Correio da Cidadania

Inteligências a serviço do Evangelho

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Na quarta-feira, dia 25 de abril, a Igreja celebra São Marcos. Ele é o autor do segundo dos Evangelhos, na seqüência em que agora se encontram os escritos do Novo Testamento.

 

Marcos sabia escrever. E colocou esta capacidade, com muita eficiência, a serviço do Evangelho. Segundo a tradição, ajudou especialmente a Pedro. Tanto que o seu escrito pode ser considerado como “o evangelho de Pedro”. Mas colaborou de perto também com Paulo. Com ele e Barnabé partiu em missão, na primeira grande investida evangelizadora em direção ao mundo greco-romano, mesmo que tenha voltado a Jerusalém logo depois de passarem por Chipre.

 

Mais tarde, Paulo o requisita de novo, porque Marcos era “muito útil ao ministério”, como o próprio Paulo reconhece, escrevendo a Timóteo (2 Tim 4,11).

 

Pois bem, a figura de Marcos nos enseja uma constatação muito importante. Não se entende o Novo Testamento sem a valiosa contribuição de intelectuais, que tiveram o cuidado de registrar por escrito os acontecimentos. Mas sem eles não se entende, sobretudo, a própria consistência da fé cristã. De simples pregação oral, feita por Jesus ao povo analfabeto da Galiléia, a nova “doutrina” tomou forma orgânica, com força de assimilar a longa tradição do Antigo Testamento, e com energia suficiente para se inserir na cultura do império romano, integrando seus valores e solapando suas contradições.

 

Tudo isto teria sido impossível sem a colaboração de pessoas que colocaram sua capacidade intelectual a serviço da “boa nova” anunciada por Jesus, e entregue aos seus discípulos para que a levassem “até os confins do mundo”. O Evangelho de Jesus teria ficado a pé, se não fosse carregado por esses intelectuais, que emprestaram as asas de sua inteligência para que o Evangelho de Jesus levantasse vôo em direção ao mundo inteiro.

 

Neste trabalho intelectual, de sistematizar a fé cristã para recolher os seus fundamentos teológicos e abri-la para o encontro fecundo com as diferentes culturas humanas, emerge a figura de Paulo, gigante escolhido pela providência, como “instrumento privilegiado” para levar o Evangelho às nações. Tanto que Paulo é visto por historiadores como a figura central do novo sistema religioso resultante da fé em Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, princípio aglutinador da nova postura vital integradora da crença em Deus e da esperança humana. Alguns até consideram Paulo como o “fundador” do cristianismo. Ele nos legou, em todo o caso, por seus escritos e por sua estratégia evangelizadora, um sistema coerente de pensamento que possibilita acolher com racionalidade a cosmovisão teológica estruturada a partir da centralidade da fé em Cristo.

 

Outra figura imprescindível para entender o Novo Testamento e o sucesso da pregação evangélica é Lucas, o autor do terceiro Evangelho e do livro dos Atos dos Apóstolos. Como ele mesmo confessa, procurou redigir “um relato ordenado, depois de ter investigado tudo cuidadosamente desde as origens”, para todos perceberem “a solidez dos ensinamentos”. Lucas era médico. Mas resolveu colocar sua vida e sua capacidade intelectual a serviço do Evangelho.

 

O fato é este: a Igreja Primitiva teve sucesso em sua missão evangelizadora, porque soube acolher e integrar os intelectuais, que colocaram sua inteligência a serviço do Evangelho.

 

A conclusão é esta: para que a “nova evangelização” tenha hoje sucesso, é preciso contar com a imprescindível colaboração dos teólogos, que nos ajudem a refazer o encontro fecundo do Evangelho com a cultura de hoje. Sem eles, a fé cristã não lança raízes profundas, e a Igreja não produz frutos de vida nova.

 

Na Conferência de Aparecida, é indispensável um claro estímulo aos teólogos, para que eles se sintam valorizados pela Igreja, e estimulados a prestarem sua valiosa contribuição à causa do Evangelho.

 

 

D. Demétrio Valentini é bispo de Jales (http://www.diocesedejales.org.br).

 

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