A morena Marina e o verde da mata

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Difícil, muito difícil mesmo, escrever algo melhor e mais belo sobre a ministra Marina Silva e os episódios que cercaram sua saída do Ministério do Meio Ambiente do que a crônica "Querida Marina", de Frei Betto. Além de conhecê-la pessoalmente, meu amigo Betto é artista da pena e dos maiores que povoam esse Brasil.

 

Em todo caso, tento. Tenho a meu favor, como vantagem em relação a Frei Betto, o fato de ser mulher, irmã de gênero de Marina, a morena seringueira, a militante brava e valente, discípula de Chico Mendes, que caiu de pé, como diz seu dominicano amigo e admirador, após sentir que não mais poderia, onde estava, ajudar seu povo e perseguir seus ideais.

 

Desde que assumiu o ministério, Marina vinha lutando por aquilo que era a bandeira da campanha do presidente Lula. Entre as lutas históricas do PT sempre estiveram o repúdio aos transgênicos e à transposição do rio São Francisco - na qual estava unida e solidária ao carismático e extraordinário Frei Luis Flávio Cappio -, a defesa da imediata demarcação das terras indígenas e a preservação da Amazônia, patrimônio ecológico da humanidade, contra o plantio indevido da soja e da cana e a criação de gado, promovidos pela ganância e fome de lucro desmedidas.

 

Marina lutou incansavelmente na fidelidade a seus ideais. Lutou até o ponto de desgastar sua figura austera e militante. A vocação religiosa vivida na juventude foi transfigurada em consagração militante secular e social, mas não menos radical. A morena Marina, que queria ser freira, passou a lutar pelo povo da mata verde e ameaçada do norte brasileiro. Foi deputada, senadora e depois ministra. A diuturna luta pela sustentabilidade, no entanto, esbarrava contra a barreira implacável do modelo de governo do país.

 

A ex-ministra vinha entrando em conflitos com outros ministérios, como a Casa Civil e a Agricultura, em casos e questões que opõem proteção ambiental a interesses econômicos. As hidrelétricas e a plantação de cana não tinham seu beneplácito. E Marina avaliou que não havia apoio à sua luta por parte do presidente Lula. O principal motivo de seu descontentamento eram as medidas de combate ao desmatamento, principalmente na Amazônia. Recusava-se, entretanto, a recuar e desistir daquilo em que acreditava apenas para permanecer no cargo. Este já não fazia mais sentido se, a partir dele, não podia lutar pela preservação da natureza, que significa o futuro da vida das novas gerações.

 

O governo, ainda ébrio de orgulho pelo "investment grade" recém obtido, acabou de empurrar Marina para o digno e maduro pedido de demissão. Na ponta do processo, o embate entre duas mulheres: a ex-ministra Marina e a todo-poderosa ministra Dilma Roussef. Ganhou a que detém mais poder. Marina compreendeu e dignamente retirou-se. Sem acusar ninguém, sem espalhar maledicências e amargas queixas em volta de si. Sem lamentar-se ou aferrar-se ao poder.

 

Como mulher, declaro-me orgulhosa da morena Marina, sua digna coragem e sua inquebrantável fidelidade. Sempre que uma mulher ascende ao poder, é duplamente observada e vigiada. Seus acertos e erros têm peso duas vezes maior que os de um homem. Ela ainda é pioneira, está abrindo caminho, criando paradigmas e modelos. Se mimetiza o jeito masculino de ser e de agir, que muitas vezes na história da humanidade foi pouco atencioso à vida, é duplamente desastroso.

 

Não foi esse – graças a Deus! - o desfecho do mandato ministerial da morena Marina Silva. E por isso a mata verde e a biodiversidade a esperam em festa e sob aplausos.

 

Desde a cadeira do Senado, a indomável seringueira continuará sua luta em prol da vida e da sustentabilidade. O país agradece e a história saberá fazer-lhe justiça. E as mulheres lhe abrem alas em sentida e sincera homenagem.

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, além de autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor" (Ed. Rocco).

 

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Comentários   

0 #3 A Morena Marina e o Verde da MataFernando Claro 01-06-2008 08:28
Vitória, 31 de maio de 2008

EStimada,
Tudo bem?

