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Sobre dengue, mídia e autoridades públicas Imprimir E-mail
Escrito por Rafael Fortes   
Quarta, 16 de Abril de 2008
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Em 11/4, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro enviou à imprensa sugestão de pauta sobre a inauguração de uma "tenda de hidratação" para vítimas da dengue, a ser realizada em 14/4, com presença do secretário de estado de Saúde e do secretário de Atenção à Saúde (órgão do Ministério da Saúde). A "notícia" me foi encaminhada por um amigo jornalista, que perguntava: "para que a inauguração? Se os secretários são médicos, não seria melhor irem trabalhar atendendo os pacientes? Isto é festa? Haverá bolo, guaraná, balões de gás e fita para cortar?". Esse ato é um desrespeito às mães que perderam os filhos. Só falta inaugurarem um cemitério especial para os mortos pela dengue, com fogos de artifício e inclusão da obra no PAC.

 

O despreparo e/ou má-fé das autoridades se revela também em algumas providências para "combater" o problema: a) iniciativa surreal de trazer médicos de fora do estado do Rio de Janeiro; b) recomendação para as crianças usarem calça, meia e sapato fechado (saúde é obrigação de Estado, se o uso de certas vestimentas é apontado como política de saúde pública, cabe ao Estado viabilizar imediatamente a distribuição para todas as crianças dos itens necessários); c) estímulo ao uso de repelentes (há pesquisas sobre possíveis efeitos da aplicação intensiva e prolongada de veneno sobre a pele de crianças e adultos?); d) a recente e inacreditável "parceria" entre governo do estado e empresas de dedetização; e) contratação de médicos, empresas e cooperativas em regime de urgência, o que dispensa licitação e é sujeita a ingerências pessoais, políticas e comerciais.

 

É nítido, mas paradoxalmente pouco se discute, que a situação é fruto sobretudo do baixo investimento em saúde e da privatização aberta ou velada (cooperativas, fundações, terceirizações etc.), como apontou matéria recente deste Correio.

 

Em debate no Programa Faixa Livre, o presidente do Sindicado dos Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Darze, afirmou que o alto número de óbitos se deve à falta de atendimento, pois o poder público só se mexeu quando a sociedade organizada cobrou e protestou. Disse ainda que os governos federal e estadual se omitiram e demoraram a agir por oportunismo eleitoral, visando deixar à prefeitura o ônus político da epidemia. Caso o leitor não saiba, os governos federal (PT) e estadual (PMDB) são aliados, e a prefeitura (PFL, atual DEM), adversária de ambos.

 

A cobertura realizada pela mídia gorda (ou "grande imprensa") poderia ser intitulada "Não vá ao hospital e morra em casa". Com isso, ela contribui bastante para aumentar os óbitos, pois a dengue (inclusive a hemorrágica, com gravidade muito maior), tratada a tempo, pode perfeitamente ser controlada e curada. Portanto, o número de mortes não está necessariamente atrelado à ferocidade da doença, mas à procura (ou não) de atendimento pelo paciente e à existência (ou não) de atendimento (e a qualidade do mesmo) por parte do poder público. É por isso, aliás, que enfermidades cujo tratamento e cura são relativamente simples continuam matando milhares de pobres a cada ano na América Latina, África e Ásia, como malária, diarréia infantil e pneumonia.

 

Ajudar a matar pobres não é o único resultado da cobertura. Percebe-se, de forma não assumida, mas bastante evidente, a má vontade por parte dos órgãos jornalísticos com a saúde mantida através do setor público. Isto tampouco é novidade, uma vez que, em praticamente qualquer área, o jornalismo da mídia gorda afirma a incompetência do setor público e elogia a iniciativa privada. Quem acompanha a realidade a partir desses meios é levado a acreditar que o serviço público é acometido por uma incapacidade inata de desempenhar quaisquer funções com zelo, competência, atenção a custos etc. No caso específico da saúde e da cobertura da epidemia de dengue, não deve ser esquecido o efeito positivo que a afirmação da suposta "inoperância" da saúde pública pode ter para os planos de saúde privados, importantes anunciantes da mídia hegemônica.

 

A postura das autoridades certamente contribui para o quadro, como demonstra o exemplo cristalino que abre este artigo. A idéia de que "não há vagas", disseminada por algumas autoridades, hospitais públicos e órgãos de imprensa é absurda e tem pelo menos dois efeitos deletérios. É absurda porque, nos setores de pronto atendimento e emergência, não há "número de vagas", e sim obrigação de providenciar imediata assistência aos que lá chegam com um quadro agudo de doença. A Constituição Federal estabelece que o atendimento de saúde é uma obrigação do Estado em relação a todos os cidadãos. Todos que chegarem a um hospital precisando de atendimento emergencial têm que ser atendidos – inclusive nos hospitais privados. O não atendimento constitui crime de omissão de socorro (Código Penal). Se o atendimento levará um minuto, uma hora, um dia ou uma semana – em outras palavras, que qualidade terá –, são outros quinhentos, e é para isso que muitos reivindicam menos dinheiro para pagar juros da dívida e mais verbas para garantir direitos como saúde, educação, moradia e saneamento. O atendimento universalizado é uma conquista da qual não podemos, de forma alguma, abrir mão.

 

Quanto aos efeitos deletérios: primeiro, ao se afirmar que nem todos serão atendidos, se está, na prática, negando e combatendo o atendimento universal. Segundo, se está disseminando, na população, a sensação de que não adianta procurar um hospital porque não há atendimento. Podemos perceber a gravidade do segundo efeito se considerarmos que a maioria dos óbitos causados pela dengue se dá justamente porque o paciente chega ao hospital já com um quadro avançado da doença, muitas vezes vários dias após o aparecimento dos sintomas. Criar na população a percepção de que "não adianta nada" procurar um hospital contribui para que as pessoas adiem a ida ao médico e só o façam quando o quadro atinge certa gravidade, o que dificulta o tratamento, reduz as chances de sucesso e põe, desnecessariamente, vidas em risco. Nesse contexto, uma possível morte realimenta o círculo vicioso, reforçando nas pessoas a percepção de que buscar socorro é inútil.

 

A idéia de que a responsabilidade pela epidemia de dengue é de todos, da forma como é apresentada, não visa à conscientização, mas sim à imobilidade e à despolitização. Trata-se da mesma conversa fiada que a mídia gorda apresenta com relação à poluição e ao aquecimento global: coloca a culpa dos problemas no agente micro (a dona de casa que usa sacolas plásticas do supermercado ou demora no banho quente), enquanto cala sobre as causas estruturais do problema (a civilização baseada no automóvel, no consumo desenfreado e no desperdício).

 

Trata-se de falta de vontade política para cumprir a Constituição e direcionar recursos públicos para melhorar o atendimento, contratar pessoal, pagar salários melhores, investir em pesquisa, fabricar vacinas e remédios em laboratórios públicos (barateando o custo, gerando empregos e mantendo no país o dinheiro investido), entre outras medidas. A cobertura escandalosa, privatista, desmobilizadora e superficial realizada pela mídia corporativa em nada contribui para a discussão plena e aprofundada do problema – justamente o que poderia trazer mais efeitos benéficos a longo prazo, seja para a saúde pública, seja para a nossa democracia.

 

Rafael Fortes é jornalista, historiador e edita o blogue A Lenda.

 

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Última atualização em Quarta, 16 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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