Estados Unidos: a obsessão na derrocada iraniana

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Embora melancólica em seu final, a administração George Bush avalia a conveniência de legar ao seu sucessor mais um problema na política externa: um Irã atacado. O aspecto subjacente a bombardear ou não o território persa conecta-se à situação no Iraque, onde a coligação anglo-americana tem obtido - após aumentar o número de efetivos e de negociar intensamente com diversos grupos étnicos e religiosos - uma estabilidade relativa nas últimas semanas.

 

A aparente calmaria auxilia politicamente o candidato republicano John McCain, intransigente defensor da Segunda Guerra do Golfo. Como conseqüência, o governo norte-americano não parece disposto aparentemente sequer a delegar a investida para outro país aliado, como Israel, até o fim do processo eleitoral em novembro do presente ano.

 

Assim, a partir de agosto, os esforços políticos de Bush concentrar-se-ão internamente com o objetivo de eleger o seu candidato, o que implicaria também pôr a termo, na prática, as negociações na Organização Mundial do Comércio, na chamada Rodada de Doha.

 

Assessores da Casa Branca estimam que Teerã não teria condições de fabricar um artefato nuclear nos próximos cinco anos. Entrementes, avaliam que caso o governo iraniano adquira a capacidade de enriquecer urânio ou plutônio, isto levaria a outra preocupação: o fornecimento de material atômico a grupos extremistas.

 

Assim, amadurecem-se as condições para escudar um ataque ‘preemptivo’, com o objetivo de aniquilar a infra-estrutura nuclear do país e intimidar toda aproximação com entidades terroristas. As manobras militares poderiam ser encaminhadas a partir do Iraque. Contudo, o Irã não é de fato uma ameaça para os Estados Unidos.

 

Um ataque, mesmo limitado, alteraria naturalmente a situação. Recentemente, o país demonstrou capacidade para infligir danos – em especial econômicos - aos seus adversários regionais. Ao dispor de mísseis de médio alcance - adquiridos da China - Teerã pode inviabilizar a navegação no estreito de Ormuz e, por conseguinte, interromper o comércio de petróleo.

 

Isto provocaria novos aumentos expressivos do produto, acima certamente dos 200 dólares, com a desestabilização da economia mundial, materializada pela presença imediata de uma inflação de difícil controle.

 

Embora os Estados Unidos disponham de manu militari suficiente para liberá-lo - por meio da 4ª Frota, cujo grau de atuação abrange, além do golfo Persa, o mar Vermelho e o mar Arábico - a retomada poderia levar dias, apesar do emprego maciço de ataques aéreos, e incluiria o desembarque de fuzileiros navais na costa iraniana, com reais possibilidades de pesadas baixas tanto humanas como da equipagem.

 

Outrossim, o Irã teria meios de estender suas operações para atingir instalações petrolíferas de aliados estadunidenses como o próprio Iraque, Arábia Saudita, Catar ou Emirados Árabes. Indo-se adiante, as próprias bases militares dos Estados Unidos no Iraque ou no Kwait poderiam sofrer ataques de mísseis.

 

Do ponto de vista político, a ação não usufruiria do sinal positivo do Conselho de Segurança – é possível que nem sequer a Grã-Bretanha isoladamente apoiasse tal empreendida. No Oriente Médio, o impacto na opinião pública seria negativo, com possibilidade de sério revés no Iraque, ao insuflar a comunidade xiita de lá. No Líbano, algo similar poderia ser desencadeado, a partir de iniciativas do Hizbollah, aliado fiel de Teerã.

 

Se há séria desconfiança por parte de Washington com relação às atividades do programa nuclear iraniano, o melhor encaminhamento é o multilateral, com a convocação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para executar inspeções, mesmo prolongadas.

 

Não é mais crível para a sociedade global a apresentação do mesmo roteiro encenado no Iraque há cinco anos e meio, com cujos desastrosos resultados a população local tem de indefinidamente conviver.

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais da UNB.

 

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