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Escrito por Léo Lince   
Qui, 26 de Abril de 2007
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O cidadão que acompanha o noticiário caiu das nuvens duas vezes nas últimas semanas. A primeira, agradavelmente surpreendido, ao tomar conhecimento das prisões efetuadas pela chamada “operação furacão”. A segunda, na reversão das expectativas, ao tomar conhecimento da soltura das figuras togadas que ocupavam o vértice na lista dos suspeitos. Quem batia palmas arrefeceu o ânimo e agora espera o desdobrar do caso.

A prisão de juizes togados, flagrados em nebulosas transações com banqueiros, ainda que do bicho, convenhamos, não é um acontecimento usual. A galera da geral, que adora chamar juiz de ladrão e considera o “tapetão” lugar de negócios escusos, cai de pau e comemora. Não houve botequim que não se transformasse em tribunal de alçada. Palco de condenações inapeláveis, na linha da “volta do cipó”, vingança dos injustiçados.  Se fizessem uma votação tipo Big Brother, podem estar certos: iam todos para o paredão. 

Independente dos rumos que tomar o inquérito da Polícia Federal, uma decorrência já se delineia: a equiparação entre os poderes da República na fieira dos escândalos em curso.  Aos “aloprados” e “petequeiros” do Executivo, aos “sanguessugas” e “mensaleiros” do Legislativo, agora se soma a “máfia togada” que vende sentenças no Judiciário.  Um doloroso ajuntamento de transgressões que coloca a reputação das instituições republicanas em petição de miséria.

Os denunciados nos escândalos mais antigos continuam protegidos pelo pesado manto da impunidade.  Nos crimes do colarinho branco e do foro privilegiado, até prova em contrário, a “dura lex” não funciona.  Quase ninguém vai preso e, se vai, é solto no dia seguinte. O dinheiro fala mais alto. Tudo peixe grande, malandro de gravata e capital, que só usa algemas como brevíssima alegoria de mão.

No entanto, dirão alguns, a sujeira está vindo à tona, os poderes da República estão funcionando. Que eles funcionam, não resta a menor dúvida.  Seus titulares recebem altos salários, gozam férias prolongadas, despacham regularmente seus papéis. O que falta saber, e os últimos acontecimentos ampliam o raio desta dúvida, é a serviço de quem e do que este funcionamento se realiza.   

Outros dirão que os poderes da República estão bichados. Corrompidos até a medula pela corrupção sistêmica.  Os mais variados argumentos buscam fatos que lhes sustentem. A confusão é geral. Uma coisa, no entanto, é certa. O poder dissolvente do dinheiro não faz distinção: ataca com igual empenho no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Não conhece limites ou fronteiras e nada de braçada se arrefece a vigilância cidadã.

Enquanto isso, no vale de lágrimas, o povo carrega uma cruz pesada. Com a falta de perspectivas e o estímulo à competição desenfreada, o agravamento da miséria explode em violência nas ruas. A corrupção no andar de cima e a violência nas ruas são duas faces da mesma moeda. A miséria material do povo e a miséria moral dos poderosos produzem a prevalência dos podres poderes.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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