3º Festival Latino-americano de Cinema

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Há uma obsessão pelo "povo" no cinema latino-americano. Será "o povo de verdade" aquele que vemos nos filmes? Serão "os pobres" assim mesmo, tal como aparecem nas telas? Pelo que se viu no último festival latino-americano de cinema, não. E quem manda o recado não são os cineastas, é o próprio povo (?!). A variedade de filmes foi tanta (121 exibidos) que tentar uma síntese seria arriscado demais. Fiquemos com os premiados por crítica e público, respectivamente: Estrelas (2007), produção argentina, dirigido por Federico León e Marcos Martinez, e Jogo de Cena (2007), produção brasileira, dirigido por Eduardo Coutinho. Mas, antes, um pouco de história.

 

Com uma estética quase documental, cenas da pobreza, da secura, do frio e da penúria do "povo" da América Latina foram mostradas ad nauseam durante o século XX. Nos idos de 1960, por exemplo, as cenas do "povo" (não só no Cinema Novo) eram quase sempre acompanhadas de música "popular", em longas tomadas quase sem fala, somente imagem e música, uma construção na qual "o povo" aparecia, via de regra, como objeto a ser estudado, compreendido e – por que não? – do qual se tivesse pena. Uma mescla de registro e análise, o descritivo que se transforma em norma, e eis que temos uma visão prometéica do "povo latino-americano".

 

Essa estética fez história, para bem e para mal. Continuará fazendo? Hoje, parece muito mais atrativo (inclusive comercialmente) o espetáculo cinematográfico da pobreza – uma pobreza desligada das condições históricas e sociais, como se um dado isolado do presente, frente ao qual só conseguimos indagar: que se há de fazer? Ainda mais porque, correlata, há a violência – e o espetáculo passa a ser o dos pobres que se matam mutuamente; pobres, negros, índios, incapazes de fazer qualquer outra coisa. Se antes a violência era imposta ao "povo", hoje os "pobres" é que não conseguem sair dessa sua violentíssima condição "natural". E eis que temos ainda a mesma visão prometéica...

 

Aliás, o tema dos mitos apareceu também muito fortemente na fala do escritor cubano Edmundo Desnoes, cujo livro ‘Memórias do Subdesenvolvimento’, filmado por Tomás Gutiérrez Alea em 1968 foi lançado em português durante o Festival. Desnoes falou, dentre outras coisas, da necessidade que a sociedade cubana pós-revolucionária tinha de buscar novos símbolos e construir uma nova mitologia.

 

Mas, com as escolhas do Festival, parece que público e críticos mandam um recado a Prometeu. Ambos os filmes premiados, por mais diferentes que sejam, colocam em questão um tema crucial: a capacidade das pessoas de serem sujeitas da própria vida.

 

Essa possibilidade é apresentada às pessoas-personagens dos filmes pela manipulação (direta ou indireta) de um capital muito mais simbólico: suas histórias de vida em imagens. Ao invés de serem deglutidas pela mídia, integradas ao novo folclore da violência urbana ou da falência das instituições que tornou "cronicamente inviável" toda transformação, as personagens dos filmes apropriam-se das suas próprias histórias para existirem socialmente – pelas imagens. Ao fazerem isso, tomam as rédeas e impedem que nós, deste lado da tela, assumamos alguma postura paternalista, tenhamos pena ou nos sintamos "mais favorecidos". Não lhes bastam os mitos tradicionais, querem criar seus próprios. Em suma, parece ganhar força cada vez mais nas telas a idéia de que de agentes intermediadores entre "o povo" (nós?) e os deuses são dispensáveis. Para bem e para mal.

 

Cordiais saudações.

 

***

 

DICA: A Prefeitura de São Paulo tem um projeto de criar bibliotecas temáticas, utilizando as bibliotecas públicas da cidade. A do Ipiranga acabou de ser reaberta, em 14 de junho. A Biblioteca Municipal Roberto Santos, assim chamada desde 2005, em homenagem ao cineasta que filmou talvez a melhor adaptação de Guimarães Rosa para a telona, conta agora com um acervo de 400 títulos sobre cinema, além de fornecer lugar para o tradicional Cineclube do Ipiranga. Tudo em novas, apropriadas e devidas instalações. Vale a pena: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/
bibliotecas_m_z/robertosantos/index.php?p=3888
].

 

Cassiano Terra Rodrigues leciona filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e também deseja ver o mito de Prometeu restrito à Grécia arcaica.

 

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #2 Daniel Campos 23-07-2008 12:48
Felicitaciones por la columna! Continuaré leyendo.

Confieso que me gusta el cine sobre el “pueblo” latinoamericano, cuando es buen cine. Pero es a veces de calidad muy dispar. El problema, en parte, es quién construye la imagen del “pueblo”.

Eu já conheci uma cineasta pequeno burguesa em São Paulo, que se achava muito comprometida com o “povo”, excetuando, claro, a própria empregada doméstica. Essa era uma vagabunda da favela, quando chegava tarde era porque queria. Quanto tempo, no fim das contas, pode demorar uma viagem da favela até a zona oeste?

Cuando esas “cineastas” crean o expresan algo sobre el “pueblo”, es generalmente una caricatura. Sé que es una explicación pseudo-sociológica y no filosófica.
Pero quizá haya una postura epistemológica aquí: hay que experimentar, vivir en carne propia, para verdaderamente saber.

Bom, parabéns pela coluna!
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0 #1 José A. Matelli 21-07-2008 10:27
Essa coluna me fez lembrar dois episódios:

1. Um parente, burguês católico do interior paulista, dizia não ter gostado de Central do Brasil porque as pessoas e os lugares eram muito feios;

2. Lobão metendo o pau na Marisa Monte, burguesa da capital fluminense, por cantar sobre a seca e explorar a pobreza como veículo estético.
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