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O
que tem acontecido desde 2000? Uma segunda série de estudos de caso levados a
efeito pelo projeto Emergence na Ásia em 2002 e 2003 descobriu fatos
significativos nos primeiros anos do século XXI. O que, na virada do milênio,
ainda era uma experiência arriscada, tornou-se, três anos depois, prática
normal e rotineira. Cadeias produtivas ficaram mais longas e complexas com
crescente número de intermediários envolvidos. O mundo testemunha o surgimento
de imensas novas companhias dedicadas ao suprimento de serviços aos negócios,
as quais são, com freqüência, maiores que seus clientes, multiplicando em suas
próprias estruturas a divisão internacional de trabalho.
Quando
uma grande organização do setor público ou privado decide contratar o
fornecimento de serviços de escritório, cada vez mais não é tanto o caso
escolher entre a Índia ou a Rússia, Canadá ou China, mas sim questão de decidir
entre uma companhia específica (por exemplo, Accenture, EDS ou Siemens Business
Service). Uma vez que a companhia ganhou o contrato, ela pode dividir o
trabalho em âmbito mundial, em função de critérios de competência, idioma,
custo e qualidade envolvidos. Esse tipo de trabalho pode ser considerado
paradigmático do “trabalho errante”, pois desliza maciamente entre equipes
através do globo, as quais se encontram ligadas pelas redes de telecomunicação
e por uma cultura corporativa comum, mesmo estando fisicamente localizadas em
ambientes fortemente contrastantes e ocupando posições sociais muito diferentes
na estrutura social local.
A
presença dessa nova classe internacional de trabalhadores nessa rede eletrônica
(cyberworkers), sem dúvida, causa impacto nas cidades em que vive. Por exemplo,
eles podem tornar-se canais para espalhar valores e culturas das corporações
multinacionais no seio das comunidades locais; e, através das cadeias de
produção, nas empresas supridoras. Se essas pessoas deixam essas firmas e
vão trabalhar em companhia sediada
localmente, ou se decidem começar seu próprio negócio, sua experiência
internacional marcará nessa nova ocupação. Há outros efeitos mais concretos.
Por exemplo, o impacto da indústria de software em Bangalore tem sido dramático
em termos de pressão na infra-estrutura e aumento nos preços da propriedade
imobiliária, o que afeta os outros
habitantes da cidade.
Habitantes
das cidades vizinhas de Dublin também têm sido vitimas do sucesso internacional
do fenômeno “tigre celta”, pois este tem produzido congestionamento crônico de
tráfego, inflação do preço de imóveis, o que torna a aquisição de uma moradia
inacessível a muitos que antes poderiam comprá-la. Do mesmo modo, o tráfego
fica paralisado toda vez que há uma ligeira mudança nos florescentes “centros de atendimento” (call
center sites) de Noida e Gurgeon, perto de Delhi no norte da Índia.
Enquanto isso, o próprio fato de que seu trabalho pode
ser alocado em outra parte do mundo freia as perspectivas dos trabalhadores de
colarinho branco nas cidades que abrigam esse tipo de trabalho. A crescente
instabilidade de seus empregos, muitas vezes expressada contratualmente como
auto-emprego ou contrato de prazo fixo, não só lhes dificulta tentar melhoria
de remuneração e de condições de trabalho, como afeta o mercado imobiliário,
pois exclui uma clientela potencial da concessão de hipoteca.
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