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Travestis, travestido, mídia e cidade: algumas reflexões Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Henrique Lima de Oliveira   
Quarta, 07 de Maio de 2008
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Domingo, 4 de maio de 2008. No final da noite, o maior canal de TV aberta do país exibe um programa de "variedades" com as principais notícias do Brasil e do Mundo. Temas requentados estão na ordem do dia e mais uma tragédia na região Norte do país surge como notícia instantânea, que pode esperar a sua vez de ganhar mais espaço. Quem sabe se a quantidade de vítimas fatais aumentar?

 

O grande momento do programa seria a entrevista (!?) "exclusiva" com um dos maiores jogadores de futebol do mundo, que falaria sobre o seu envolvimento com travestis em um episódio no mínimo curioso, ocorrido na semana anterior à veiculação do programa televisivo.

 

Milhões de telespectadores estavam na expectativa de prestigiar o "momento especial" prometido pela emissora. A truncada discussão sobre algumas questões que envolvem direito, cidadania e leis estava posta. A qualidade da formação de alguns jornalistas, idem.

 

O entrevistado, travestido unicamente de embaixador da Unicef, de atleta competente e de pessoa responsável, aparece como um menino que comeu mel pela primeira vez e ao se lambuzar teve que dar satisfação à sociedade que instituiu que o mel – assim como o leite, a cachaça, as drogas e a prostituição – não é para todos. Para os devassos, os irresponsáveis, os boêmios, os que sobram da sociedade moralista, a aventura de quebrar regras aparece como mais tentadora, possível de ser realizada.

 

Assim, para salvar o menino que supostamente sofreu chantagem, extorsão e foi "enganado" pelos devassos de plantão, era necessário dar nova roupagem ao fato, deixar a aparência falar mais alto do que a essência. O bem sempre vence o mal, diz a tradição.

 

A primeira idéia a ser posta em prática era deixar claro, através da grande mídia (sensacionalista ou não), que travestis são danosos à sociedade. Roubam, praticam chantagens, fazem sexo em troca de dinheiro e transformam as ruas em espaços tidos como imorais. Travestis não podem ser percebidos como gente comum.

 

Em contrapartida, era necessário mostrar que o Fenômeno não tem indício algum de lucidez quando não percebe que os territórios da prostituição no Rio de Janeiro, assim como nas grandes cidades, são demarcados, instituídos, apropriados. Os territórios demarcados são como prateleiras de supermercados: sabemos exatamente onde encontrar cada produto. Aqui, acolá, há alguma coisa fora da ordem, mas há uma organização formal que nos dá garantias de que encontraremos o que desejamos.

 

Na cidade, encontramos ruas e locais que são predominantemente ocupadas por travestis, outras por prostitutas, outras por garotos de programas. Em algumas cidades, encontramos a chamada "Cracolândia", referência a um dos usos que se faz deste local. O bom menino, que conhece bem a capital do Rio de Janeiro, queria contratar profissionais do sexo e o fez, sabia onde encontrá-los. Diz que foi a maior besteira que fez na vida pessoal, o que não vem ao caso neste momento. As ruas são perigosas mesmo, pressupõem transgressões, usos e abusos.

 

Ronaldo travestiu-se de gente comum, que algumas vezes infringe as leis e afronta a sociedade carregada de moralismos e hipocrisias. Ronaldo anunciou um gol e não o concretizou de fato. Viu tudo como um erro e, ao que parece, acertou em alguns pontos.

 

Colocou a sociedade brasileira a pensar, mesmo que de forma caricatural e jocosa, que a prostituição ronda as ruas das metrópoles e isto é parte da dinâmica urbana, mesmo que as leis coloquem esta prática como crime. Existem leis que se transformam em abstrações, são teóricas mesmo, não "pegam". Salvo um ou outro jornal, não foi vista nenhuma menção ao fato de o jogador reconhecido internacionalmente ter cometido um delito, previsto em lei. A ênfase midiática foi na "escolha" do jogador por travestis. As fantasias sexuais devem obediência às convenções sociais? Ronaldo responde que sim e anuncia que a chamada "pegação" de rua é perigosa.

 

A prostituição de alto luxo é mais silenciosa, menos midiática, mais organizada e cara. Pena que alguns locais que fomentavam esta rede de contatos hoje estejam fechados. Ao Fenômeno restou a rua, onde quem reina é quem dela melhor se apropria. O barato saiu caro.

 

A cidade apedrejou o pobre (sentido figurado, diga-se de passagem) garoto que colocou em xeque valores morais, leis, desejos pessoais e, claro, o poder da imagem pessoal. Ronaldo quase anunciou que a sociedade precisa repensar os seus valores arcaicos em pleno século XXI. Quem sabe a cidade não imita o travestido e lhe pede desculpas também?

 

Paulo Henrique Lima de Oliveira é sociólogo (UFC), mestre e doutor em Geografia (UFMF e UFU). Atualmente leciona Geografia Urbana na Faculdade de Ciências Humanas de Pedro Leopoldo (MG).

 

E-mail: phloliveira(0)yahoo.com.br

 

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