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Até
aqui desenhei o quadro de um mundo em forte dicotomia, no qual o fixo se
contrapõe ao errante tanto em relação ao emprego quanto em relação às pessoas.
Para a maioria de nós, é claro, a realidade é muito mais complicada que isso e
mostra aspectos complexos, ao mesmo tempo fixos e errantes. Eu chamo a essa
condição de “trabalho fragmentado”.
Na
condição fragmentada, o fixo e o errante estão constantemente em intensa
interação. As atividades de tempo real bem enraizadas (como pôr crianças para
dormir ou para comer) são constantemente interrompidas por atividades virtuais
(como o soar de um telefone), enquanto atividades virtuais (como consultar um
e-mail) são perturbadas pelas realidades físicas da situação vivida (um
torcicolo ou o impacto de uma queda de energia elétrica).
Os
tradicionais ritmos da vida diária são interrompidos pelas exigências de
respostas às solicitações globais. A interpenetração das ondas de tempo na
esfera da vida de uma pessoa leva inexoravelmente ao desenvolvimento de uma
economia de 24 horas. As pessoas são forçadas a trabalhar em horas tradicionalmente
de descanso ou lazer e precisam, para satisfazer suas necessidades como
consumidora, trabalhar em horários anormais, o que, por sua vez, obriga outro
grupo a estar a postos para atender tal demanda, desencadeando assim uma
engrenagem em que os horários de funcionamento pouco a pouco vão se ampliando
e, com eles, a expectativa de que é normal que tudo esteja sempre aberto.
Esse
processo de “normalização” se acelera pela existência em toda a cidade de um número
crescente de novos residentes cujo marco de referência é espacial, e não
temporal. Em vez de comparar os horários de abertura de lojas numa cidade
européia com os que costumavam ocorrer no passado, eles tendem a compará-los
com os de Nairobi, Nova York ou Nova Delhi. Pouco provavelmente se dão conta da
solidariedade social que amparava muitas das estruturas tradicionais de
horários ou, caso se dêem, a consideram não mais que anomalias (ou mesmo práticas
racistas que visam prejudicá-los).
Por
exemplo, nos anos 1950 a 1980, no Reino Unido, a maioria das lojas, na maioria
das cidades, fechava ao meio dia um dia na semana, o que era conhecido como dia
de fechar cedo. Ainda que isso significasse algum inconveniente para os
lojistas, o hábito era aceito como algo bom, uma vez que os comerciários tinham
de trabalhar na manhã do sábado e, portanto, tinham direito a uma manhã de
folga para compensar esse tempo. Tais atitudes são quase inconcebíveis no
século XXI.
Essa
experiência fraturada de espaço e de tempo se espelha nas fraturas das identidades
ocupacionais. Ainda que algumas especificações de trabalho mantenham um misto
de características de fixas ou de errantes, cada vez mais essas características
se volatilizam.
Tem
havido erosão das claras fronteiras do local do trabalho e do dia do trabalho,
com o respingar de muitas atividades para dentro de casa ou outros locais. Inclusive,
há uma expectativa de que é preciso continuar produtivo enquanto se viaja, quer
você seja um motorista de caminhão recebendo ordem pelo celular, durante sua
parada para almoço, quer seja um executivo trabalhando numa tabela na sala de
espera de um aeroporto.
No
mundo em que as responsabilidades pela casa e pelos filhos são distribuídas
desigualmente entre os sexos, essas intrusões estão bem longe de serem neutras
quanto ao gênero e têm contribuído para um redesenho das fronteiras entre os
serviços que podem ser feitos com segurança por mulheres e os que se anunciam
subliminarmente como masculinos.
A par da dissolução dessas
antigas unidades de espaço e tempo, tem também havido, em muitos locais, uma
reconfiguração de muitos processos de trabalho que envolvem uma outra sutil, ou
não tão sutil, transferência de responsabilidade para determinadas tarefas em
muitos lugares de trabalho.
Algumas dessas mudanças
têm o efeito cumulativo de fazer o equilíbrio oscilar entre o emprego fixo e o
errante. Por exemplo, uma ocupação que antes combinava a abordagem e recepção
de um cliente com mais atividades nos bastidores pode tornar-se totalmente
baseada no computador, tornando fácil realocar o empregado total ou
parcialmente para outro lugar. Se este outro lugar é o já existente lar do
empregado, isto pode ser considerado uma liberalidade. Mas, se a atividade não
é a única do empregado, a probabilidade é de que o outro local seja a mesa de
alguém em outro canto do mundo; então, longe de ser uma liberação, constituirá
nova fonte de precariedade.
Por outro lado, outras
tarefas que eram previamente ligadas à escrivaninha (e, portanto, fáceis de
mover) podem ser redefinidas para mais atividades de maior contato com o
cliente, e se tornarem espacialmente amarradas, ainda que não necessariamente
estejam presas a um só local, e sim a múltiplos - quando se espera do empregado
aventurar-se para encontrá-los.
Mais
revoltante é a lenta erosão das fronteiras ocupacionais e a conseqüente erosão
das identidades. É fácil taxar como rígido e hierárquico o velho mundo em que
cada qual sabia “essa é a tarefa que faço”; “esta é a que você faz”; “aquela
está reservada para jovens aprendizes”; “aquela outra é feita só por antigos e
experientes empregados que sabem o que pode não funcionar”. Essa rigidez leva
facilmente a um conjunto de regras não enunciadas, que atribui certas tarefas a
mulheres, ou a membros de um grupo étnico especial, ou a pessoas com
determinada escolaridade, o que coloca barreiras inaceitáveis à mobilidade
social e à igualdade de oportunidades. Porém, agora que essas hierarquias foram
abolidas, o que temos?
Um
mundo em que:
- você é sempre tão
bom quanto sua performance da semana passada;
- para manter seu
emprego, você deve estar sempre preparado para aprender uma nova habilidade e
mudar o antigo modo no qual foi capacitado (e do qual você poderia se orgulhar
no passado);
- você não pode
conhecer de antemão quando estará de folga ou quando terá de trabalhar;
- você jamais
poderá dizer: “não, isso não é da minha responsabilidade”, sem temor de
represália.
Um
mundo sem fronteiras ocupacionais poderia facilmente tornar-se um mundo no qual
a solidariedade social é quase impossível, porque você já não tem qualquer meio
de definir quais são seus companheiros de trabalho ou quais são os seus
vizinhos; um mundo em que tantas de suas interações são com desconhecidos que
você terá dificuldade discernir entre um amigo, uma aliança de um inimigo e uma
ameaça.
O futuro de nossas cidades dependerá em grande
parte de como reintegraremos personalidades fragmentadas, lugares fragmentados
e vizinhanças fragmentadas.
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