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Desigualdades na China Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Quarta, 23 de Abril de 2008
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Não deixa de ser irônico que uma crítica recorrente sobre as desigualdades na China atual apresente como contraponto o igualitarismo por baixo, presente em sua sociedade entre 1950 e 1980. Essa crítica procura reafirmar que aquilo sim é que era socialismo. Agora, haveria um capitalismo selvagem, com a agravante de um "governo autoritário". Em outras palavras, fingindo elogiar, ela passa a mensagem de que o verdadeiro socialismo não seria capaz de tirar ninguém da pobreza, e de que a China seria menos desigual se o seu capitalismo já houvesse transitado para uma democracia liberal.

 

Essa crítica é também maliciosa ao omitir que, na história da humanidade, não há exemplo de surtos de crescimento rápido dos meios de produção, sem causar desigualdades econômicas e sociais. Mesmo países com populações muito menores que as chinesas, como a Inglaterra e os Estados Unidos, tiveram processos econômicos de crescimento com intensas desigualdades. Tivemos experiência idêntica no Brasil. Dessa forma, exigir perfeição da China não passa de ação de propaganda negativa.

 

Mesmo durante o "socialismo igualitário" da revolução cultural na China, houve desigualdade entre os pobres e os que se encontravam abaixo da linha da pobreza. Por outro lado, é certo que aquelas desigualdades aumentaram com o retorno da economia de mercado. Nesse sentido, a diferença entre o socialismo chinês e o capitalismo em geral é que, na China, o Estado tem papel explícito de instrumento de correção dos desequilíbrios e desigualdades decorrentes do mercado. Ele não apenas reconhece e monitora os problemas que surgem, como adota medidas para corrigi-los, e as executa.

 

Desde o início do programa de reforma e abertura da China, em 1980, o Estado teve que realizar três grandes intervenções no mercado, para corrigir desequilíbrios e polarizações, e evitar a desestabilização política. A primeira, em 1989, quando o governo de então foi incapaz de evitar uma forte desigualdade de rendas, um pico de inflação (embora baixo, se comparado aos padrões brasileiros da época), a multiplicação de casos de corrupção, além de não conseguir adotar medidas para superar tais problemas e evitar a desestabilização política.

 

A segunda, em 1994-95, quando ocorreram novas desigualdades de renda, novo surto inflacionário e os desequilíbrios regionais começaram a incomodar. E a terceira, em 1999, durante a crise financeira internacional, quando houve grande pressão para a desvalorização cambial e forte queda nas exportações. Em todas essas intervenções, o Estado do socialismo de mercado chinês se mostrou capaz de corrigir as distorções do mercado, criar um novo ambiente social e político, e manter o desenvolvimento econômico e social.

 

No entanto, essas correções não tiveram, como não têm, a pretensão de liquidar o mercado. Este ainda é considerado indispensável para desenvolver as forças produtivas e gerar novas riquezas materiais. Com isso, é inevitável que surjam, e continuem surgindo, novos desequilíbrios. Não por acaso, volta e meia se levantam novas dúvidas sobre a capacidade de o Estado chinês resolvê-los. Mas isso é assunto para a próxima edição.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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Última atualização em Quarta, 23 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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