Vida madrasta

 

A palavra "madrasta" vem do latim vulgar matrasta. Tem a ver com "mãe" (mater), mas no sentido de "mulher do pai", mãe que não é mãe, mulher que se tornou mãe "postiça" na ausência da mãe verdadeira.

 

A madrasta existia quando a mãe da criança falecia. A madrasta surgia na vida de um órfão como segunda mãe. O mesmo com relação ao padrasto.

 

Hoje, dado o número de separações conjugais, existem muitos órfãos com mães e pais vivos. A nova esposa é chamada de madrasta de maneira pouco apropriada. Outro expediente é chamar a madrasta de "tia", o padrasto de "tio", o que nada ajuda.

 

Antigos provérbios pintam a imagem perversa: "Madrasta e enteada sempre andam em batalha", "madrasta, diabo arrasta", "madrasta, o nome lhe basta". Quando alguém quer se queixar da vida diz que a vida lhe foi madrasta. E existirá também a morte madrasta? No caso de padrasto, há um provérbio interessante: "Mais vale pai ruim do que bom padrasto".

 

A noção é tão forte que virou adjetivo masculino, ampliando a idéia original: "mercado madrasto", "mundo madrasto", "futuro madrasto".

 

Nas histórias que contamos aos nossos filhos, a madrasta é malvada, irascível, vingativa. A mulher má por definição, a gargalhada sádica ressoando nos ouvidos, a vontade de perseguir. As madrastas cruéis fazem dos contos infantis verdadeiras histórias de terror.

 

A madrasta da Branca de Neve inveja a beleza da menina. Decide assassiná-la. A megera, para cúmulo do azar, é feiticeira e não tem um pingo de compaixão. Quando manda o caçador matar a menina no meio da floresta, exige que lhe traga como prova do trabalho realizado os pulmões e o fígado da vítima. Sua idéia é cozinhá-los e comê-los!

 

A madrasta da Cinderela explora a força de trabalho da pobre enteada e não lhe permite conhecer novas oportunidades. Para completar o quadro, a madrasta tem duas filhas que humilham sistematicamente a Gata Borralheira. É preciso que outra figura, a madrinha, venha em auxílio com os poderes mágicos do amor. Madrinha também substitui a mãe ausente, mas é substituta do bem.

 

Seria grande injustiça apresentar a madrasta como vilã de todas as histórias. Não é certamente um papel fácil. Requer generosidade. Generosidade significa gerar. Gerar um vínculo que não existia antes. Criar com a criança, com o jovem, com a jovem, uma relação de respeito... Para começar.

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor

 

Website: http://www.perisse.com.br/

 

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Comentários   

0 #2 VIDA MADRASTANOELZA 20-05-2008 08:51
SEMPRE DESEJEI COLOCAR PARA AS PESSOAS O MEU SENTIMENTO DE TRISTEZA, DE DESAPONTAMENTO, NO QUE DIZ RESPEITO À MINHA CONDIÇÃO DE MADRASTA,LENDO ESTE ARTIGO PUDE REVIVER ALGUMAS SITUAÇÕES PELAS QUAIS PASSEI... \"VIDA MADRASTA\"... MEU MARIDO TEM 2 FILHOS E LOGO QUE COMEÇAMOS NOSSO RELACIONAMENTO PASSEI A AMAR OS MENINOS. PASSADOS 10 ANOS DE CASADOS E DE CONVIVÊNCIA TENHO SENTIDO A BARREIRA QUE A SOCIEDADE COLOCA PROCURANDO MANTER A MADRASTA NA POSIÇÃO DE UMA FIGURA MÁ, QUE AS HISTÓRIAS SEMPRE TROUXERAM... MAS PROSSIGO NO AFÂ DE FAZER COM QUE ESTE AMOR SEJA RECONHECIDO E ACEITO...
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0 #1 mãedastraJucelia 13-05-2008 12:20
Hoje pode-se afirmar que o conta é o amor não quem gerou.Ouvimos histórias de madastras más sim, mas também de mães más. Pessoas que geram filhos no ventre, mas esquecem de coloca-los no coração. Acredito que pode se amar muito um filho que seja somente do seu companheiro(a). Vc só tem que deixar este amor nascer em vc.É o AMOR INCONDICIONAL.
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