Paulistão de CEBs

 

Como entender, quando tudo diz ao contrário, que aproximadamente 1500 delegados das várias dioceses de São Paulo tenham se reunido para discutir a relação CEBs e Ecologia?

 

O documento de Aparecida não desprezou as CEBs, embora tenha sido uma luta intestina renhida para que elas fossem ao menos consideradas. Não faltou estratégia de boicote, até na redação final, mas prevaleceu o reconhecimento de sua importância.

 

Todo esse povo, reunido em Campinas, discutiu os ecossistemas do estado de São Paulo e a situação em que se encontram, particularmente os biomas Cerrado e Mata Atlântica. Fez oficinas para debater a situação do saneamento, da reciclagem, da reforma agrária, da água, do solo urbano. Depois tentou ler essa realidade à luz de uma espiritualidade que seja também ecológica, isto é, olhar a Criação com os mesmos olhos que o Criador a vê. Enfim, também tomar atitudes frente a essa realidade.

 

Como entender que cidades ricas, na região mais rica do Brasil, ainda tenham zero de tratamento de esgoto? Como entender que a monocultura da cana tenha ocupado os espaços antes plantados com feijão, arroz e outros alimentos? Como entender que grande parte dos solos agrícolas do estado, os melhores do Brasil, ainda esteja ocupada de forma irregular por empresas grileiras das terras públicas? Como lidar com as moradias em grandes cidades, onde os solos são propriedades particulares, onde muitas vezes o que resta são as áreas de preservação e de risco?

 

Assim vai a lista dos porões do estado mais rico do Brasil. Sinal que o chamado desenvolvimento nem sempre anda de mãos dadas com a qualidade de vida das pessoas, do ambiente e da justiça social. Até as cidades ribeirinhas do São Francisco, a partir da luta pela revitalização de nosso Velho Chico, começam ter mais esgoto coletado e tratado que várias cidades de São Paulo. É o caso de Petrolina, que até ao final do ano deverá estar com cem por cento de seu esgoto coletado e tratado.

 

Esses delegados se reuniram para olhar seu chão, mas também preparar o caminho do 12º Intereclesial que vai se realizar em Rondônia em 2009. A questão fundamental é assimilar a questão ecológica no olhar e na prática das nossas comunidades de base.

 

As CEBs não são a massa. Ou são o fermento, ou nada. Não aparecem na TV e nem mesmo hoje têm muita presença litúrgica com seus cantos. Os movimentos católicos de massa, que têm uma TV por detrás, tomaram conta desse espaço. Resta às nossas comunidades serem o que foram chamadas a ser pela mão do Pai, isto é, pequenos núcleos de Igreja, conscientes de sua cidadania eclesial e social, interferindo na realidade, iluminadas e sustentadas pela fé. Agora são desafiadas a olhar a criação pelas lentes do Criador.

 

É preciso manter viva a frágil luz que ainda brilha. A vida ainda pulsa, a missão é linda, os tempos são desafiadores.

 

Roberto Malvezzi (Gogó) é coordenador da CPT.

 

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Comentários   

0 #1 Edi Marcelo e Maria Helena Oli 01-08-2008 12:04
Atualmente, não fazemos parte de nenhum movimento organizado na igreja e nossa angústia e inquietação esta cada vez maior. Sentimo-nos isolados. Velhos irmãos de caminhada se reúnem agora somente para um churrasco e nada mais...O artigo sobre as CEBS apontam uma luz que nos dá esperança e nos lembra de nossa missão cristã: ou somos fermento, ou nada.Ah! Maravilhosa sua reflexão "Para onde caminha a humanidade" publicada em outro veículo de comunicação em 02/2007.
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