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Escrito por Léo Lince   
Sexta, 20 de Abril de 2007
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Como diria o jagunço Riobaldo, “passarinho quando se debruça o vôo já está pronto”. O segundo governo Lula consolida o deslocamento para a direita e traz a marca do conservadorismo mais exacerbado. Basta ver a composição do ministério e a sopa de letrinhas da coalizão de governo. O que não ficou como estava, que grande coisa já não era, piorou muito. Mares Guia, Gedel, Roseana Sarney, Romero Jucá, Maluf, Barbalho formam um plantel que não deixa margem para dúvidas.

 

Quanta diferença do início do primeiro governo, eleito sob o signo da mudança. A expectativa era a de um governo popular, nada rotineiro ou burocrático, destinado a abrir um novo ciclo na política brasileira. Muito debate, participação cidadã, resgate dos valores republicanos, alargamento dos espaços públicos, desprivatização do Estado, repolitização da política, tudo temperado nas águas claras da transparência e no fogo da participação popular. 

 

Esse roteiro para a travessia turbulenta não foi sequer ensaiado.  O presidente, milionário de votos, de Quixote na oposição virou Sancho Pança no governo. Entregue ao continuísmo na macroeconomia, o primeiro governo desmobilizou o movimento mudancista. O PT, que antes ativava a massa e organizava o movimento, acoitado na máquina do poder virou freio. Sua brava militância passou da perplexidade ao desalento, e daí para a dispersão em todas as frentes onde atuava.

 

O segundo governo Lula começa em outro diapasão. É o fim das ilusões. Exibe com clareza a marca da opção definitiva pela “nanopolítica”. Perfil baixo, sem lastro próprio que lhe sustente o prumo, a nau governista se deixa arrastar prazerosamente pelos interesses dominantes. Seu titular, como bem definiu o professor Ricardo Antunes em artigo recente, se converteu “em uma variante de homem duplicado que passou a admirar cada vez mais os exemplos daqueles que vêm “de baixo” e vencem dentro da ordem”.  

 

O questionamento da ordem social injusta, fora da retórica eleitoral, não habita a pauta do governo. No entanto, o anseio de mudança dá mostra de que continua vivo na sociedade e começa a se deslocar para novos endereços. Está em curso o eterno processo de busca e recomeço. Aquele que faz emergir novos pólos de condensação na política. Novos instrumentos de participação social, novos partidos se formam, frações novas se articulam em partidos velhos, correlações de forças se alteram embaixo da crosta cristalizada dos sindicatos, os movimentos populares buscam agendas de recomposição. 

 

Como diria, de novo, o jagunço Riobaldo, o marasmo ficou “só no bobo do corpo, não no interno das coragens”. Quando da visita do Bush, o “companheiro” de Lula, o movimento de rua registrou ânimo novo. Outra novidade: lideranças expressivas do movimento sindical, estudantil e popular se reuniram em São Paulo no mês passado. Foram milhares e discutiram uma pauta unitária de lutas. Os grandes jornais estavam lá, mas não deram uma linha. A vibrante jornada nacional em memória dos mortos em Eldorado de Carajás é outro termômetro da mudança.

 

É um suave deslocamento, coisa de milímetro, mas seu sentido é claro: o governo foi para a direita e o movimento pela mudança busca se recompor na bitola larga da mobilização cidadã.  Quem sempre mói no áspero, a história recente confirma, não desanima nas tarefas de recomeço.  

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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