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Reflexos dos Estados Unidos na política da França Imprimir E-mail
Escrito por Virgílio Arraes   
Qui, 26 de Abril de 2007
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Inclinada a observar a si mesma como referência sócio-política e cultural de boa parte do mundo nas últimas gerações, a França vê-se diante de uma grave inquietação, expressa ao longo do último processo eleitoral para a presidência da República: a extensão da validade de seu modelo civilizador, profundamente nacional, em face dos valores universalizados da globalização.

Em um momento de desilusão social quanto à aplicação das políticas neoliberais, a França, outrora o contraponto da Europa aos Estados Unidos, debate, de modo caloroso, a possibilidade de transfigurar-se mais na economia, tendo por base norteadora exatamente o seu tradicional antípoda norte-atlântico.

Em um comparecimento às urnas quase inédito - superado apenas pelo de 1965, quando houve a presença de 84,74% dos eleitores -, o pleito do dia 22 de abril chegou aos 84,6%, com Nicolas Sarkozy obtendo 31,1%, seguido de Ségolène Royal, com 25,8%. François Bayrou, com 18,5%, e Jean Marie Le Pen, com 10,4%, completaram o quadro principal. Bem conhecido no Brasil, José Bové, do Coletivo de Iniciativa Unitária (CIUN),  atingiu apenas 1,3%.

Paradoxalmente, o proponente da modernização à americana, Sarkozy, filho de um imigrante húngaro, advém, em tese, da tradição gaullista, caracterizada pela afirmação política interna de matiz próprio, ou seja, nacionalista. Embora representante da União por um Movimento Popular (UMP), ele é franco admirador do posicionamento econômico do Partido Republicano nos Estados Unidos.

Deste modo, sua agremiação partidária propõe o fim do imposto sobre grandes fortunas, a redução do imposto sobre heranças e a flexibilização da legislação trabalhista, por exemplo. Ao mesmo tempo, apresenta-se como o garantidor da ordem pública, especialmente nos subúrbios parisienses, onde houve manifestações populares de cunho violento nos últimos anos.

Em sua visão, seria necessária a criação de um ministério específico para tratar da imigração, por meio do qual a França selecionaria os estrangeiros aspirantes a residentes. De certo modo, Sarkozy apropria-se de parte do discurso extremista que havia beneficiado, em 2002, Le Pen da Frente Nacional (FN).

Do outro lado, Royal, provinda de uma família de altos oficiais do Exército, representa o posicionamento atual de esquerda, ao encabeçar a candidatura do Partido Socialista (PS), atemorizado muito tempo pela derrota inesperada na passagem do primeiro para o segundo turno em 2002, superado pela candidatura de extrema direita.

Todavia, mesmo defronte do desgaste político, a sua candidatura afirma valores tradicionais da direita como o patriotismo e o civismo, a serem direcionados aos jovens provindos, em sua maioria, de famílias oriundas das antigas colônias. No campo econômico, a palavra é adaptar-se ao atual processo de globalização, não questioná-lo. No entanto, há a defesa do aumento do salário mínimo, das aposentadorias de valor mais baixo e da possibilidade de adquirir, de modo menos dificultoso, a nacionalidade francesa - a partir de dez anos de residência.         

De todo modo, partiu da ‘3ª Via’, ou seja, da malograda candidatura aparentemente anódina de Bayrou a admoestação de que os Estados Unidos não seriam um modelo adequado para a França. Contudo, apesar de os três primeiros colocados no pleito do dia 22 de abril terem nascido depois da II Guerra Mundial, nenhum deles conseguiu apresentar algo diferenciado ao eleitorado diante da situação de incerteza ocasionada pelos eflúvios da globalização neoliberal.

De Bayrou, emerge a preocupante afirmação de que o país caminharia finalmente para o centro, isto é, para o consenso. Contudo, não se esqueça que seu partido, União pela Democracia Francesa (UDF), é herdeiro da fusão executada em 1978 por Giscard d’Estaing, quando da reunião de democratas cristãos e liberais, para contrapor-se aos gaullistas, representados, naquela altura, por Jacques Chirac. Desta forma, a despeito do discurso conciliador, sua candidatura situou-se claramente à direita.

Pesquisas apontam que a votação destinada inicialmente a Bayrou dividir-se-ia quase que igualmente entre Sarkozy e Royal. Nesse sentido, indicar-se-ia que o seu eleitorado não observa, de fato, diferenças marcantes entre ambos os candidatos. Assim, o pêndulo desloca-se para a direita, apesar dos enunciados de que há itens intocáveis do programa partidário da esquerda.   

A desesperança decorrente do desnorteamento dos dois principais partidos da França repercute naturalmente no restante do Ocidente. Em abdicando a elite do país da capacidade de formular um modelo sócio-econômico menos inclinado aos ditames do mercado - o bezerro de ouro da nova ordem mundial- e, por conseguinte, capitulado ao modus vivendi norte-americano, países periféricos poderiam tão somente vislumbrar um horizonte único, visto que suas vulnerabilidades externas são mais substantivas, o que limita a execução de movimentos alternativos.

Relembre-se, por fim, que o sistema social francês não foi considerado em 2006 um fator desestimulante para a atração do investimento externo direto. Segundo a Conferência das Nações sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o país classificou-se em terceiro lugar, ao receber 88 bilhões e 400 milhões de dólares, apenas atrás dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, respectivamente.

 

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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