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Daniel Dantas não é a exceção do modelo político vigente no país Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito   
Sexta, 25 de Julho de 2008
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Dissecar e escarafunchar a vida do banqueiro Daniel Dantas é algo que já foi devidamente esgotado pela grande mídia. Matérias contando e recontando suas peripécias financeiras dominaram as capas dos grandes veículos nas últimas semanas, na mesma toada da cobertura de outros diversos escândalos que preenchem as páginas de "política" dos nossos jornais, revistas e sites.

 

O que talvez esteja sendo deixado de lado é o simbolismo que toda a trama carrega em si. Procura-se dar nomes aos bois, eleger os bandidos, sair a grita com discursos de moralização e esperar por punições da justiça, que por sua vez acabam vindo após o esfriamento do assunto e ainda por cima acompanhadas de sua faceta branda, e célere - aquela que não tolera o assalto no farol, mas não se impressiona tanto com a venda ilegal e imoral do país.

 

Antes de quaisquer outras definições acerca de seu modus operandi, deve-se reconhecer que Daniel Dantas é um prodígio em sua área de atuação. Com tino empresarial apurado desde os tempos de juventude, Dantas soube desde cedo ocupar os espaços certos ao lado das pessoas certas, pelo menos pela perspectiva de um plano de carreira para o promissor economista baiano.

 

"Dantas poderia estar a ocupar o ministério das finanças da Cosa Nostra. Talento para o mal, artes e poder compulsivo para corromper não lhe faltam", define Walter Maierovich, de Carta Capital. Justamente esse talento em ‘jogar’ foi o que permitiu a Dantas escalar com relativa facilidade rumo às instâncias mais poderosas e influentes do poder. Sua história de tacadas certeiras e suspeitas começou no governo Collor, porém, foi desfrutar de seu auge na farra das privatizações do país. Pupilo de Mario Henrique Simonsen, após trabalhar no Icatu e mudar-se definitivamente para o Rio de Janeiro, passou a ter trânsito nas negociatas de diversas estatais. A partir de então, a história ficaria mais conhecida, até chegarmos aos dias atuais, nos quais já se tem conhecimento de sua folha de serviços prestados ao país.

 

No entanto, seria superficial demais tratar Daniel Valente Dantas como um caso isolado em meio a nosso sacrossanto sistema financeiro. Figuras como ele surgiram, e surgem, aos montes no processo de reforma pelo qual passou o capitalismo brasileiro nos anos 90. Também conhecedor do mercado externo, Dantas aproveitou o vácuo de poder e influência que foi aberto com a nova divisão do patrimônio brasileiro, tendo os mais hábeis, como ele, se tornado figuras ativas no dia-a-dia das promíscuas relações que se desenvolveram entre poder público e privado.

 

Dantas na verdade poderia ser tomado como símbolo do capitalismo brasileiro do século 21, moldado para "aproveitadores de oportunidade", que fazem negócios escancaradamente nocivos aos interesses populares, sob a égide de nossas apodrecidas estruturas de poder. A frase em que dizia se preocupar somente com as instâncias mais baixas da justiça, pois no Supremo estaria tudo em casa, é uma ótima síntese das teias de relações que enredou em sua trajetória.

 

O que nos livraria de semelhantes?

 

Lamentavelmente, não se eleva a discussão do caso Dantas a uma reflexão mais conjuntural. "Nos meios de comunicação, a feitura da hegemonia implica na cristalização da figura do corrupto. É como se ele não viesse de canto algum, como se suas relações com o mundo inexistissem", escreve o colunista Roberto Efrem, de Carta Maior.

 

A análise de Efrem não parece falsa. Ou alguém se lembra de ver o Jornal Nacional questionar o modelo vigente, que permite a ascensão de tal personagem a ponto de estabelecer conexões com uma rede de atores da vida institucional e política do país?

 

"O corrupto personifica a corrupção, como seria numa representação, mas a corrupção mesma é reduzida a uma ou outra pessoa corrupta, sem comprometer substancialmente instituições", segue em seu diagnóstico o analista de Carta Maior. De fato, nosso circo atual da comunicação se concentra basicamente em levantar, ou refrear, escândalos, revelar novos personagens de novas, ou velhas, falcatruas, num ciclo que se renova ininterruptamente.

