Estados Unidos: forças armadas e candidatura republicana

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Enquanto nos debates presidenciais a questão da retirada da maior parte das tropas dos Estados Unidos no Iraque reforça-se, o comandante-chefe das forças armadas, General David Petraeus, em visita a Washington, posiciona-se em direção contrária. Para ele, caso não haja a manutenção dos efetivos em torno dos atuais números, corre-se o risco de retrocesso, a despeito da debilitação dos combatentes.

 

Algumas unidades foram enviadas três vezes desde as operações militares iniciadas após o 11 de setembro de 2001, o que contraria a determinação de atribuir dois dias em casa para cada um de caserna. Assim, problemas psíquicos entre os soldados afloram mais facilmente, sem que o Departamento de Defesa possa providenciar-lhes tratamento médico condigno.

 

Falto de voluntários para ingressar na atividade militar, o governo norte-americano recorre à Guarda Nacional, organizada para operar no âmbito interno e constituída, exatamente em função disso, de vários membros com famílias. Muitos deles não se adequam bem psicologicamente para embates ultramar, em vista do tempo de deslocamento – um ano.

 

Em decorrência da alteração do sistema de recrutamento, a idade média das tropas aumentou. No período em que vigeu a conscrição, isto é, o alistamento obrigatório, a dos soldados rasos mal ultrapassava os 18 anos. Após a Guerra do Vietnã, o Pentágono passaria a trabalhar com o serviço militar voluntário. Atualmente, a média nas forças armadas subiu, ao ultrapassar os 25 anos, posto que na Guarda Nacional supera os 30 anos. O sacrifício justificar-se-ia se o país estivesse sendo atacado.

 

Nesse sentido, a manutenção de um determinado número de efetivos no Iraque, ainda que assegure de maneira momentânea – ou mesmo aparente - um revés às forças de insurgência, desvia a atenção do tópico principal da 2ª Guerra do Golfo: após meia década de presença em terras iraquianas, os Estados Unidos não obtiveram a legitimidade política para lá estar.

 

Valendo-se de uma tipologia tradicional da guerra, há dois tipos em suma: a expedicionária e a anexadora. Desde o fim da II Guerra Mundial, diante da emergência dos movimentos de descolonização afro-asiático e dos nacionalismos periféricos, as grandes potências não se arriscam mais a incorporar territórios desconectados de suas fronteiras.

 

Deste modo, a justificativa usual atrela-se ao modelo expedicionário, ou seja, à defesa, em tese, de algum valor. Normalmente, ao longo dos últimos decênios, invocavam-se entrelaçados liberdade e anticomunismo, como na Coréia e Vietnã, ou autodeterminação, como no Iraque, já no pós-Guerra Fria. Após o atentado de setembro de 2001, o combate ao terror tornou-se o fabordão preferido dos formuladores da Casa Branca.

 

Subjacente à legitimidade do atual conflito perante a comunidade internacional, há nos Estados Unidos a seguinte inquietação: a esgarçadura dos militares em ação no Iraque proporcionaria a possibilidade de vitória ou seria apenas o adiamento de uma possível retirada e, por conseguinte, de uma derrota? O desgaste aplicado às forças armadas estadunidenses não seria uma medida administrativa com vistas a atenuar a corrosão do Partido Republicano em ano de eleição presidencial?

 

Passados cinco anos de ocupação, apresentar à sociedade estadunidense uma passageira diminuição do grau de violência significa, de fato, reconhecer a falta de êxito. O adversário – o mal materializado no terrorismo – não foi superado. Assim, o não recolhimento das tropas no curto prazo é anunciado quase como um triunfo.

 

Não se comenta mais se é possível vencer, até porque os opositores à presença anglo-americana, embora se encontrem do ponto de vista militar próximos, politicamente estão difusos, o que dificulta apontar um inimigo principal. O mote, portanto, modifica-se, sendo enxergado como a necessidade de providenciar a estabilidade da sociedade iraquiana.

 

Isto certamente não auxilia a sofrida população do Iraque. Contudo, colabora, no momento, para a campanha eleitoral do Senador John McCain, candidato republicano, considerado, em face de seu passado militar, como o mais habilitado para tratar da política externa norte-americana.

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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Comentários   

0 #1 forças armadas americanascleverson adarlan brandao 28-10-2009 11:51
quero fazer parte das forças armadas do EUA.
sou brasileiro e queria poder ajudar aquelas pessoas iraquianas lutando com as forças armadas do EUA contra o talibã.
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