A classe trabalhadora está dizendo não

 

A truculência do governo Serra e da direção da Companhia do Metrô contra os metroviários, a extensão da resistência à Emenda 3 na classe trabalhadora e a ampla solidariedade aos 5 sindicalistas metroviários demitidos, após a paralisação do dia 23, merecem três reflexões.

 

A primeira questão é: qualquer tentativa de mexer em direitos trabalhistas tende a provocar uma reação generalizada da classe trabalhadora. Divide-se o país de norte a sul entre capital e trabalho; a reação à Emenda 3 atraiu até as centrais sindicais governistas e conservadoras para uma ação efetiva. Isso porque será inviável para qualquer direção sindical manter-se confortável em seus postos, caso avalizem ou se omitam diante da retirada de direitos trabalhistas das suas bases.

 

Claro que, no caso da Emenda 3, o fato de o governo Lula ser favorável ao veto facilitou a movimentação do sindicalismo governista, embora não se deva aceitar nesse caso, em contrapartida ao veto, nenhum substitutivo que busque manter a lógica de mexer em direito trabalhista.

 

Mas a lição foi clara: a retirada de direitos trabalhistas tem potencial de mobilização da classe trabalhadora, de provocar enfrentamentos muito claros e delimitados entre capital e trabalho. Por isso é que se tenta fazer essa reforma de maneira fatiada, embora o grande capital tenha voltado a fazer campanha para que a reforma trabalhista seja acelerada.

 

A segunda questão é: a restrição do direito de greve está na pauta imediata da grande burguesia. A campanha foi aberta pra valer a partir do movimento dos controladores de vôo. Agora, no caso dos transportes urbanos, após a paralisação do dia 23, tanto governo Serra como a ampla campanha desenvolvida na grande mídia pedem o fim do direito de greve também neste setor.

 

Mas quem deu o start para essa campanha foi exatamente o governo Lula, ao anunciar que enviará projeto para regulamentar o direito de greve no setor público. De onde podemos concluir que o grande problema da classe trabalhadora é enfrentar a unidade estabelecida entre a agenda do grande capital, o governo Lula e os governos estaduais tucanos.

 

O que nos leva à terceira reflexão: a tentativa de quebrar os sindicatos e as greves também tem a ver com a política de remover obstáculos para impulsionar o processo de privatizações nas áreas ligadas à infra-estrutura, através das Parcerias Público-Privadas. Nunca é demais lembrar o lugar que os metroviários de São Paulo e o sindicato ocuparam com a greve contra a privatização do Metrô em agosto passado e com as denúncias feitas quando da tragédia na obra da estação Pinheiros da Linha 4, em janeiro deste ano.

 

Tragédia que resultou na perda de 7 vidas humanas, sem que ninguém tenha sido punido até agora, especialmente as empreiteiras privadas responsáveis pela obra. Tratamento bem diferente estão recebendo agora os metroviários que fizeram uma paralisação de duas horas...

 

Também nunca será demais lembrar que o ponto de partida veio do governo Lula, não apenas através do PAC, mas desde quando, no primeiro mandato impulsionou a aprovação da Lei das PPPs no Congresso Nacional em fins de 2004.

 

Portanto, estamos diante de uma agenda de grande monta do capital, mas igualmente de uma possibilidade ímpar de construir uma resistência unitária da classe trabalhadora na mobilização direta contra essa agenda e os seus operadores: governos federal e estaduais.

 

Estão aí para demonstrar isso os metroviários, que, de cabeça erguida, estão com indicativo de greve marcado a partir do dia 7 e com uma ampla unidade que está consolidada para a realização de um grande dia nacional de luta em 23 de maio.

 

 

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

 

Para comentar este artigo, clique {ln:comente 'aqui}.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados