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Desenvolvimento de curral Imprimir E-mail
Escrito por Moisés Diniz   
Quarta, 14 de Maio de 2008
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Que o governo Lula é melhor do que o de FHC, eu nem discuto. Que o governo Lula está fazendo o Brasil ficar mais justo, com mais emprego, mais divisas, dívida externa zero, mais respeito no mundo, investment grade, eu também não discuto. Com Lula, o Brasil ficou melhor!

 

Todavia, o desenvolvimento em si mesmo não pode mais ser o gradiente de dominância do país que detém o controle jurídico e territorial da Amazônia. O Brasil não pode em nenhuma circunstância e sob nenhuma condição estabelecer padrões de crescimento copiando modelos como o norte-americano, o chinês ou indiano.

 

Aqui, no país da Amazônia, não dá para crescer a qualquer custo, de qualquer jeito, com o velho discurso de que devemos crescer para distribuir renda. Nós somos o país das águas que mais parecem um dilúvio nos invernos e suas pororocas e assombrosas enchentes.

 

Nós somos o país das florestas colossais, das infinitas riquezas naturais que mais parecem obra milagrosa de deuses valentes do universo em contração. Nós detemos um pedaço substancial da vida do planeta.

 

Por isso estamos tristes e desolados com a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente do Brasil. Acho que perdemos um anjo do nosso exército. As portas do céu ficaram desprotegidas. O verde está sem pai e sem mãe. A floresta está aflita.

 

Os curumins estão assustados, os pajés não sabem se curam ou se rezam aos deuses da água, do vento e da chuva. Os pássaros sabem que perderam um pedaço de suas asas. Os pequeninos da biologia, os insetos, as formigas, as borboletas, estão em busca de um novo abrigo.

 

Nenhum deles pode enfrentar a violência dos grandes, que têm proteção nos tribunais, nas casas legislativas e até nas farisaicas casas de fé. Os pequenos vão ter que lutar mais, ocupar novamente as ruas, os prédios, enfrentar os coronéis, os criminosos, os bandoleiros da água, das raízes, dos besouros, riachos, encantos naturais que viram riqueza de uns três ou quatro, enquanto a maioria é expulsa da terra, das margens dos rios e vai se esconder onde não dá para escapar da morte: a periferia, os prostíbulos, os presídios.

 

Marina Silva, sim senhor, nos protegia com feição de anjo e coragem de mulher. Ela sabe o quanto de malandragem enfrentou dentro do seu próprio terreno de ação. E se saiu é porque algo sinistro cercou todas as suas saídas.

 

Não foi uma malandragem qualquer. Foi um movimento de pinça que foi se conformando em torno de alguns espaços ‘desenvolvimentistas’ de poder. Aliados poderosos, donos de votos e currais nos matos grossos da vida, viciados em balança comercial, venda em dólar e pagamento em real.

 

É que no prato da soja e do boi o que vale é superávit e equilíbrio fiscal, mesmo que seja ao custo do déficit natural, destruição de milhões de quilômetros de florestas, morte de mananciais. Desequilíbrio ecológico para produzir equilíbrio fiscal.

 

Essa lógica perversa é majoritária, tem aliados na direita e na esquerda, argumentos bonitos e teses acadêmicas, endêmicas de uma espécie dita inteligente que perdeu a noção básica de sua própria sobrevivência.

 

Marina buscava um caminho capaz de subjugar a barbárie do dióxido de carbono e que privilegiasse o desenvolvimento inteligente, onde as formas de vida pudessem se tornar matéria-prima sem acabar, se reproduzir, se perpetuar.

 

Mas o Brasil do agronegócio tem pressa! Os grandes empresários nos convenceram de que precisam avançar sobre as matas e as águas da Amazônia, do Pantanal, para poder eliminar os índices da fome, da miséria, das doenças da idade média, da exclusão em larga escala.

 

Até os mais destacados militantes da esquerda tropical trazem uma pilha de argumentos em defesa do desenvolvimento rápido. Disseram pra eles que o grande capital cuidará de acabar com a desigualdade social, étnica, regional. Quanto aos milhões de dólares que saem todos os dias do Brasil, é o ‘pequeno’ custo do desenvolvimento de curral.

 

O que valem algumas árvores? O que representam alguns lagos, igarapés? Por que tanta preocupação com alguns curumins, meninas índias indefesas, pajés? No léxico do capital e do desenvolvimento acima de 5%, o patrimônio genético, os recursos naturais, as águas, os insetos, os animais, as larvas, não passam de um detalhe que incomoda.

 

Marina queria equacionar o detalhe com o gigantesco da hidrelétrica, o pequeno da aldeia com o colossal da indústria em larga escala. Por isso, apesar de ‘panos quentes’, não podemos esconder: a floresta hoje sofreu uma derrota.

 

Nos vinte anos da morte de Chico Mendes, não haveria presente mais fúnebre!

 

Moisés Diniz é deputado estadual no Acre pelo PCdoB.

 

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Última atualização em Quarta, 14 de Maio de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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