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Militarização da fé Imprimir E-mail
Escrito por Dirceu Benincá e Jaime Carlos Patias   
Quarta, 18 de Junho de 2008
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Os símbolos falam mais que muitas palavras. Carregada de peso simbólico, a cruz é utilizada por diferentes religiões desde os tempos mais antigos. Aos cristãos, lembra sofrimento e morte. Por outro lado, aponta para a ressurreição. A espada é uma arma de guerra que também se transformou em símbolo. Os judeus costumavam usar a cruz como recurso de pena máxima. Jesus sofreu essa condenação. Os romanos, por sua vez, privilegiavam a espada. Paulo, o discípulo do crucificado, foi assim decapitado. 

 

Na história do cristianismo, cruz e espada estiveram juntas em diversas ocasiões, produzindo resultados trágicos. As Cruzadas Medievais, por exemplo, ocorridas entre 1096 e 1271, foram expedições militarizadas organizadas pelo papado com o objetivo de combater os inimigos do cristianismo e libertar a Terra Santa do domínio muçulmano. Os adeptos das Cruzadas eram identificados com uma cruz vermelha estampada em suas vestes. Na Guerra Santa, muito sangue foi derramado.

 

No período da colonização do Brasil, o Império trouxe os jesuítas, que se encarregaram de apresentar a cruz cristã aos povos indígenas. Os colonizadores subjugaram os nativos, utilizando o poder político (coroa), o poder religioso (cruz) e o poder militar (espada). O extermínio de indígenas, a exploração e a expropriação de recursos naturais foram incontáveis. Nesse contexto de conquista, nasceu a cidade de São Paulo em 1554, juntamente com a implantação da Igreja católica. Em junho de 1908 foi instaurada a Arquidiocese. 

 

Para registrar um século de história, a Arquidiocese realizou diversas atividades. O encerramento das comemorações deu-se com uma celebração solene no dia 8 de junho, no estádio do Pacaembu. Cerca de 30 mil pessoas compareceram ao evento. A Igreja na metrópole é constituída por múltiplas comunidades, pastorais, organismos, movimentos, grupos etc. Contudo, isso praticamente não foi considerado. 

 

O grande destaque da celebração ficou por conta dos Arautos do Evangelho, numa clássica demonstração das tendências conservadoras que emergem cada vez mais fortes. Cerca de 8 mil Arautos (homens e mulheres de todas as idades) armaram trincheira em volta do campo, no altar e nas arquibancadas. Posicionaram-se estrategicamente em todo o estádio, de modo que não era possível fotografar o povo durante toda a cerimônia sem que aparecessem.

 

Os Arautos do Evangelho são uma associação religiosa privada, dissidente da TFP (Tradição, Família e Propriedade), autorizada pelo papa João Paulo II em 2002. Estão espalhados em mais de 60 países. Tendo na cintura uma corrente de ferro, identificam-se como "escravos de Jesus através de Maria". Pendente desta corrente está o rosário. Seu hábito é uma túnica branca guarnecida de um escapulário marrom que ostenta uma cruz em forma de espada. 

 

Não por acaso, com esta marca emblemática, foram convidados a carregar de forma olímpica a imagem de São Paulo. Com pompa e incenso, o santo - tendo a espada do seu martírio na mão - foi entronizado como patrono da Arquidiocese. Ao mesmo tempo, Santa Ana, mulher quase invisível do Antigo Testamento, até agora patrona da Arquidiocese, foi automaticamente "destronada". Nem lhe foi concedido ficar ao lado do homem São Paulo para a honra dos altares.

 

Aquilo que era para ser uma celebração da vida da Igreja - que sempre evangelizou entre luzes e sombras - tornou-se um evento de holofote único, típico da sociedade do espetáculo. A ordem, a disciplina e o formalismo foram ressaltados sob a força do poder simbólico. É lamentável que um ato religioso com o objetivo de fazer memória do centenário tenha acabado por dar tanta visibilidade a um único grupo surgido há apenas 6 anos.

 

A forte carga triunfalista e ritualista praticamente ignorou todo o trabalho pastoral realizado nas comunidades e paróquias da cidade. As Comunidades Eclesiais de Base, os mártires da caminhada, os grupos de direitos humanos, os povos indígenas e afro-descendentes sequer foram mencionados. Muito se exaltou a hierarquia e as autoridades civis e militares. Associando o triunfalismo eclesial com o "militarismo da fé", reforçou-se um modelo de Igreja piramidal, distante do conceito de Igreja Povo de Deus tão caro ao Concílio Vaticano II. A menção aos pobres, tratados como "pobrezinhos", ficou restrita à coleta para a construção de um templo religioso na Favela de Heliópolis.

 

Esperávamos uma celebração que contemplasse todas as forças vivas da igreja; que comemorasse de maneira ampla a histórica caminhada do povo católico; que retratasse as contraditórias realidades desta cidade, onde, mesmo assim, Deus habita; que revelasse a igreja inserida na sociedade plural, com vocação e missão profética; uma igreja com opção preferencial pelos pobres; uma igreja discípula missionária comprometida com a construção de um mundo justo e solidário, sinal do Reino de Deus.

 

Em última análise, o ato dá sustentação à lógica neoliberal. Como afirmava Marx, hoje vivemos uma "guerra de todos contra todos", caracterizada pelo modo capitalista de produção e pelo individualismo crescente. Do mesmo modo que o sistema assume novas formas e adota novas estratégias, a espada se moderniza e se reconfigura. Porém, o saldo é sempre danoso: dominação, exclusão, violência e morte. É preciso reafirmar: nosso inimigo maior são os totalitarismos e fundamentalismos. Esse pensamento único atinge as estruturas sociais, econômicas, culturais, religiosas etc. É perverso, muitas vezes fazendo questão de se legitimar pela via do sagrado. 

 

E os fiéis presentes no Pacaembu? Em geral, rezaram, festejaram, ouviram tudo e comungaram o Corpo e Sangue de Cristo. Foram motivados a vivenciar com renovada esperança o início do segundo centenário. Muitos também saíram frustrados com o modelo eclesial apresentado, uma vez que nem mesmo esteve sintonizado com a mensagem enviada pelo papa: "Possa esta significativa celebração animar todas as forças vivas desta igreja local para um marcante protagonismo evangelizador". Ocorre que a militarização da fé e a privatização religiosa não condizem com o verdadeiro sentido do cristianismo, nem com uma igreja que deseja viver a comunhão e participação.

 

Publicado originalmente na Revista Missões; e-mail: redacao(0)revistamissoes.org.br

 

Dirceu Benincá é doutorando em Ciências Sociais - PUC/SP; Jaime Carlos Patias é mestre em Comunicação.

 

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Última atualização em Quarta, 20 de Agosto de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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