 

Mudam somente os nomes, mas não os enredos que tanto contribuem para que a discussão política caia cada vez mais em descrédito no seio da população. Que esquece o debate que deveria ser travado em torno de nossas instituições, esperando apenas pelo próximo espetáculo de desfaçatez a ser apresentado nas próximas semanas, e que alimentará as viciadas e repetitivas páginas de ‘política’ nacional.

 

A verdade é que, no contexto atual, figuras como Daniel Dantas e seus pares operam dentro de um sistema que permite todo tipo de engenharia e conluio político-financeiro. Quando uma dessas forças proeminentes de nossa economia cai do cavalo e é desmascarada, tenta-se culpar e demonizar somente o réu em questão. Ganham novamente os donos do poder, pois evitam o debate político em níveis mais elevados e vêem os camaradas da grande imprensa encher seus espaços de notícias policiais, empanturrando o público com notícias do mundo cão (vide caso Isabella) e com a execração fácil de bandidos que, por um ou outro deslize (geralmente originado da ganância sem fim), fizeram ruir seu reino de falcatruas.

 

"Silêncio constrangido sobre Daniel Dantas, Nahas, Pitta, desagrado de ver ricos algemados. E sobre a chegada do Cacciola, cobertura como se se tratasse de tema anódino, sem nenhum esclarecimento dos antecedentes das acusações, do governo envolvido no escândalo Cacciola", registra o sociólogo Emir Sader, em outro exemplo de corruptor tratado como mera excrescência de um sistema que não teria falhas.

 

Lado A x Lado B

 

Ao saber do quão extensas eram, e são, as ligações de Daniel Dantas com o poder, através de todas as correntes partidárias inclusive, fica mais simples compreender a comoção criada nos corredores de Brasília, deflagrada na esculhambação trazida pelo prende-solta na semana em que se pediu a detenção preventiva do banqueiro. Explicam-se, pois, as tensões que sua prisão e as investigações em torno de seus negócios têm gerado nos mais distintos personagens de nossa vida política.

 

Pelo lado de quem mandava no país na época da privataria, o que se tenta é esconder ao máximo as ligações de seus mais altos cardeais com o agora marginal do mundo financeiro. No entanto, não se pode apagar o passado de reuniões entre ele e FHC na maquinação de leilões que tomaram de assalto o patrimônio público, as mobilizações em torno da eleição de Gilmar Mendes para uma cadeira no STF, as estranhas conversas com André Lara Resende e Luis Carlos Mendonça de Barros na divisão das teles. Tampouco há como apagar as memórias da relação mantida com o casal Pérsio Arida e Elena Landau, que saíram do BNDES para trabalhar no Opportunity; da valiosa amizade com Luiz Leonardo Cantidiano, que na presidência da CVM decidiu arquivar processo investigativo contra o fundo de Dantas, mesmo com todos os indícios de espionagem e de crimes financeiros.

 

Já pelo lado de quem se dizia contra a privataria, mas depois capitulou e hoje até a fomenta, as ligações com o intrépido baiano não são menos constrangedoras. Não bastasse o comportamento duplo de Lula no tratamento do caso, podemos averiguar que Daniel Dantas já contratou serviços de 5 diferentes escritórios de advocacia ligados a membros do PT, entre eles o de Roberto Teixeira, que também esteve envolvido nas tramas e lobbies pela venda da VarigLog. Também sao de corar o atual governo as possíveis ligações do fundo de Dantas com o valerioduto, à época do famigerado mensalão.

 

Daniel Dantas e seus negócios, aliados à trupe de políticos, jornalistas e lobbistas que o segue, movimenta bilhões de reais, em qualquer área em que se envolva. "É uma batalha pelo controle do Estado", afirmou FHC em recente entrevista ao Terra Magazine, resumindo bem a sua atuação. Só faltou lembrar quem abriu as portas para essa batalha.

 

O banqueiro é um belo exemplo da nova linhagem de gênios do mercado financeiro que estendem seus tentáculos a todas as áreas possíveis, como fazem os grandes grupos, a fim de exercer controle sobre a maior quantidade possível de setores da economia. A compra de 100 mil hectares de terra no Pará, novo pólo da agropecuária, é apenas outra mostra de que Danielzinho ainda não saciou seu apetite por grandes negócios. Produto de um sistema que favorece a corrupção e seus conchavos, não uma exceção que desrespeitou as regras do jogo. Como dizem nossos locutores em jogos da Libertadores, Daniel Dantas é Brasil minha gente!

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

 

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Última atualização em Terça, 29 de Julho de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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