Em defesa da vida

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Está em andamento a discussão sobre o aborto. Infelizmente, ela não transcorre de modo honesto. Criam-se movimentos que levantam a bandeira de defesa da vida, insinuando, maldosamente, que quem se coloca pela legalização do aborto estaria atentando contra a existência humana. Ora, ninguém em sã consciência poderia se colocar contra a vida.

 

Em princípio, somos todos contra o aborto, como somos contrários à amputação de uma perna ou de um braço. A questão, portanto, não é dividir a opinião pública em duas grandes correntes: os que são a favor da vida e os que atentam contra ela. Esse dilema é falso, é desonesto e não seria, a rigor, tão cristão, pois escamoteia a verdade.

 

Quando se defende o aborto assistido, pretende-se evitar a hipocrisia e defender a vida de milhares de mulheres pobres que, por várias razões, são levadas a esse extremo. Legalizar o aborto é evitar a carnificina que se pratica diuturnamente contra a mulher desprovida de recursos, quando são submetidas a incursões nada profissionais dos charlatães do ofício. É, sim, uma atitude humanitária que se quer levar a cabo, superando a hipocrisia reinante por conta de uma cultura que, há milênios, está a serviço do atraso, do obscurantismo e da injustiça social.

 

Caso, na verdade, esses senhores e piedosas senhoras, que se arvoram defensores da vida, quisessem realmente lutar por ela, deveriam cerrar fileiras na luta explícita contra o capitalismo, esse, sim, destruidor de vidas.

 

Mas como o problema é esse, nenhum protesto, nenhum murmúrio. Aliás, a nossa milenar cultura se omite diante da questão maior e desvia as atenções para os efeitos, escamoteando as causas e investindo na salvação de suas almas. Diante da fome, organiza-se uma sopinha. Diante do frio, faz-se uma campanha pelo cobertor. Diante das drogas, salvam-se uns poucos através da dança, da música, do trabalho manual e das orações.

 

Termina-se praticando o varejo, quando necessitamos combater no atacado, denunciando o capitalismo.

 

Gilvan Rocha é presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos (CAEP). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #2 Em defesa da vidaMarcos Aurélio 05-06-2008 07:20
Concordo plenamente que a culpa é do capitalismo e este como tal deve ser denunciado. Mas "um erro não justifica outro", e esse ponto de vista me parece similar "a querer acabar com a pobreza eliminando os pobres".
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0 #1 Legalização do aborto: no varejo ou no aTárzia Medeiros 04-06-2008 19:05
Caro Gilvan. Meu nome é Tárzia, sou militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres e dirigente nacional do PSOL. Não poderia deixar de me congratular contigo pelo excelente artigo. Para nós, que pautamos a luta pela legalização do aborto à luz da luta anticapitalista, é um alento ouvir algumas vozes que se somam para denunciar as verdadeiras causas de atentado à vida nas suas formas mais plenas. No entanto, não poderia deixar de ressaltar que, infelizmente, as contradições no que diz respeito ao aborto também permeiam parcelas significativas de movimentos sociais e seores da squerda nos quais estão localizados/as militantes anticapitalistas dos mais valorosos. Gostaria muito que essa dicotomia fosse válida para criar um divisor de águas, ou seja, quem defendesse a legalização do aborto fosse anticapitalista e quem estivesse contra a legalização fosse aliado do capitalismo. Visto que considero a luta feminista como sendo primordial para a superação do capitalismo, tenho me deparado com alguns dos seus mais ilustres representantes defendendo o aborto como alternativa para combater \\\"a criminalidade e o tráfico de drogas nos morros no Rio de Janeiro\\\", numa demonstração de facismo poucas vezes vista ou ouvida.
Por isso, o seu artigo coloca \\\"o bode na sala\\\" quando denuncia a hipocrisia da prática no varejo. Mas ele também nos serve de alerta (a todos nós e principalmente às feministas anticapitalistas) para que também não pratiquemos \\\"o varejo da luta pela legalização (algumas defendem apenas a descriminalização) do aborto\\\", deixando-nos confundir com aquelas ou aqueles que não querem combater o atacado da subserviência ao capitalismo em suas facetas mais cruéis: pagamento dos juros da dívida ilegítima, superávit primário, agronegócio, projetos que depredam o meio ambiente (como o PAC na Amazônia), desrespeito à soberania de países irmãos na América Latina (como é caso do Haiti, Bolívia), etc. Tudo isso em detrimento da saúde pública e gratuita para não morrer, do trabalho não precarizado para se ter vida digna ao invés de sobrevida, da vida dos mananciais e das florestas, da vida de animais ameaçados de extinção e de populações indígenas remanescentes, enfim, em detrimento da vida em sua forma mais plena, tal qual nós a defendemos.
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