Conversas infantis

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Conversar com crianças é oxigenar o cérebro. Outro dia, em casa, família reunida em torno da mesa, as crianças discutindo com os pais. O que é normal? O que é comum? Saci é incomum? Fada é normal? O que é anormal? Até que a menor, chateada com a conversa politicamente incorreta, soltou a definição: "E eu sou inormal!".

 

Inormal pode ser e-normal, normalidade virtual, porque receber e-mail é normal, é comum, e-commerce está aí mesmo... e-learning também é algo normal. Esta menina de 6 anos já nasceu eletrônica!

 

Outro dia, outra conversa. Vendo televisão, aparece o Lula. A filha pergunta: "Até quando o Lula vai ser presidente?". O pai responde de qualquer maneira... diz que em 2010 vamos ter outro presidente. A menina pergunta quem será o novo presidente. O pai, brincando, diz que Lula o procurou, oferecendo uma vaga, mas "papai não quer ser presidente".

 

A menina não se espanta. O pai como presidente do Brasil? Está aí uma boa idéia. "E por que você não aceitou, pai?". "Ah, é meio chato morar em Brasília, filha, ia ter que levar a família toda, você não ia gostar". "Ia, sim! Liga agora mesmo pro Lula, pai, e diz que você aceita ser presidente!".

 

O menino está vendo TV. Um daqueles programas em que a idéia é perseguir os animais, falar deles, tocá-los, puxar cobra pelo rabo, flagrar o jacaré em sua hora de descanso, tirar o sossego dos macacos, perturbar o sono dos escorpiões. O menino observa. A mãe pergunta: "E aí, filho, está gostando do programa?". O menino responde: "Eu estou, mas acho que daqui a pouco o macaco vai cuspir no cara". "Por que, filho?". "Xi... esse cara está chamando o macaco de ‘cara’ o tempo todo, e macaco não tem cara, tem rosto!".

 

Criança emprega o pensamento confundente. Pensamento livre. Os limites se desfazem. As fronteiras desaparecem.

 

A menina está aprendendo a escrever. Escreve "peqado". A professora fica nervosa. "Que pecado é esse?", a mestra pergunta. A criança acha normal escrever "pecado" com "q". Afinal, "c" tem som de "cê", e "q" tem som de "quê".

 

E lá está o garoto vendo a TV. A violência. A babá eletrônica, a e-babá, não poupa os nossos filhos. O garoto vê a foto da menina assassinada. Conversa com ela: "Não se preocupe, eu vou cuidar de você".

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor – Web Site: http://www.perisse.com.br/

 

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