Reconhecer o trabalho de qualidade de Marina Silva é o mínimo que podemos fazer.
Não li, ainda, o belo e sábio texto de Frei Betto – que recomendo e sugiro sua leitura com minha “imparcialidade”, escrito pelo abençoado escritor, homem da teoria e da prática.

Não vejo em que a bandeira da questão de gênero esteja colocada apropriadamente nesta singular e boa matéria. Afinal, o governo Lula já teve e tem mulheres em postos relevantes e fundamentais.

O de Dilma Roussef é paradigmático.
.
Nossas mulheres amadas e inteligentes estão a chorar pelos cantos por questão de gênero sem, no meu entendimento, fazerem o dever de casa.

Aqui no PSB do Espírito Santo, duas mulheres negras se destacaram no Congresso realizado neste mês. Valcenir e Valneide conquistaram seus merecidos espaços.
Algum machista conseguiria invalidar ou desmerecer o mandato valiosíssimo da Deputada Federal Rita Camata? Eu mesmo respondo. Não!

Portanto, parabéns pela matéria, com a devida restrição ao discurso de prontidão de importantes mulheres como a missivista. Aliás, nunca soube de qualquer lamento por parte de Marina Morena, Verde e Amarela e Silva.

Na política, a começar por Sandra Cavalcanti, Cidinha Campos, Rosinha Garotinho, Roseana Sarney, Zélia Cardoso, Ideli Salvati, Marina Serrano, Marta Suplicy, Janete Capiberibe, Benedita da Silva, Marilena Chauí, Maria da Conceição Tavares, Erundina, Ieda Crusius e outras não menos importantes que não caberiam neste espaço.

E mais, agora, com a liderança máxima na América Latina e de Condolessa e Hillari Clinton nos EUA, e no passado por Golda Meyr, Madame Mão, Indira Ghandi.
Sem dúvida nenhuma as mulheres estão ocupando seus merecidos espaços e não será alijando os homens que conseguirão suas inserções, visibilidade e validação. Para o bem ou para o mal elas se fazem presente em postos chaves, de direção e liderança.

Escrevam mais nos blogues e sites porque aqui, neste espaço democrático, não podem sequer reclamar de concorrência desleal e machismo. Eu reconheço que sinto muito a falta de presenças femininas em minha vida, na vida pública, no trabalho, enfim em todos os lugares e espaços do saber humano.

Uma pergunta não quer calar: algum infeliz ou “sem noção”, por acaso, contestou ou contesta a competência e autoridade destas mulheres? Vivam as mulheres para todo o sempre.
Com respeito e admiração,
Saudações fraternais.
Fernando Claro
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0 #2 Mulher Morena da Matacleto joão stülp 01-06-2008 08:27
Maio, Marina e Mulher!
Betto, Cappio e Leonardo são alguns dos homens que representam os meus ideais e sentimentos a respeito do futuro da mata verde e da vida da humanidade. Em tempos de crise energética e de alimentos corremos o risco de assistir uma grande tragédia. Se com Lula fomos mal, imagine como será depois...
Inspirado na mística cristã e no testemunho de Marina, a Mulher Morena da Mata, quero expressar neste último dia do mês de Maio - mês das mães e da mãe Maria - minha alegria em ler este artigo de Maria Clara e de seguir a luta até o fim! Vale sempre o dito "cair de pé".
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0 #1 Marina e a MataEnéas Maffei 30-05-2008 12:31
Até onde me lembro, tudo quanto é Governo, TEM um TODO PODEROSO Ministro. Lembramos inclusive da tal 'Dama de Ferro', na Inglaterra, e uns tantos outros que não me lembro agora, exceto José Dirceu, que também foi chamado de Todo Poderoso no início do Governo Lula.
Eu acho que a colocação logo no título dessa expressão revela um certo preconceito contra a provável candidata pelo PT à sucessão de Lula em 2010.
A política é um jogo cheio de dificuldades de relacionamento, e nem sempre acontece como queremos que fosse. Sou fã de Marina, mas também admiro Dilma, e pessoalmente acho que não há esperança para o País se ela não se eleger em 2010. Afinal quem voces apoiariam para a fase pós Lula? Estou curioso.
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