A corrupção e o seu sistema

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Há uma modinha no cancioneiro popular, os mais antigos conhecem, que ensina: "beliscar não é pecado/ diz o senhor capelão/ conforme seja o lugar/ e o tamanho do beliscão". O mesmo raciocínio, por certo, há de valer para o caso do dossiê elaborado nos laboratórios do Planalto sobre alguns dos gastos com cartão corporativo. Em tese, ou para usar a metafísica do ministro da Justiça, como conceito, elaborar dossiê não é crime, assim como beliscar não é pecado. O problema está, pelas normas do Capelão, nos objetivos do fato consumado.

 

Quando vazou na imprensa, a primeira reação do governo foi negar a existência do dossiê. Era um "banco de dados" (segundo o cartunista Caruso, "banco de dardos"), elaborado por solicitação do Tribunal de Contas. Como a versão tinha pernas curtas, não era banco nem o tribunal solicitara, foi logo substituída pela inimputabilidade da "coisa em si" e pela criminalização do vazamento. A Polícia Federal foi chamada para descobrir os digitadores. O dossiê existe sim, mas cumpria finalidades que o vazamento prejudicou.

 

A CPI dos cartões corporativos, que já nasceu torta, teve que providenciar um novo freio de arrumação para evitar o descontrole. Proposta conjunta do governo e oposição, ela carrega tal contubérnio como marca de nascença. O cidadão, ainda que desconfiado, não podia ser contra: a ponta revelada do escândalo indicava a necessidade da investigação. Regulação falha. Fiscalização nula. Farra generalizada nos vários entes federados, envolvendo gregos e troianos, petistas e tucanos, reitores e ecônomos. Até agora, no entanto, nada de positivo foi produzido.

 

O mais recente capítulo da novela, estampado nos jornais da semana, indica a permanência da CPI nas malhas do pecado original. A base governista e a oposição pró-sistema, depois de escaramuças paralisantes, chegaram enfim ao grande acordo. Para aprofundar a investigação? Ledo engano. Para quem defende o mesmo modelo econômico e se vale dos mesmos métodos no financiamento eleitoral, o uso torto do cartão corporativo é café pequeno. As feições rugosas das grossas negociatas que habitam o cerne do modelo não combinam com a lisura nos gastos menores.

 

Entre os negociadores do acordão, alguns fizeram declarações altamente esclarecedoras. O coordenador da base governista na CPI, o deputado petista Paulo Teixeira, disse: "se é para ir para o enfrentamento, temos o Serra para convocar". O líder do DEM, Agripino Maia, afirmou que, se é para garantir a continuidade dos trabalhos, "não se convida ex-ministro de um lado ou ministro do outro". E a presidente da CPI, a tucana Marisa Serrano, constatou enigmática: "eles entregaram os anéis". Como não renunciou em seguida, a frase indica concordância com a salvação dos dedos. Além do Serra, não serão mais incomodados a Dona Ruth, Fernando Henrique, a mãe do PAC, nem a filha do Lula. O dossiê, tudo indica, cumpriu a sua finalidade.

 

Na bitola estreita da pequena política, a malha de cumplicidades do condomínio de poder vai limitar a investigação no âmbito do parlamento. O problema, no entanto, continua posto e pode transbordar para outros espaços. Ao mostrar cartão vermelho para o reitor da magnífica lixeira, os estudantes da Universidade de Brasília deram uma aula da boa política. Em sintonia plena com o sentimento da cidadania, abriram caminhos novos na luta contra a corrupção e o seu sistema.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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