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Geórgia: a ilusão da ocidentalização Imprimir E-mail
Escrito por Virgílio Arraes   
Qui, 14 de Agosto de 2008
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De quatro em quatro anos, a sociedade internacional dedica-se a acompanhar um sem-número de batalhas, porém de caráter meramente esportivo. Durante pouco mais de duas semanas em cada quatriênio a atenção desloca-se para o quadro de medalhas, número de recordes obtidos, classificação do país do espectador etc. É um período, portanto, em que outros eventos figuram normalmente em plano secundário nos meios de comunicação.

 

Contudo, a 29ª Olimpíada, aberta em Pequim na semana passada, compartilhou os olhares do globo com um inesperado acontecimento: a refrega iniciada no dia 8 de agosto entre Rússia e Geórgia, onde se misturam questões étnicas, energéticas e de segurança regional. À primeira vista, o confronto seria considerado guerra civil, sem possibilidade de que grandes potências se intrometessem diretamente, por falta de legitimidade política.

 

Todavia, durante o segundo mandato do presidente Bill Clinton, a classificação tradicional de conflitos foi posta de lado, de forma que o padrão da soberania também. Assim, providenciou-se a justificativa para que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) pudesse intervir na Guerra do Kosovo, em desfavor das reivindicações sérvias de união territorial, ao se invocar a violação sistemática de direitos humanos da minoria kosovar.

 

Na ocasião, a Rússia, historicamente mais próxima da Sérvia em função do pan-eslavismo, manifestou o seu descontentamento perante o ocidente por murmúrios tão-somente.

 

Desajustada politicamente sob a administração neoliberal de Boris Yeltsin, restou a Moscou observar o naufrágio de Belgrado e o estilhaçamento final da Iugoslávia.

 

A declaração de independência do Kosovo em fevereiro último, com o apoio do eixo transatlântico – Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Turquia, Alemanha, Itália, entre outros -, selou definitivamente o processo. Praticamente uma década depois, o argumento empregado pela OTAN embasa o posicionamento da Rússia, renovada na férrea gestão de Vladimir Putin, diante de suas minorias no Cáucaso.

 

Há dois encraves russos na Geórgia – ela mesma independente desde 1991: Ossétia do Sul e Abecásia. Ambas ambicionaram no início dos anos 90 ter também a sua independência. Declaradas, país algum as reconheceu, mesmo após embates militares com o exército georgiano. Mais tarde, Moscou tornar-se-ia responsável por manter a paz entre os três auto-proclamados países.

 

Supervisionado pelo Kremlin, Tbilisi havia recentemente reconhecido, por meio de um tratado, maior autonomia à região osseta, fronteiriça com a própria Rússia e conectada a ela basicamente por um túnel montanhoso.

 

No entanto, logo depois a Geórgia atacou-a de maneira traiçoeira. De forma surpreendente para o restante do mundo, o governo de lá parecia não esperar uma contrapartida militar tão intensa e tão célere para a defesa de uma população, embora etnicamente russa, pouco expressiva em termos numéricos – os efeitos dos bombardeios logo se fizeram sentir entre a população civil, com centenas de mortos. No dia 10, tropas russas circularam com desenvoltura em território georgiano.

 

Conquanto a postulação da Geórgia, ao lado da Ucrânia, de aderir à OTAN tenha por padrinho os Estados Unidos, os demais membros da organização haviam suspendido, no primeiro semestre de 2008, a análise da candidatura pelas demonstrações de insatisfação de Moscou. Isto por si deveria ter sido um importante alerta para Tbilisi.

 

Por outro lado, a imodéstia da Geórgia pode ter derivado do estreitamento de seu relacionamento com os Estados Unidos nos últimos anos, sintetizado no citado convite para integrar a OTAN e na participação na Segunda Guerra do Golfo. No Iraque, ela foi um dos poucos países a aumentar o efetivo: de quase mil para dois mil. Com isto, tornou-se uma das principais forças da coligação, abaixo apenas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Com o conflito suspenso, se a aviação anglo-americana auxiliar, seus efetivos poderão ser deslocados prontamente para outra eventual batalha.

 

Além do mais, houve o treinamento de contra-insurgência, que habilitou as tropas a abafar, até o momento, todo sinal de instabilidade provindo do nordeste do país, ponto de entrada, na visão norte-americana, do integrismo muçulmano, especialmente checheno. Assim, a autoconfiança justificar-se-ia porque os norte-americanos não relegariam seus novos aliados em caso de dificuldade.

 

No fim, o apoio de Washington limitou-se a um lamento: a inaceitabilidade do evento em pleno século XXI. Com duas guerras nas costas e com o mandato no final, George Bush nada pode fazer, na prática, para auxiliar a Geórgia, prestes a enfrentar outra turbulência: a possível derrubada do governo, patrocinada pela Rússia. Se efetivada, o país cancelará a solicitação para compor a OTAN e poderá reconhecer finalmente a independência da Ossétia do Sul e da Abecásia, esta voltada para o mar Negro, com a conseqüente ampliação do arco de influência do Kremlin na região caucasiana.

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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