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Uma tragicomédia de equívocos Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 15 de Agosto de 2008
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Nesta Olimpíada, George Bush acaba de ganhar a medalha de ouro na modalidade "cinismo", ao condenar a violação russa da soberania da Geórgia esquecendo o que ele fez e faz no Iraque.

 

John McCain também protestou, exigindo que Moscou se retirasse, incondicionalmente, mas a medalha de prata foi para Barack Obama. Apesar de sua sempre apregoada independência, fechou com os republicanos e o "establishment" americano, acusando a Rússia de "contínua violação da soberania da Geórgia e da integridade do seu território".

 

Há nesses pronunciamentos uma série de equívocos. A rigor, não se pode dizer que a Ossetia do Sul integra e Geórgia. Aqui, convém uma explicação histórica.

 

Quando caiu o regime czarista, os mencheviques, derrotados pelos bolcheviques na luta pelo poder, aproveitaram o caos que tomou conta da nova república para conquistar a Geórgia, anexando a ela a Ossetia do Sul e a Abkhazia. Em 1924, Stalin retomou a região e criou a República Socialista da Geórgia, dentro da União Soviética, mantendo as áreas anexadas pelos seus rivais.

 

Com o fim do comunismo, a população osseta (mais de 2/3 de etnia russa) revoltou-se contra uma nacionalidade que lhe fora imposta. Seguiu-se uma guerra civil que terminou com um acordo de paz em 1992. A Ossetia do Sul tornou-se uma república autônoma, independente de fato do governo de Tbilisi, embora não reconhecida pela ONU, União Européia e Estados Unidos.

 

Continuando a focar equívocos, lembremos que o agressor não foi a Rússia, mas sim a Geórgia que, sem aviso, invadiu a pequena república vizinha, praticamente arrasando com artilharia e tanques a capital Tskhinvali. O governo de Moscou reagiu prontamente, enviando tropas que logo expulsaram os georgianos. Foi uma atitude legal, pois, como disse Putin, "conforme os acordos internacionais, a Rússia é obrigada, no caso de uma das partes quebrarem o acordo de cessar-fogo, a defender a outra parte, o que estamos exatamente fazendo".

 

Assim não entendeu a grande mídia internacional, que divulgou a imagem do presidente Saakashvili como um líder impoluto de um pequeno país, que teve cidades arrasadas pelo exército russo, e populações inteiras vitimadas, objeto de uma ponte aérea prometida por Bush para lhes levar socorro humanitário.

 

É um terceiro equívoco. Saakashvili não é exatamente o "mocinho" desta história. Ele ganhou o poder em 2003 contra o corrupto governo do presidente Shervanadze, através da chamada "Revolução Rosa", uma bem sucedida operação de marketing político urdida pela CIA e financiada por agências do governo americano e pelo trilionário George Soros.

Tornou-se fraternal amigo de George Bush, que o apontou ao mundo como um exemplo de governo democrata. Manchou esta reputação na campanha pela reeleição, quando sua polícia dissolveu violentamente uma manifestação da oposição, ferindo 500 pessoas. Foi mais além, impedindo a imprensa independente de criticá-lo e realizando uma eleição cheia de fraudes, constatadas por observadores da OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa).

 

Foi provavelmente para tirar a atenção do seu povo destes assuntos pouco lisonjeiros para seu governo que Saakashvili teria resolvido atacar a Ossetia do Sul. E o fez de um modo bastante discutível: após uma reunião com os líderes da Ossetia do Sul, membros da OSCE e das forças de paz da Rússia para discutir a situação do território, ordenou surpreendentemente o bombardeio de Tskhinvali. Segundo o apolítico website Reliefweb, "a destruição foi apavorante e parece que muitas centenas de civis morreram como resultado do ataque inicial dos georgianos". Calcula-se que foram entre 1.500 e 2.000 no final, merecedores de ajuda humanitária mais do que os georgianos, cujos mortos não passaram de algumas centenas, todos na cidade de Gori, tomada pelos russos, a qual sofreu danos pouco significativos.

 

Especula-se que Saakashvili acreditou em Bush quando o presidente americano, no ano passado, prometeu solenemente estar ao lado do seu aliado em qualquer circunstância. Contava que seu exército, equipado pelos Estados Unidos e treinado por 1.000 instrutores militares americanos, poderia resistir durante tempo bastante para a Casa Branca conseguir que a ONU ordenasse a retirada dos russos. E depois decidisse a favor da Georgia, pelo fim da autonomia da Ossetia do Sul, fiel a seu princípio de só reconhecer a independência de países que já eram repúblicas nos tempos do império soviético.

 

Nada disso aconteceu. Bush ficou em condenações retóricas. Vencedores, os russos garantem que a Ossetia do Sul e também a Abkhazia jamais voltarão a fazer parte da Geórgia e passarão a ser países independentes de fato e de direito. E argumentam: não foi o que a ONU fez com Kosovo? Falando em equívocos, esse teria sido mais um.

 

Luiz Eça é jornalista.

 

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