Nunca é tarde para agir a favor da vida

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Dia 19 de abril e todo o resto do mês seriam dias comuns se não fosse oficialmente determinado que se homenageie o ‘índio’. Mês que, pelo menos nas escolas, não passa em branco, porque se tornou uma obrigação pelo projeto pedagógico mencionar os indígenas na aula mais apropriada.

 

Muito positiva toda a lembrança e toda a discussão em torno dos povos que convivem na sociedade brasileira há muitos séculos. Mais positivo seria se a lembrança e preocupação por eles se estendessem durante todo o ano.

 

Gostaria, todavia, de iniciar esse artigo não tanto criticando o calendário e as poucas homenagens, mas ressaltando, sobretudo, a coragem dos diferentes grupos indígenas que vivem em nosso país de desafiar o poder político e a justiça da sociedade branca, que insiste em ignorar a cultura indígena no que se refere a sua identidade étnica que tem como principal sustentação a terra.

 

A história dos milhões de indígenas expulsos de suas reservas e mortos por defendê-las todos nós conhecemos. Contudo, o confinamento de grupos indígenas em pequenos territórios tem sido ainda a principal e sorrateira estratégia de certos políticos, comprometidos com grileiros e proprietários que receberam suas terras como herança de uma geração que fez muita mulher e criança indígena sangrar até a morte.

 

Nas últimas semanas, acompanhamos nos jornais o conflito em Roraima, na reserva indígena Raposa Serra do Sol entre índios e produtores de arroz. Mais uma vez, o poder repressor dominante se apropria dos mecanismos criminosos para tentar aniquilar mais um grupo indígena que defende sua identidade cultural.

 

Enquanto os conflitos entre poderosos e índios prosseguem em nossos tempos, a sociedade, preocupada então com seus próprios desajustes, contenta-se em aceitar os discursos evasivos e mentirosos dos políticos, prometendo seu voto numa próxima eleição.

 

Nunca a questão indígena esteve tão fora dos projetos políticos como agora, no governo atual, e jamais na história dos povos indígenas houve tantos mendigos entre esses povos que esperam há tanto tempo por demarcação de suas poucas terras.

 

Absurdamente os Yanomami, Guarani, Terena, Xoklein, Kaingang, Bororo, Xavante, Urueu-au-au, Kulina, Karitiana, Gavião, Suruí, Kayapó, e tantos outros cidadãos indígenas brasileiros, seguem acreditando na sua origem, na sua cosmovisão, no seu poder xamanístico, na sua lei.

 

A cultura indígena, para insatisfação de muitos, não vai desaparecer jamais porque ninguém deixa de ser o que sempre foi: guerreiro, sábio, humano e, principalmente, uma parte preciosa do meio ambiente.

 

O que acontece hoje, na verdade, é que não temos mais na mídia líderes folclóricos que no passado tentaram chamar a atenção da sociedade para seus inúmeros problemas e que, infelizmente, foram ridicularizados por uma elite descomprometida e medíocre.

 

Na sociedade atual, os indígenas fazem parte apenas de um grupo maior de miseráveis brasileiros, com algumas de suas lideranças anônimas e, lamentavelmente, vulneráveis à corrupção.

 

Bom seria se as novas gerações, que comemoram o dia do índio em suas escolas, se preparassem para exercer o verdadeiro papel de cidadão que é, além de outras coisas, conhecer e defender os direitos indígenas para então sim construir uma sociedade justa, multiétnica, sem juízo de valores e, principalmente, sem um poder econômico dominante sobre outros povos.

 

Maria Rosa de Miranda Coutinho é mestre em Ciências Sociais

E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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