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O sentido histórico de 1968 (2) Imprimir E-mail
Escrito por Mario Maestri   
Qui, 12 de Junho de 2008
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Convergência operário-estudantil

 

Os vínculos ligando o mundo estudantil ao operário foram de essencial importância nos sucessos de 1967-1969, já que a profundidade dos sobressaltos sociais conhecidos nas nações mais diretamente estremecidas por aqueles acontecimentos dependeu principalmente do acolhimento e da potenciação das mobilizações da juventude estudantil e popular pelo movimento operário. Realidade que podemos apreciar na solução paradigmaticamente divergente dessa equação nos Estados Unidos e na França.

 

Nos EUA, o núcleo central da classe operária, que em geral jamais conheceu autonomia política mesmo relativa diante do capital, manteve-se refratário, insensível e comumente hostil às mobilizações pacifistas e anti-racistas, ensejando que a forte fratura do consenso e da hegemonia dominantes assumisse, sobretudo, expressões políticas e ideológicas de rejeição à cultura, ao comportamento e ao consumo capitalistas, jamais à produção e à organização capitalistas propriamente ditas. Essa última ruptura não se realizou sequer em forma programática.

 

A não-recepção do movimento pacifista e anti-racista por parte dos núcleos centrais dos trabalhadores estadunidenses ensejou que os fortes sobressaltos dos anos 1960-1970 fossem a seguir apreendidos em geral como crise entre as gerações, perdendo-se enorme parte de seu conteúdo evocativo e programático, sobretudo após a soldadura das fissuras no consenso social pelas classes dominantes, a partir do governo Ronald Reagan (1981-89), o que permitiu que se empreendesse, a seguir, verdadeira criminalização e abominação daqueles movimentos e a neutralização ou eliminação física da vanguarda por eles produzida, processo já iniciado anteriormente com o assassinato de Malcolm X, em 1965, e de Martin Luther King, em 1968.

Étudiants, ouvriers, même combat?

 

Na França, ao contrário, as lutas estudantis, especialmente parisienses, de inícios de maio foram acolhidas pela classe trabalhadora, por movimento de três semanas de greve geral, com mais de dez milhões de trabalhadores e ocupação de fábricas encimadas por bandeiras vermelhas, que estabeleceu, nos fatos, dualidade de poderes no país. Dualidade que não se objetivou na proposta de conquista do governo apenas pela incapacidade do operariado de superar politicamente a direção do PCF, que comandou a frustração-dissolução do movimento semi-insurrecional ao canalizá-lo para solução eleitoral de julho proposta pelo governo, que demarcou a clara derrota e refluxo popular.

 

Se na França a aliança operário-estudantil levou o país às portas de governo popular, de cunho ou orientação operária e socialista, no Paquistão a confluência das lutas do estudantado com a população trabalhadora foi mais longe, ensejando, após quatro meses de duros combates, a queda, em 1969, da ditadura militar de Ayub Khan, que vinha sendo sustentada pelo imperialismo estadunidense. Uma conquista frustrada a seguir devido ao refluxo do movimento revolucionário mundial.

 

A Itália, ao contrário, constituiu caso singular, já que as mobilizações iniciadas em 1967 ensejaram longa permanência de confluência, política e orgânica, entre estudantes radicalizados e segmentos da classe operária em ruptura com o colaboracionismo do PCI, que manteve, porém, a hegemonia sobre o coração central da classe trabalhadora. Aquele processo se esgotou dez anos mais tarde, com o refluxo das lutas de massa, facilitando a ação irresponsável das organizações armadas, com destaque para as Brigadas Vermelhas, que contribuíram para gravíssima derrota política da esquerda como um todo. Fenômeno conhecido igualmente pela Alemanha Federal, sobretudo com a Fração do Exército Vermelho.

 

Crise objetiva-subjetiva

 

O estremecimento geral conhecido por países como a França, Itália, Alemanha Federal, Estados Unidos, Paquistão, México, Brasil etc., demarcou o já referido esgotamento da expansão capitalista de pós-guerra, no contexto da primeira grande crise de hegemonia conhecida, por um lado pelo imperialismo, no que se refere ao mundo do capital, e por outro do stalinismo e da social-democracia, no que diz respeito ao mundo do trabalho. Processos que se materializaram segundo as realidades das diversas nações envolvidas pelos sucessos.

 

Na esfera subjetiva, o avanço da revolução mundial determinou profunda ruptura do stalinismo e da social-democracia. O fim daquele monopólio foi demarcado pela redescoberta de velhos e novos teóricos revolucionários, como Karl Korsch, León Trotsky, Rosa Luxemburgo, Franz Fanon, Georg Lukacs, Guevara, Isaac Deutscher, Wilhelm Reich etc.; pelo renascimento do debate marxista, com destaque para a economia e a teoria da dependência – Charles Bettelheim, Ernest Mandel, Henri Lefevbre, Herbert Marcuse, Paul Baran, Paul Sweezy etc.; e igualmente pela emergência de organizações políticas revolucionárias de corte principalmente trotskista, maoísta, guevaristas, autonomistas, fortes sobretudo nos segmentos da juventude estudantil e operária radicalizadas. Todo esse movimento caracterizado pela profunda rejeição ao parlamentarismo. Especialmente na Itália, o novo ativismo político foi conhecido como oposição extra-parlamentar.

 

O próprio fenômeno das organizações armadas européias e latino-americanas encontra parte de sua explicação no impulso revolucionário ensejado pela vitória cubana, pela guerra de libertação vietnamita e pelas rupturas de 1967-1969 que, no referente à Europa, galvanizaram e lançaram segmentos jovens, principalmente das classes médias, sobretudo após o refluxo da mobilização de massas em lutas protagonistas, vistas por seus participantes como parte do combate anticapitalista e antiimperialista mundial. Ações desvinculadas do movimento social, utilizadas pelo imperialismo e governos conservadores contra a esquerda e o mundo do trabalho.

 

O geral e o particular

 

O processo de galvanização subjetiva mundial, vivido em 1967-1969, deu-se no contexto de profunda interdeterminação do geral e do particular, do mundial e do nacional. Um processo no qual os meios de comunicação, com destaque para a mídia fortemente potenciada, sobretudo na Europa, nos anos anteriores pela popularização da televisão, ensejaram poderosos influxos positivos para o movimento social em avanço, através de uma difusão intensiva de mobilizações e de lutas. Ainda que esses sucessos fossem anatematizados pela mídia em nível da narrativa oral, sobretudo a capacidade das imagens de reverberarem o sentido dos processos que registravam principalmente junto a receptores vivendo mais ou menos, objetiva e subjetivamente, os mesmos influxos, apoiou, incentivou e orientou jornadas congêneres em outras partes do mundo.

 

O ano de 1968 abriu-se com a vitória da ofensiva do Ano Ted, seguindo-se em maio as jornadas francesas e, muito logo, a Marcha dos Cem Mil no Rio de Janeiro e as manifestações e lutas vitoriosas no Paquistão. Como por primeira vez em 1917, diante dos olhos da população mundial, a revolução materializava-se como processo literalmente palpável. O mundo do trabalho desbordava objetivamente as fronteiras políticas, ideológicas e simbólicas que lhe haviam sido delimitadas pela normalidade institucional para se espraiar poderosamente, transformando seu programa em alternativa social e existencial real para as populações nacionais e mundiais.

 

Esse processo de transbordamento revolucionário exercia uma fortíssima atração sobre os setores médios, com destaque para intelectuais, artistas, políticos, jovens militantes ou não, afastados anteriormente da atração exercida pela revolução e pelo mundo do trabalho pela ação hegemônica do stalinismo nos países do leste europeu e entre a grande classe operária organizada. A crescente opção subjetiva e não raro orgânica de cientistas sociais e acadêmicos pelo socialismo ensejou a ampliação horizontal e vertical da crítica da sociedade e da produção capitalista nos campos da história, sociologia, economia, política e artes, contribuindo poderosamente para o fortalecimento do mundo do trabalho. Esse fenômeno foi fortíssimo na França pós-1968.

 

A Revolução ao alcance da mão

 

O socialismo, o racionalismo, o ateísmo, o solidarismo, tornavam-se valores fortemente prestigiados, enquanto o capitalismo, o irracionalismo, o espiritualismo, o individualismo, desvalorizavam-se e desqualificavam-se diante dos olhos de milhões e milhões de indivíduos, sob o influxo direto e indireto, consciente e inconsciente, da revolução mundial em marcha. Transbordava através do mundo a confiança em um futuro muito próximo em que o homem seria, finalmente, não mais o lobo, mas o amigo do homem.

 

O ano de 1968 seria o de menores vocações sacerdotais no século 20. Sem interesse e necessidade de olhar, por frustração e desespero, para as coisas do céu e do além, o homem e a mulher, transcendidos pelas possibilidades que viam abrir-se diante de si, voltavam-se desbordando de confiança para o mundo material e espiritual terreno do aqui e do agora. Galopando desenfreado através do mundo, o indomável corcel da revolução inoculou seu fulgor, em forma mais ou menos radical, em uma vasta geração de militantes sociais, em geral muito jovens.

 

Por seu inesperado radicalismo e longevidade, esse processo terminou determinando, mais tarde, a criação de neologismo "soixantuitards" na França, "sessantotini" na Itália, para descrever, positiva ou pejorativamente, conforme o lado da trincheira, a geração de homens e mulheres, hoje com sessenta e setenta anos, que apesar de dizimada pelas deserções dos anos 1980-90, segue ainda, passados quarenta anos, irremediavelmente influenciada em seus comportamentos e visões de mundo por aqueles anos e jornadas magníficos em que a conquista do céu esteve ao alcance das mãos.

 

O que não avança, retrocede

 

Já foi dito que a revolução não se instalou da noite para o dia, mesmo quando se trata do dia da revolução. A imposição da derrota histórica do mundo do trabalho pelo capital que vivemos plenamente nos dias de hoje não se deu igualmente de um dia, mês ou ano para o outro após o refluxo da grande onda revolucionária de 1968 já em fins daquele ano, com destaque para a França, Brasil e México (neste último país com o terrível massacre de Tlatelolco, de 2 de outubro de 1968, com talvez quatrocentos mortos), ainda que a luta se expandisse, em 1969, no Japão; na Argentina, com o Cordobazo; na China, com a Comuna de Xangai; e na Itália, com o Outono Quente. A partida continuou sendo jogada ainda por alguns anos com as classes trabalhadoras e populares na ofensiva, antes que a maré revolucionária sofresse dolorosa reversão.

 

As razões e cronologia gerais da derrota do empuxe revolucionário, com forte aceleração em 1967-1969, exigem discussão bem mais ampla e complexa. Apesar da derrota imperialista e vitória popular no Vietnã do Sul (1974), Angola e Moçambique (1975), Iêmen, Etiópia, Nicarágua (1978), a vaga popular mundial sofreu golpes significativos quando das derrotas da Revolução Chilena, em 1973, na América Latina; Portuguesa, em 1975, na Europa; e, finalmente, Afegã, em 1988, na Ásia, devido ao peso qualitativo desses movimentos. O fortalecimento da contra-revolução entre a classe operária polonesa, através do Solidariedade, desempenhou importante papel nesse processo.

 

Em verdade, a vaga revolucionária mundial já esmorecera em fins da década de 1970, retrocedendo nos anos 80, para ser definitivamente batida nos anos 1990. Nesse processo, desempenharam importante papel os governos Ronald Reagan (1981-89), nos Estados Unidos, Margaret Thatcher (1979-1990), na Inglaterra e o longo poder do papa Woytilla (1978-2005), exercido um pouco em todo o mundo, através de uma intensa militância anti-operária e anti-socialista.

Contra-Revolução Vitoriosa

 

A derrota do grande impulso revolucionário (que conhecera forte aceleração em 1967-69) e o seu esmagamento geral (vinte anos mais tarde, em 1989, através da recuperação, hoje nos seus momentos finais, pela produção capitalista da URSS e das nações de economia nacionalizada e planejada da Europa, Ásia e América), deveram-se em última instância à imobilidade política e social das classes trabalhadoras estadunidenses e soviéticas, incapazes de superarem, mesmo em forma limitada, a dominação capitalista e burocrática sob a qual se encontravam, garantindo amplo espaço de recuperação-metamorfose para os segmentos dominantes daqueles países.

 

As complexas razões de tais fenômenos ainda não foram elucidadas a contento, em boa parte devido ao próprio recuo objetivo e subjetivo, vivido desde os anos 1980, pelo mundo do trabalho e seus cada vez mais rarefeitos quadros intelectuais orgânicos, processo que se concluiu com a contra-revolução neoliberal de fins daquele decênio, que ainda pesa dolorosamente sobre todos nós, como assinalado.

 

A derrota da maré revolucionária, de forte eclosão em 1967-69, enseja não a obsolescência de seu programa, como proposto habitualmente por apologistas da opressão, apoiados sobretudo na prova da vitória capitalista. Ao contrário, determina a urgência da retomada-concretização geral da proposta levantada há quarenta anos de reorganização social do mundo, para a superação das contradições postas pela desordem capitalista.

 

Contradições que hoje, devido ao seu caráter geral e profundidade, comprovam dolorosamente a lembrança de Rosa Luxemburgo, há quase um século, de que à humanidade apresentam-se como alternativas apenas o socialismo ou a barbárie.

 

Mário Maestri, 59, é historiador e professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS. E-Mail: maestri(0)via-rs.net.

 

Leia também : O Sentido Histórico de 1968 (1)

 

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Última atualização em Quarta, 27 de Agosto de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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