Nordeste Terminal

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Segundo as últimas informações de quem estuda o aquecimento global, em termos de Brasil, o pior vai sobrar mesmo para o Nordeste. A pluviosidade nordestina vai diminuir 25%. O rio São Francisco vai perder 26% de seu volume de águas. A temperatura do Nordeste vai aumentar cinco graus. Por conseqüência, o fator evaporação, que hoje é de três milímetros por cada milímetro de precipitação – chove do chão para as nuvens –, tende a aumentar substancialmente a cada grau de aquecimento. O aquecimento vai enfraquecer os ventos no sertão e o potencial eólico deverá cair 60%. O São Francisco, ao perder água, perderá capacidade de gerar energia. Essa bagatela em caso de não se concretizar a pior previsão de Lovelock, que simplesmente vê o sertão nordestino como área absolutamente inabitável se a concentração de gás carbônico chegar a 500 ppm (parte por milhão) na atmosfera.

 

A única "promessa boa" que nos fazem é que a região vai ser ainda mais propícia para plantar cana. Pois, com o que é a tragédia nordestina há séculos, com devastação da Mata Atlântica, concentração de terra, de poder, com a conseqüente exclusão e miséria da população litorânea, será a única solução.

 

Claro, são cenários. Esses dias, choveu 1.500 milímetros na região do Cariri. Isso é pluviosidade de região temperada, não de semi-árido, que vai até 800 milímetros por ano. Mas o planeta está em transe e prevenir cenários é a inteligência mínima que se exige de dirigentes políticos. Nossa proposta e nossas lutas pela "convivência com o semi-árido" simplesmente estão com a corda no pescoço.

 

Para melhorar a situação, estão fazendo a transposição do São Francisco e a Bahia promete irrigar 510 mil hectares de cana no vale, consumindo 510 metros cúbicos de água por segundo. Provavelmente a água virá da região amazônica, como quer o Mangabeira Unger ou o pessoal que quer a transposição do Tocantins para o São Francisco.

 

Ninguém olha para o diagnóstico humano feito pela ANA (Agência Nacional de Águas), que nos promete crise generalizada de abastecimento de água em mais de 1300 municípios nordestinos se não forem feitas, até 2015, as obras necessárias para evitar o caos hídrico.

 

O orçamento da transposição está devidamente calculado e em operacionalidade. Quanto às adutoras necessárias para saciar a sede humana, sequer uma está prevista para ser iniciada.

 

Nenhuma novidade. Nem Ariano Suassuna - com Chicó e João Grilo dando golpe em pistoleiro e ainda protegidos por Nossa Senhora - é tão surreal quanto à política brasileira nordestina.

 

Quanto ao Nordeste e seu povo, bem, parece que vamos evaporar ao sol, num forró monumental animado por Lampião e seu bando.

 

Roberto Malvezzi (Gogó) é coordenador da CPT.

 

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