Queremismo da “estadania”

 

A supremacia absoluta da pequena política é a marca mais forte do atual momento brasileiro. Tudo que é feio e torto se articula no prisma do interesse puro para garantir a reprodução do continuísmo conservador e, ao mesmo tempo, revitalizar as práticas mais perversas e recorrentes na pior tradição da nossa velha política.

 

O mês de abril mal começou e já exibe uma fartura de acontecimentos de suspeitosa feição. Cada qual, em separado, já configura um escândalo. Juntos, então, nem se fala. O cidadão, espantado, observa a seqüência vertiginosa e se indaga sobre o sentido no nexo tenebroso que articula o conjunto.

 

Em discurso para os integrantes do enigmático Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o presidente voltou a falar na urgência da reforma política. O projeto que tramitava no parlamento - todos sabem - foi enterrado pelo acordo entre os tucanos e a base governista. Agora, no entanto, ninguém perguntou, nem o assunto estava na pauta, mas o presidente, para surpresa dos potentados da economia e dos intelectuais orgânicos do situacionismo que compõem o Conselho, enfatizou a prioridade da "mãe de todas as reformas". Estranho.

 

No dia seguinte, outro grupamento informal e igualmente poderoso fez festa para ouvir o presidente, desta vez no Salão Leste do Planalto. Estavam lá os titulares do Ministério do Trabalho e a alta cúpula do sindicalismo oficial "amarelo-ouro". Comemoravam o que foi denominado com propriedade de "pelegalização" das centrais sindicais e, com particular euforia, o veto presidencial ao dispositivo que mandava prestar contas ao poder público da grana grossa do imposto sindical. A gratidão eterna dos beneficiados foi saudada em tom de ameaça: "vão ter que nos aturar durante muito tempo".

 

Nos ventos do mesmo clima, a segunda autoridade do poder federal empinou o balão do terceiro mandato. O vice José Alencar, de forma espontânea e sem ser questionado sobre o assunto, usou o seu melhor sotaque de mineiro bonachão para espalhar nas ondas do rádio: "o que os brasileiros desejam é que o Lula fique mais tempo no poder". De lá para cá, o cordão dos queremistas cada vez aumenta mais. A governadora do Pará, que no pré-Barbalho operava na esquerda do PT, o prefeito do Recife, que antes levitava nas tradições libertárias de sua cidade, puxaram o cordão para o plano estadual e municipal. O deputado Devanir, colega de copo do presidente desde os tempos do sindicalismo e pioneiro da proposta, já providenciou a emenda que abre caminhos institucionais para a aprovação da mudança.

 

O presidente, como no caso do mensalão, faz cara de paisagem. Está cansado de eleições, mas sapateia nos palanques. Intuitivo, pragmático do poder e empirista radical, ele aguarda o resultado dos movimentos que desencadeia. A rigor, ele não sabe de nada. E se reserva o direito de aceitar docemente constrangido ou rechaçar com furor democrático, dependendo da correlação de forças. Como o santo de bordel, ele paira acima das bandalheiras que lhe sustentam o andor. Infelizmente, como diz o filósofo, em tempos de ocaso os anões projetam sombra de gigantes.

 

A "estadania" é o simulacro de cidadania, regulada e acionada pela máquina do Estado e pelas máquinas eleitorais acoitadas nele, sempre com o apoio dos pontos fortes da economia. Os que operam a política como mera emanação do Estado estão por trás do magote de iniciativas que ocupa o início deste abril despedaçado. Podem até prosperar, mas a natureza do movimento está definida na origem: é o queremismo da "estadania".

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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