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Arroz com Feijão. Os números do Censo Agropecuário Imprimir E-mail
Escrito por Roberto Malvezzi   
Quarta, 30 de Abril de 2008
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Dizem que o arroz com feijão é uma invenção tipicamente brasileira, assim como o café com leite. Melhor, os nutricionistas descobriram que são excelentes combinações nutricionais. Entretanto, como tudo que tem origem nacional, arroz com feijão tornou-se sinônimo de algo irrelevante, quando não imprestável. Até que o preço subisse nas nossas mesas. Agora, literalmente, passaram a ter valor.

 

Pois bem, nossa dupla da mesa voltou às manchetes de jornais, televisões e são objeto inclusive de reflexões de intelectuais. Que coisa, intelectual falando de arroz e feijão! Que desprestígio para a nossa elite pensante! A razão é que, com a crise alimentar mundial, há uma acirrada disputa de números para sustentar ou desdizer a tese de que os agrocombustíveis estão na origem da crise de nossas mesas.

 

A consolidação dos dados do Censo Agropecuário que está em elaboração ajudará a esclarecer muitas de nossas dúvidas. O acesso parcial que tivemos a esses números já elucida muito do que queremos saber. A área plantada de arroz, que era de 4.233.000 hectares em 1990, caiu para 2.997.000 em 2007. Portanto, em quinze anos perdeu 1.236.000 hectares, ou seja, quase 25% de sua área.

 

Quanto ao feijão, em 1990 a área plantada ocupava 5.504.00 hectares. Em 2007, a área plantada ocupava 4.331.000 hectares. Em quinze anos teve seu plantio diminuído em 1.174.000 hectares, isto é, perdeu 12% de sua área. Enquanto nossas áreas de plantio da dupla caíram, a população brasileira cresceu. Como disse o presidente da República, "também passou a comer mais". Também é verdade e vamos dar a Lula o que é de Lula. Portanto, a fórmula da inflação dos alimentos está perfeita: menos área cultivada, menor produção, mais gente comendo.

 

Outro dado esclarecedor é que a soja saltou de 11.487.000 hectares em 1990 para 20.700.000 em 2007. Acréscimo superior a 100%, mas o povo brasileiro não come soja. A cana saltou de 4.273.000 para 6.557.000 hectares. O total da área plantada com lavouras no Brasil saltou para 76,7 milhões de hectares, quase duplicando em 15 anos. A pecuária permanece com 172 milhões de hectares, portanto, ocupa folgadamente a maior parte dos solos brasileiros. Está claro que a cana e a soja avançaram sobre as áreas de feijão e arroz, sobretudo no sul e sudeste. Até aqui na Bahia, no platô de Irecê, o feijão perdeu espaço, inclusive para o biodiesel.

 

Então, qual o papel dos agrocombustíveis no preço dos alimentos? Expandiu a soja, expandiu a cana. A cana, sobretudo no Sudeste. A soja, sobretudo no Norte. A cana empurrou a soja, essa empurrou o boi, que já ia no rastro das madeireiras. Portanto, o agronegócio brasileiro precisa ser considerado no seu conjunto, na sua correlação íntima com todas as commodities. Não pode ser analisado de forma estanque, como se cada setor fosse independente do outro. É o conjunto do agronegócio brasileiro que faz diminuir a área plantada de arroz e feijão – fiquemos só com esses dois, que já é assustador por demais – para expandir a cana e a soja. A pecuária não aumentou sua área, mas pode ter mudado de lugar. O fato é que novas áreas foram incorporadas às custas de desmatamento, seja da Amazônia, seja do Cerrado, seja do Pantanal. Agora, a cana irrigada ameaça entrar pelo vale do São Francisco, derrubando a caatinga e consumindo o que resta de água na bacia do Velho Chico.

 

É refrescante lembrar que a cana é a matriz do etanol e a soja é a matriz principal do biodiesel. Portanto, se os agrocombustíveis não explicam cem por cento a crise alimentar que estamos passando, não há como inocentá-los na cota que lhes cabe, inclusive no Brasil.

 

Roberto Malvezzi (Gogó) é coordenador da CPT.

 

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Última atualização em Quarta, 30 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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