De Jéssia para Isabella

0
0
0
s2sdefault

 

Oi, Isabella. Fiquei sabendo de sua morte. Fiquei imaginando como alguém pode pegar uma criança como você, maltratar, asfixiar e depois ainda atirar pela janela do apartamento. Nunca consegui entender essa crueldade humana. Acho até que nem humanos são. Por isso, acho até normal que tanta gente se interesse pela sua morte, embora grande parte goste mesmo de sensacionalismo ou apenas de ganhar audiência em seus programas.

 

Queria lhe dizer que eu também já morri. Um dia, no assentamento que eu morava, tive que buscar água no canal de irrigação para o pessoal lá de casa. Era sempre assim. A gente não tinha água no assentamento e eu tinha que roubar uns 20 litros por dia para nossa família beber. Teve uns tempos que fui sem terra. No assentamento, eu e minha família éramos sem água. Então, um dia, quando eu estava roubando um balde de água no canal de quinze metros de altura, caí e morri.

 

Gente como eu, os sem terrinha, não tem muito espaço na mídia. Quem sente nossa falta são apenas nossos pais e nossos amigos. É só no coração deles que deixamos algum vazio. De resto, viramos estatísticas. Sabe, a gente entra numa lista, mas ninguém conhece o rosto que está por detrás daquele número. São muitos que morrem aí por essas beiras de estrada, debaixo da lona preta, seja por um motivo ou por outro. Quando acontecem chacinas, as crianças também são mortas, assim como jovens e adultos. Mas a gente só busca ter um pedaço de terra, ter uma casa, poder estudar, ter os bens que todo mundo tem, como uma TV, uma geladeira e até mesmo um celular. Queremos também um Brasil justo e decente. Nem vamos falar dos adolescentes e crianças que morrem por arma de fogo, no tráfico, ou aqueles que morreram ainda na infância de dengue, fome, sede e outras misérias. O país onde nascemos ainda não é um lugar para gente. Nós duas sabemos bem.

 

Pois é, agora estamos as duas do lado de cá. Já não temos distância, tempo, classe social, nem preconceitos a nos separar. Vamos nos encontrar e sair brincando por aí. O infinito é nosso limite.

 

Roberto Malvezzi é coordenador da CPT.

 

{moscomment}

Comentários   

0 #4 Realmente lamentávelBreno Nascimento 09-04-2008 20:14
Parabéns pela crônica Roberto. Eu já refletia intensamente nesta linha ouvindo a cobertura dada pela imprensa ao revoltante fato envolvendo a morte da menina Isabella. Fico profundamente indignado com a violência, principalmente para com as crianças sejam sem terras ou com posses, brasileiras, chinesas ou tibetanas.
Acho que o sr. Júlio precisa reler a crônica de coração e mente abertos, sem maniqueísmo ou rancor. Desta forma talvez consiga captar a sensível mensagem que transmite.
Citar
0 #3 LamentávelGerson Yamin 09-04-2008 11:44
lamentável que o sr. Julio não tenha entendido a crônioca e interpretado de forma obtusa e preconceituosa. realmente a mídia usa e abusa na divulgação e repercussão de um fato lamentável que choca a todos, mas existem outros, que acontecem diariamente, e que talvez, por serem mortes de pessoas que não interessa à midia sua divulgação, a maioria nem fica sabendo...
Citar
0 #2 homicidiojulio 05-04-2008 08:44
nao se pode explicar qualquer acontecimnto pela bula marxista da luta de classes .Mesmo pq o sacrificio humano nunca foi ponto de pauta na luta capitalismo e socialismo.Na china , p ex , as pessoas morrem e viram adubo .Quer mais indiferença do q isso?
Citar
0 #1 paulo sergio pinto mendes 04-04-2008 19:41
caro malvezzi, concordo com tudo que disse, teu artigo e comovente,
abraços a todos q ainda se chocam com a crueldade dos humanos.
Citar

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados