Quem criou Vinicius?

 

A bestialidade do tenente Vinicius Ghidetti e de seus comandados desperta perguntas difíceis. O Exército deve voltar-se para a ordem pública? Há oficiais negociando com bandidos? O Exército envolveu-se em ações eleitoreiras?

 

O ambiente eleitoral favorece o destaque às maquinações do bispo Crivella, mas a primeira pergunta, de longe, é mais relevante, já que diz respeito à destinação da força militar custeada pela sociedade.

 

Uma força armada se organiza em vista de inimigos potenciais ou declarados. Contra quem o Exército deve se preparar? O problema sempre esteve em pauta, complicando-se desde o fim da ditadura militar e da guerra fria, quando o comunismo deixou de ser visto como grande ameaça. As Forças Armadas ficaram sem inimigo claramente definido.

 

Frente à insegurança das cidades, muitos vêem no Exército um possível instrumento contra a bandidagem. Comandantes militares rejeitam, sem solidez, a idéia; argúem problemas jurídicos. A questão está em aberto, como mostra a fala do governo diante das repercussões do crime. Em nome do presidente Lula, o general Jorge Félix vê o caso como fato isolado, insuficiente para a retirada das tropas do local; o ministro Jobim e o general Enzo Peri, comandante do Exército, defendem que a corporação continue agindo na cidade, mas com tropas "mais preparadas".

 

Preparadas para quê? No passado remoto, o Exército recebia missões voltadas para a "ordem interna", caçando escravos foragidos e massacrando sertanejos insubmissos; depois, perseguiu comunistas. Raramente enfrentou tropas estrangeiras. Hoje, há tropas preparadas para combater bandidos? Estivessem claramente voltados contra possíveis agressores estrangeiros, os comandantes responderiam à pergunta com facilidade.

 

O episódio do Morro da Providência põe sob suspeita o tipo de formação ofertada aos oficiais. Quem garante que Vinicius Ghidetti seja um caso isolado? Este oficial não foi preparado para combater em nome do povo brasileiro. Num lance, abalou a imagem com a qual o Exército tenta apresentar-se, de uma instituição a serviço da pátria.

 

Pretendendo defender sua autoridade frente aos soldados, o tenente copiou o estilo da máfia. Quem criou Vinicius? Não lhe ensinaram a diferença entre a autoridade de homem e a autoridade de fera ou este oficial ludibriou instrutores e superiores hierárquicos? Seja qual for a resposta, a corporação fracassou e o ensino militar está sob suspeita.

 

A essência da formação guerreira é o controle da violência cega inerente a confrontos armados, ensina Clausewitz. Homens em armas estão sempre a um passo da irracionalidade. Se as escolas militares admitem elementos desprovidos de sentimentos humanitários, o básico não pode ser ensinado.

 

Em nome do governo, o ministro Jobim pediu desculpas. (O general Enzo Peri não repetiu o gesto). O pedido seria mais convincente se acompanhado de uma definição clara do papel das Forças Armadas e de uma revisão do ensino militar.

 

Manuel Domingos é professor da UFC, coordenador do Observatório das Nacionalidades.

 

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