Equador enfrenta ditadura midiática

 

Às vésperas do referendo sobre a nova Constituição do Equador, previsto para setembro, o clima da luta de classes no país vizinho esquenta e, novamente, a ditadura midiática está no centro dos conflitos. Na semana passada, o presidente Rafael Correa interveio em três canais de televisão de propriedade de banqueiros que desfalcaram os cofres públicos em US$ 661 milhões. Num gesto corriqueiro em qualquer país capitalista "civilizado", o governo também determinou a revisão da concessão pública de cerca de 300 emissoras de rádio e de televisão do país (25% do total).

 

As medidas geraram gritaria de barões da mídia e de suas associações mundiais, que cinicamente criticaram o "ataque à liberdade de imprensa". A nefasta Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que apoiou o golpe midiático de abril de 2002 na Venezuela e nunca condenou a censura nos EUA expressa no "Patriotc Act", atacou duramente as medidas. "São um disfarce legal de uma política de censura. Tememos que estejam ocorrendo ações semelhantes às do governo Hugo Chávez na Venezuela, onde todas as desculpas possíveis foram usadas para fechar veículos de comunicação", afirmou o mercenário Gonzalo Marroquín, presidente da entidade.

 

Coerência da federação dos jornalistas

 

Apesar de todo o bombardeio, Correa não se intimidou e ironizou os críticos. "Agora, apreender os bens de banqueiros que quebraram o país, embora continuem prósperos, é ameaçar a liberdade de expressão? Isto é uma tremenda besteira", disparou. O embargo de 198 empresas e bens dos ex-banqueiros Roberto e William Isaías, entre os quais se encontram os canais TV Gamavisión, Televisión e Cablevisión, conseguiu o apoio até da Federação dos Jornalistas do Equador, numa atitude bem mais coerente do que certas entidades da categoria no restante da América Latina.

 

De forma independente, ela defendeu o respeito à liberdade de expressão e exigiu o cumprimento dos direitos trabalhistas dos funcionários das emissoras, mas considerou justas e legais as ações do governo. Ela também criticou a manipulação da mídia, criticando o "tratamento informativo que está sendo dado a este acontecimento, sem a contextualização do caso nem a profundidade que ele merece, quando se faz referencia à liberdade de imprensa". Os irmãos Isaías, donos da Filanbanco e das emissoras de TV, causaram a quebra de 21 bancos no final dos anos 90. Os dois fugiram para os EUA em 2000 e um pedido de extradição tramita no Equador. O governo Correa leiloará seus bens confiscados para ressarcir os equatorianos prejudicados pelo crime financeiro.

 

"Cães de guarda do capitalismo"

 

As relações do novo governo com os barões da mídia têm se azedado rapidamente. Na eleição de 2006, os meios privados de comunicação fizeram campanha descarada contra Correa. O repórter Luiz Carlos Azenha, ainda na TV Globo, registrou em seu blog: "A mídia golpista, representante da elite branca, racista e reacionária, não é um fenômeno apenas brasileiro. Faz o papel de porta-voz da minoria onde quer que o poder da elite corra risco. No Equador, onde o partido de Rafael Correa conseguiu mais de 60% dos votos na eleição da Assembléia Constituinte [...], os meios de comunicação fizeram o mesmo terrorismo que Hugo Chávez enfrentou na Venezuela e que Lula enfrenta no Brasil. O mundo ia acabar por causa de Correa, escreveram os editorialistas".

 

Em meados do ano passado, as tensões aumentaram. Num gesto corajoso, o presidente decidiu processar um dos mais repugnantes colunistas da mídia equatoriana, o diretor do jornal La Hora, Francisco Vivanco, por calúnia e difamação. O desgastado Comitê Mundial de Imprensa, com sede em Washington, acusou Correa de "pretender silenciar os jornalistas". Já a SIP criticou "a medida torpe por parte do presidente". E o jornal O Globo sentiu as dores da ditadura midiática e deu um título escroto à notícia. "Correa segue a batalha contra a imprensa no Equador".

 

Mais recentemente, no processo da Assembléia Constituinte, Correa decidiu cobrar briga contra a mídia hegemônica. Numa entrevista ao jornal Página/12, disse que "a Constituição irá proibir que empresas financeiras possuam outro tipo de empresa fora do sistema financeiro. Atualmente, dos sete canais nacionais de televisão, cinco são da banca. Você fala em regular a taxa de juro ou diminuir os custos dos serviços bancários e verá a campanha que eles fazem contra... Como disse Ignácio Ramonet [diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique], eles são os cães de guarda do sistema econômico vigente. Na América Latina, são os maiores defensores do status quo. São empresas que, a pretexto da liberdade de expressão, defendem os seus interesses particulares".

 

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PC do B e autor do livro recém-lançado "Sindicalismo, resistência e alternativas" (Editora Anita Garibaldi).

 

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