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Belo Monte: a importância do debate Imprimir E-mail
Escrito por Juliete Miranda Alves   
Sexta, 22 de Agosto de 2008
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Ao longo de sua história, a Amazônia tem gerado sempre mais recursos para fora do que tem recebido como retorno. A região tem sido um lugar de exploração, abuso e extração de riquezas. Em períodos históricos não tão distantes, imperaram os grandes projetos para a Amazônia sem qualquer critério de debate. Naqueles períodos conflituosos, restava para a sociedade civil acatar e resignar-se, o que nem sempre aconteceu. Foi emblemático o caso da construção da hidrelétrica de Tucuruí, em torno da qual se formaram movimentos contestando a sua construção. Nesses últimos 20 anos, Belo Monte tem sido um dos projetos hidrelétricos mais discutidos do Brasil. Além de fortes movimentos a favor e contra a sua execução, o assunto foi tema de inúmeros artigos científicos, dissertações e teses de mestrado e doutorado. Neste texto, eu gostaria de abordar uma questão que considero significativa para a reflexão: a mobilização dos movimentos sociais, que tomaram com vigor a frente nessa discussão.

 

Nessas duas décadas de discussão, formaram-se grupos de interesses distintos e um quadro de confrontos e discursos reveladores. Em Altamira, esses interesses diversos estão colocados no espaço público: empresários e comerciantes de um lado, a favor da construção da usina, e, de outro lado, contra, estão categorias até então discriminadas socialmente, tais como as mulheres, os índios, ribeirinhos e os trabalhadores rurais. Merece destaque a atuação dos grupos indígenas e a representação social que estes têm desta barragem como uma ameaça ao seu modo vida. Estas representações sociais (formas de visões do mundo que têm por objetivo explicar e dar sentido aos fenômenos) se manifestam em ações no espaço público, que por excelência é o local do jogo político.

 

 

O momento mais ilustrativo deste embate, e que se constituiu num marco simbólico de contestação, foi o ato da índia Tuíra, de passar o facão no rosto do então representante da Eletronorte, no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em 1989. Foi graças à ação dos Kayapó que, logo em seguida, o Banco Mundial-BIRD retirou o apoio financeiro às novas usinas na Amazônia. Tentando reverter a imagem negativa associada ao barramento planejado do Xingu, o projeto antes intitulado de Cararaô mudou de nome para Belo Monte.

 

Outro momento marcante, mais recente, também envolvendo os índios foi o ocorrido com o interlocutor da Eletrobrás em Altamira, ferido por Kayapó no ginásio onde ocorria o "Encontro Xingu Vivo para sempre". O Jornal o "Liberal" de 28 de julho de 2008, comentando sobre o ocorrido, relatou que os índios foram "importados" do município de Redenção para o evento. O jornal observou também que a hidrelétrica ficará a mais de 600 quilômetros das áreas Kayapó, como se este fosse um critério fundamental para discutir ou criticar a construção da barragem.

 

Ora, a grande vitória dos movimentos sociais, em mais de duas décadas de luta, está em ter tornado este debate uma questão de interesse nacional. Na verdade, é importante que todos os brasileiros pensem na questão da barragem, questionando, discutindo, debatendo e também criticando um projeto que mudaria de forma profunda, além do aspecto ambiental, as relações sociais e econômicas na Amazônia. Então, por esta ótica, a distância de 600 quilômetros que separa as terras dos índios Kayapó do local da barragem de Belo Monte não é tão grande assim.

 

Os equívocos dos planos, projetos e programas federais nas últimas décadas encontraram resistência nas classes mais pobres e, contraditoriamente, fortaleceram organizações de mulheres, camponeses, índios etc. Dessa vez, os movimentos sociais não estão sozinhos, uma parte importante de representantes do Ministério Público se orienta em questionar a construção da barragem, baseados na lei, mas também na reação muitas vezes violenta aos grupos que se opuseram à forma impositiva de mais um projeto para a Amazônia. O debate não somente foi, mas continua necessário, assim como o confronto e o conflito que foram determinantes para as mudanças nesta barragem desde sua origem como Cararaô até os dias de hoje como Belo Monte.

 

Juliete Miranda Alves, socióloga, diretora da faculdade de Ciências Agrárias da UFPA-Campus de Altamira.

 

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