Ameaças à Terra Indígena Kayapó

 

 

"A Amazônia era tão perfumada da diversidade das flores. Com esses cheiros os indígenas, os pássaros, os animais, os rios, as montanhas, o sol, a chuva, viviam muito felizes. Hoje, a destruição, a contaminação, a poluição ameaçam a vida de todos os seres vivos."

 

Mensagem de Bepkororoti Kayapó, Paulo Paiakan, enviada por rádio da aldeia do Rio Vermelho, em função do dia do índio, 19 de abril de 2007.

foto_cachoeira_e_floresta_amaznia_-_rodolfo.jpgProjeções catastróficas quanto ao futuro da floresta amazônica despontam de todos os lados, pelos jornais, pelo rádio e pela televisão, ao cobrirem os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (o órgão das Nações Unidas responsável por produzir informações científicas sobre o assunto). Segundo os debates mais recentes, os impactos das mudanças climáticas no Brasil incluem, além da desertificação do nordeste e da maior probabilidade de chuvas torrenciais no Rio de Janeiro e em São Paulo, a savanização  na região leste da Amazônia (apesar de os representantes brasileiros ainda terem conseguido suprimir este ponto do relatório final). Por “savanização” entende-se a substituição da floresta por uma vegetação aberta, de gramíneas e arbustos, como o Cerrado, mas a realidade pode ser ainda pior.

 

O Correio publicou recentemente a entrevista de Paulo Paiakan à revista Brasil Indígena, ressaltando os riscos à terra Kayapó representados pela construção da BR 163, da usina de Belo Monte e das atividades da mineradora Onça Puma, da Companhia Vale do Rio Doce. As notícias de lá são as piores possíveis. O caos criado pela mineradora da Vale no município de Tucumã, que faz limite com a Terra Indígena Kayapó, também foi denunciado pelo prefeito Alan Azevedo ao site Amazônia (http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=239856). O prefeito decretou estado de emergência em todo o território municipal devido à deterioração da “governabilidade e sustentabilidade” da região. Isto está ocorrendo devido à espantosa pressão populacional que se abateu sobre o município desde agosto de 2006, associada às atividades de mineração (de ferro-níquel) pela Onça Puma. Neste momento, milhares de pessoas estão se transferindo para lá, em busca de emprego. Segundo o prefeito, não há mais vagas nos hotéis, nem casas para alugar, a degradação das ruas e avenidas é visível e multiplicaram-se as invasões e a grilagem de terras públicas. Os já precários serviços de educação e saúde do município estão em colapso.

 

Também está aumentando a criminalidade e a prostituição infanto-juvenil. É evidente que a explosão populacional e este clima de desgoverno aumentam muito a probabilidade de alguém, apontando para a Terra Indígena Kayapó, dizer “ali não tem ninguém, vamos fazer uma rocinha”, como alertou o Paiakan. E as invasões vão avançando aos poucos. Operações recentes da FUNAI, em conjunto com o IBAMA e a Polícia Federal, encontraram invasões de até 700 hectares entre as aldeias Kikretum e Kokraimoro. Imagens de satélite comprovam a existência de áreas desmatadas.

 

Por mais quanto tempo a Polícia Federal, o IBAMA e a FUNAI serão capazes de controlar o problema? O meu palpite é: enquanto a floresta resistir. Na mata, o índio estará sempre em vantagem. Mas o invasor sabe disso, toca fogo e derruba o mato. Como são previstas secas muito mais intensas em nossa região a curto, médio e longo prazos, em virtude do aquecimento global, as chances de um incêndio florestal descontrolado se alastrar pela Terra Indígena devastando a mata são cada vez maiores. E aí não vai ter quem contenha os fazendeiros, grileiros e posseiros multiplicados pela legião de “desplazados ambientais” vindos de toda parte.

 

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

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