?". Claro que quis. E tive o privilégio de olhar e ser olhada pelas pupilas de água calma como a lagoa escura do Abaeté do mestre Dorival. Sentado em sua cadeira de rodas, cercado pelo carinho de todos, sua figura era doce e seu sorriso muito mais.

 

Doce é Caymmi, doce é sua música. Feita de Brasil do começo ao fim, de tudo que compõe a mais profunda e visceral identidade de nossa terra: mar, areia, sol, céu, belas mulheres morenas, pescadores que vão e voltam. E outros pescadores que vão e não voltam. Mas mesmo a ausência e a morte são cantadas por Caymmi com doçura. Sua voz de veludo e seu violão plangente sempre comunicaram serenidade, contemplação, êxtase.

 

Gênio da canção brasileira, chamado justamente por muitos de "inventor" da mesma, Caymmi não foi menos o grande gênio da simplicidade. Tudo em sua música é belo e simples e belo porque simples. De uma simplicidade refinada, radical, que buscou a harmonia exata, a palavra precisa, para dizer a mensagem de sempre: que o mar, a Bahia, a morena e a vida são lindas, gostosas e devem ser saboreadas sorvo a sorvo até o fim.

 

Cultor e cantor da Bahia, sua terra natal e marca de sua identidade, o compositor foi igualmente um apaixonado pelo Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte de sua vida. Aqui conheceu Stella Maris, sua amada e fiel companheira de muitíssimas décadas, com quem formou família. Aqui morou, em Copacabana, com essa família que gravitava em torno de uma indiscutível e obrigatória personagem: a música. Tudo era música na vida de Caymmi e dos Caymmi. Esposa cantora, filha cantora, filhos músicos, mestre Dorival gerou uma sinfonia humana e familiar que constitui patrimônio perene da voz e dos corações brasileiros.

 

As músicas de Caymmi são igualmente povoadas por um verdadeiro panteão de deuses, orixás e divindades plurais. Plurais como é plural a religiosidade do povo baiano. E entre essas todas, destaca-se a figura de Iemanjá, a dos cinco nomes, deusa das águas e do mar, por ele citada em muitas de suas composições. Iemanjá é aquela dona das águas que leva saveiros e pescadores, deixando mulheres sozinhas e tristes. Mas na música de Caymmi o pescador não é arrancado violentamente da vida. Pelo contrário, sua relação com o mar é doce, amorosa, nupcial mesmo.

 

Não é a toa que do pescador que não volta em ‘É doce morrer no mar’, Caymmi diz que, apesar de deixar a amada nas trevas da noite triste, ele não mergulha na solitária escuridão. Ao contrário, "faz sua cama de noivo no colo de Iemanjá". O saveiro que volta vazio levou o pescador não para o vácuo de uma eterna ausência, mas para um encontro amoroso em bodas definitivas com as ondas verdes do mar e com a deusa das águas que o acolhe em seu colo maternal.

 

Assim se foi Caymmi, deixando um rastro de beleza, doçura e amor. Impossível olhar e mergulhar nas águas verdes do mar de Copacabana ou da Bahia e não encontrá-lo, docemente "afogado" de amor, como noivo. Tanto amou a vida, tinha que entrar na morte assim, docemente, amorosamente, nupcialmente. No mar infinito que é a fonte da vida, de onde todos viemos e para onde todos voltamos, Caymmi foi finalmente, totalmente, apaixonadamente abraçado pelo autor de toda vida, pela fonte de todo amor.

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio e autora de "Deus amor: graça que habita entre nós", e outras obras.

 

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