Estados Unidos: o esquecimento da América Latina

 

As campanhas presidenciais dos dois grandes partidos incluem usualmente viagens à Europa e Oriente Médio, com visitas programadas – ou almejadas - a três países, de significativa influência cultural para os Estados Unidos: Inglaterra, substituída às vezes pela Irlanda, Itália e Israel. Desde a última eleição, acrescentou-se ao roteiro político-turístico mais um I, o de Iraque. Em todos os deslocamentos, os presidentes ou primeiros-ministros costumam receber os postulantes sem distinção partidária.

 

No final do mês passado, o senador Barack Obama, do Partido Democrata, deslocou-se à Europa, onde visitou Inglaterra, Alemanha e França, com boa receptividade em todos os locais, e Oriente Médio, onde esteve em Israel, Jordânia, Cisjordânia, Kuwait e, por último, Afeganistão. De acordo com a sua equipe, ele não deverá mais ausentar-se do país até o dia das eleições, em 4 de novembro.

 

Seu oponente, o também senador John McCain, do Partido Republicano, esteve, por sua vez, no início do mesmo mês na Colômbia, país com o qual os Estados Unidos mantêm estreito relacionamento – ‘aliado vital’, segundo o parlamentar - há vários anos, principalmente por causa do Plano Colômbia, idealizado na década passada para combater o narcotráfico e, na prática, a guerrilha, notadamente a de perfil ideológico.

 

Quando de sua curta estadia lá, curiosamente, houve a libertação de 15 reféns, entre os quais a ex-senadora Ingrid Betancourt e três norte-americanos, mantidos durante anos em cativeiro pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs).

 

Ao ir ao México, o republicano buscou cativar o eleitor hispânico e católico, visto que apenas os mexicano-americanos correspondem a mais de 5% do eleitorado em solo estadunidense. Uma das formas de angariar o apoio seria cancelar a política de imigração do governo Bush, ao suspender a edificação do muro lindeiro e ao modificar os parâmetros para o acolhimento, mesmo temporário, de estrangeiros.

 

Além do mais, os vínculos substanciais não decorrem tão-somente da divisão fronteiriça, mas do compartilhamento de valores políticos entre os dois atuais governos. Como complementação ao andamento do Plano Colômbia há, na parte norte das Américas, o Plano México, de caráter similar à iniciativa do sul, que, a despeito do nome único, reúne ao todo nove países, estendendo-se ao Caribe.

 

Sem condições políticas de visitar a Europa, pelo desgaste da gestão Bush, McCain contentou-se com o modesto roteiro de três dias em dois países hispânicos. A fim de cativar os eleitores latino-americanos, lembra-se até que o republicano é panamenho de nascimento, por servir seu pai, oficial da marinha, na área do Canal, então sob controle dos Estados Unidos. Deste modo, McCain privilegiou tradicionais parceiros estadunidenses no continente – para completar o trio, faltou o Chile.

 

Em termos gerais, os latinos aproximam-se eleitoralmente mais dos democratas, vinculados com causas menos conservadoras. No entanto, o postulante democrata não visitou a região. Optou por encontrar-se com líderes europeus e médio-orientais, identificados com os grandes temas da política internacional.

 

Assim, mostrou-se à opinião pública norte-americana um candidato estadista, preocupado com questões mundiais. A tática firmada pelo comitê de Obama foi a de amenizar o tom das críticas advindas em função da pouca experiência do candidato, se comparado ao veterano McCain - herói de guerra no Vietnã -, ainda mais em um período em que há uma instabilidade menor no Iraque.

 

Do roteiro de ambos, extrai-se a visão de que a América Latina ainda desfruta de um status menor perante os demais parceiros dos Estados Unidos. Os olhos fixam-se nela quando há ‘desvios’, como é o caso da Venezuela, Bolívia, Equador e, quiçá, Paraguai no futuro. Desta forma, a sua considerada normalidade político-administrativa não lhe propicia nenhum tipo especial de apreço.

 

No entanto, a divergência pode eventualmente ocasionar sanção. Nesse sentido, o elemento novo nas relações hemisféricas é o restabelecimento da Quarta Frota, extinta ainda nos primeiros anos da Guerra Fria, pelos Estados Unidos. O seu emprego de fato ainda é uma incógnita – oficialmente, ela será empregada para a defesa multilateral ou auxílio humanitário.

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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