Estatísticas filosóficas

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— Meu caro filósofo, você tem consciência da fragilidade de suas argumentações?

 

— Esta é uma boa pergunta. Mas antes poderíamos definir o conceito de "consciência" e verificar que fragilidades de argumentação são estas. De qualquer modo, não sabia que os estatísticos gostavam de filosofia! O mundo da estatística é às vezes muito árduo, não?

 

— Não é árduo, não. Devo informar-lhe que 94% das pessoas que trabalham com estatística consideram sua vida até muito tranqüila e organizada.

 

— Admirável.

 

— Pois é. Ao passo que os filósofos tendem a viver mergulhados em dúvidas angustiantes, hesitações e insônias. Uma pesquisa demonstra que 85% dos filósofos têm algum tipo de problema de saúde causado por excesso de reflexão ou pelo menos associado a comportamento mental demasiadamente complexo.

 

— Confesso que esses números pouca influência exercem sobre minha reflexão. A dúvida, contudo, não supõe necessariamente um estado de angústia. Duvidar do que parece evidente pode ser a condição de novas descobertas teoréticas.

 

— O que eu sei, meu caro, é que 63% dos livros de autores filósofos aumentam a indecisão dos leitores. Os outros 37% permanecem na prateleira, o que é um indicador a mais de que os leitores hesitam perante a filosofia.

 

— De onde tira esses números? Não percebe como são reducionistas, desprezando matizes que, afinal, a lógica estatística descarta por princípio, a fim de controlar os resultados?

 

— Os filósofos estão sempre em busca da origem, dos princípios, das causas finais. Compreendo perfeitamente essa atitude regressiva. No entanto, basta-me dizer que eu mesmo tenho dedicado toda a minha vida a pesquisar o que acontece na vida de vocês, filósofos.

 

— Ah...

 

— Por exemplo, você sabia que 89% dos filósofos não se casam? E que, dentre os que se casam, 52% não têm filhos? E que, dos que se casam e têm filhos, 96% confessam-se arrependidos de terem gerado vidas para esse mundo de/sem Deus?

 

— Calculo que você também calculou...

 

— Calcular é comigo mesmo! Já sei o que você ia dizer. Veja: 67% dos filósofos se declaram ateus ou agnósticos. Dentre os 33% (a idade de Cristo!) que ainda têm algum tipo de crença em Deus, 64% são cristãos. Dentre estes, 36% são católicos. E dentre estes, 26% freqüentam a igreja.

 

— Impressionante.

 

— E tem mais. Verifiquei que 99% dos filósofos invadem a vida alheia, falam mais do que deviam, monopolizando o discurso e constrangendo seus interlocutores.

 

— Não me diga...

 

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e escritor.

Website: http://www.perisse.com.br/

 

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