Sob o signo da morte

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O Rio de Janeiro continua lindo, mas exibe em seu cenário maravilhoso um espetáculo sombrio: um dia de cão atrás do outro. Como se não bastassem os mortos na epidemia de dengue, vítimas da incúria de maus governantes, o chumbo quente da truculência policial espalha cadáveres nos guetos pobres da cidade. Nas chacinas que se repetem, a Vila Cruzeiro foi o calvário da vez. Antigamente, os esquadrões da morte operavam na clandestinidade, agora cravam bandeiras no local do crime e ostentam, com orgulho, a licença para matar.

 

A mal chamada política de segurança do governo Cabral, além de criminosa, produz conseqüências ainda mais drásticas por ser equivocada. O governador ainda não descobriu que a morte não acaba nada, mesmo quando se organiza em poderosos esquadrões oficiais. Os estudiosos mais sérios da questão estão cansados de alertar: o caminho é outro. O combate ao crime que inferniza o cotidiano do cidadão é uma necessidade inadiável. Ninguém contesta. Mas a linha adotada, a repressão truculenta e desorientada, só tem feito agravar a espiral de violência.

 

O narcotráfico e o crime organizado, todos sabem, possuem tentáculos na ponta do varejo, mas o cérebro que comanda o "movimento" está em outro lugar. Ao final da última década do século passado, em 1999, uma CPI no Congresso Nacional produziu uma investigação séria sobre a questão e seus resultados até hoje, dez anos depois, ainda dormem do esquecimento. O relatório final da Comissão afirmava que, na época, os esquemas do crime organizado lavavam no Brasil, anualmente, 50 bilhões de dólares. E o relator concluía com ênfase: "sem o olhar complacente de instituições financeiras e de governos não seria possível lavar tanto dinheiro sujo". Qualquer polícia inteligente de governo sério começaria por tal ponto o combate efetivo ao narcotráfico e ao crime organizado.

 

Até as pedras da rua sabem que, quando essa gente de colarinho branco "dançar", os tiranetes na ponta do varejo ficarão sem as armas modernas e sem a matéria prima que alimenta o comércio cruel e "brilha" nas festas das altas rodas. Razões misteriosas impedem que tal linha de combate, recomendada por todos os estudiosos sérios do problema, prevaleça no cerne dos governos. A linha da truculência é uma escolha política. Os barões da droga, fora da linha de tiro, estão tranqüilos. Aguardam o rescaldo das batalhas para recompor o varejo do negócio. As peças de reposição pululam na barriga da miséria. Tal linha, ademais de preservar a malha de cumplicidades que contamina os diferentes aparatos do poder, ainda rende popularidade ao governante que ostenta a truculência como se fora firmeza.

 

Antes senzala, agora favela. Não por acaso, o governador definiu a mãe favelada como matriz de bandidos. Os homens de preto, vestidos para matar, executam o ritual macabro da intimidação. A bandeira preta, com aquela caveira cravada de armas, é a expressão concentrada da política que criminaliza a pobreza, garante a impunidade dos "chefões" e sustenta a demagogia dos maus governantes. São tempos sombrios, onde o poder público, ensandecido, opera sob o signo da morte.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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