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O enigma não decifrado Imprimir E-mail
Escrito por Léo Lince   
Quarta, 21 de Maio de 2008
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No século passado, durante os dias que constituíram o glorioso ano de 1968, o mundo foi abalado por uma eletrização política nada comum. Como uma vaga de contestação aos diferentes formatos do sistema dominante, o vento forte da rebeldia juvenil percorreu os quatro cantos do planeta. Como se sabe, cada século reserva, em seu calendário, pontos de encontro com a perenidade da história. São entroncamentos depois dos quais, como se diz, nada será como antes. O ano em pauta, sem dúvida, foi um destes períodos.

 

O epicentro do abalo foi localizado na França, onde a economia ficou paralisada por duas semanas, dez milhões de trabalhadores em greve se juntaram aos estudantes que, nas "barricadas do desejo", queriam mudar o mundo. No calor dos acontecimentos, muitos acreditaram estar vivendo uma típica situação revolucionária. Mas, apesar da envergadura do movimento, falava-se mais em "vazio de poder" do que em "dualidade do poder". Os comitês de greve não criaram uma coordenação nacional, não se articulavam entre si. A contestação radical não logrou positividade programática. Tudo se passava como se esse imenso poder à margem do Poder se dirigisse ao mundo da política dizendo: "nosso reino não é deste mundo".

 

Contestador e espontâneo, ocupando o espaço livre das ruas e refratário ao conjunto das instituições, o movimento vinha de "baixo da base" e se dirigia ao "global". Além do despotismo patronal e dos malefícios da tecnologia posta a serviço do capital, questionava-se a oposição política integrada no "aparato total" e suas estruturas (partidos, sindicatos, Estado) descentradas do indivíduo. Nascida como fenômeno político e se dirigindo à política, a ebulição gigantesca não desaguou em revolução política, tampouco desencadeou uma contra-revolução. Visando a política, ela atingiu em cheio a cultura e se desdobrou como um processo longo e contraditório de revolução cultural.

 

Ainda quando as barricadas ardiam, um marxista veterano e arguto, Henri Lefebvre, ressaltou que: "em tais acontecimentos se tornaram momentaneamente visíveis, com a transparência luminosa de um relâmpago, novos elementos da vida social". A irrupção espontâneo-contestatória era uma expressão de mudança na morfologia do tecido social. Outras palavras, outros valores, carências e demandas se destinavam a entrar, para o bem ou para o mal, na pauta permanente dos conflitos sociais. Os ventos da rebeldia trouxeram para o fato político um quadro social marcado por um grau de complexidade novo. A direita e a esquerda, as propostas do conservadorismo e da mudança social, passarão a ser interpeladas por um leque novo de problemas, agentes sociais e sujeitos políticos que, até então, não entravam na ordem natural das coisas.

 

As grandes estruturas da política (partidos, sindicatos), embora continuem importantes, não monopolizam mais a representação cidadã. A sociedade começa a ser habitada por uma miríade de movimentos – pacifistas, ecológicos, feministas, de moradores, sem teto, sem terra e tantos outros – possuídos por importância cada vez maior. A politização crescente dos problemas "domésticos" ou individuais parece confirmar Marx: "o livre desenvolvimento de cada um é pressuposto para o livre desenvolvimento de todos". Por outro lado, a demanda por "socialização" da política e dos meios de governar (autogestão, auto-organização das minorias e maiorias, democracia direta), embora ainda não tenha encontrado formas de efetiva realização, é uma das marcas do movimento de maio, também voltado para o "livre desenvolvimento de todos".

 

Tais novidades, sempre remetidas para além da linha do horizonte, ainda hoje estão postas como desafios nos embates da luta política. Sobrevivem como um espinho na ferida cicatrizada e fazem com que a Irrupção de 68, quarenta anos depois, conserve o sabor de um enigma não decifrado.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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