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Sem autêntico planejamento urbano, não há solução para o trânsito Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader   
Sexta, 04 de Abril de 2008
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Em meio a dias de trânsito cada vez mais exasperante em São Paulo, o Correio da Cidadania conversou com a ex-secretária dos Transportes do município de São Paulo na gestão Luiza Erundina (1989-1992) e vereadora pelo PT, Teresa Lajolo, que analisou as recentes propostas de melhoria do tráfego apresentadas pela prefeitura e também apontou quais atitudes devem ainda ser tomadas, a fim de realmente resolver a questão.

 

Para ela, as verdadeiras mudanças precisam ser trabalhadas a longo prazo, independentemente de quem esteja no poder, pois as atuais decisões têm mais caráter imediatista e eleitoreiro que de soluções efetivas.

 

Confira abaixo a entrevista completa.

 

Correio da Cidadania: Como você analisa as recentes medidas anunciadas pelo prefeito da cidade de São Paulo no combate ao trânsito cada vez mais inviável na cidade?

 

Teresa Lajolo: Eu ouço as medidas que são faladas e vejo que a coisa mais importante realmente não é discutida, que é o transporte coletivo. Você pode tomar medidas pontuais, imediatas, mas não vai resolver o trânsito, porque tem que pensar seriamente na questão do transporte coletivo. Se isso não for pensado e não for investido dinheiro para garantir organização, não resolve. Porque temos um transporte coletivo que muita gente está deixando de usar e ao mesmo tempo temos vários incentivos do governo para compra de carro. Então as medidas podem resolver aqui e ali, mas o grande problema do trânsito não vai ser resolvido, e é o mais importante numa cidade: o transporte coletivo. Esse é o problema mais grave. Há medidas pontuais que podem ser tomadas, mas outras são de longo prazo e traçar isso será importante para qualquer governo que assuma a cidade de São Paulo.

 

Ele (Kassab) falou da questão dos caminhões, que não vão circular pela marginal. Quando cheguei à secretaria dos Transportes, em 89, chegamos a pensar nessa questão de deixar os caminhões parados num certo ponto até que se permitisse entrar na cidade. Para se tomar uma atitude dessa agora, precisa haver os locais de estacionamento dos caminhões, para eles pararem e sua entrada ser organizada. Não acredito que, num tempo tão curto, 45 dias, isso possa ser realmente estruturado de forma conseqüente. As medidas estão sendo colocadas, mas eu acho que são muito imediatistas e não acredito que sejam soluções efetivas para o transporte da cidade.

 

CC: E que solução teríamos a curto prazo?

 

TL: A curto prazo, não tem nenhuma solução que podemos afirmar que resolva. Uma questão é fundamental, que é o transporte coletivo. Aí dizem "precisa de metrô, precisa de trem", mas nenhum transporte que a prefeitura opera é tão importante como os ônibus. O que acontece na cidade de São Paulo? Essa foi uma das grandes discussões internas entre o pessoal que lida com transportes. Abriram os corredores de ônibus falando que é a única opção. Não é, muito pelo contrário, chega um momento que satura. Então você segrega o ônibus, forma aquelas filas imensas e o que acontece?

 

É preciso estruturar o transporte coletivo com o foco na origem e destino da população, trabalhar essa questão. Quando se faz o corredor que sai de certas regiões, impõe-se que todas as pessoas, seja de onde forem, têm de ir para o lugar determinado, o terminal. E lá muitas vezes as pessoas saem de um ônibus, entram em outro e fazem a continuação do mesmo percurso, só mudando de ônibus. Isso faz aumentar o tempo de deslocamento, com o que a pessoa deixa de usar o transporte coletivo e pega o carro, porque vai rápido.

 

Deve-se montar um processo que dará resultados em mais ou menos dois anos, reestruturando a malha de acordo com a origem e destino, sem fazer as grandes segregações que já foram feitas. De imediato, pode-se, aqui e ali, eliminar alguns pontos de estrangulamento, mas, se quiser alterar essa situação, a prefeitura tem uma coisa imediata na mão, que é o transporte coletivo, o ônibus. E ela pode fazer intervenções no sentido de reestruturar a malha de circulação dos ônibus.

 

CC: Então a solução é a longo prazo e não pode fugir de um investimento no transporte coletivo, certo?

 

TL: Não foge, e o investimento não é só dinheiro. É investir em termos de estruturar o transporte coletivo, tendo em mãos as pesquisas de origem e destino. Mas essas pesquisas não são feitas sistematicamente para que se possa estruturar o transporte.

 

Outra questão é que se precisa associar qualquer decisão a ser tomada para reutilização de espaço humano com o trânsito. Por exemplo, na região onde moro, há uma avenida antiga, pequena. Construíram em torno dela um monte de prédios do CDHU e agora não há condições de se transitar por lá. Foi o governo do estado quem fez isso. Quer dizer, não houve um entendimento entre governo do estado e prefeitura para saber como deslocar a população e qual a conseqüência disso.

 

Eles fazem as intervenções urbanas, como no Shopping Bourbon, mas sem uma inter-relação no sentido de saber como fluir o trânsito.

 

Precisamos, portanto, de intervenções planejadas e, historicamente, nos governos, isso é a coisa mais difícil, haver integração entre as várias áreas para se pensar numa intervenção, seja uma construção, seja num conjunto de moradias etc. Deixam acontecer e depois vão pensar em intervir.

 

Portanto, é preciso ter esse lado do planejamento, do trabalho conjunto dos órgãos; senão, podem fazer todos os arranjos que quiserem em relação ao transporte, mas ele vai acabar se desestruturanado, na medida em que permitem algo como um conjunto habitacional, shopping, fábrica, o que quer que seja, no espaço urbano.

 

CC: Pensando nesse ponto, São Paulo é uma cidade que cresceu descontroladamente, foi mal planejada. Mesmo nessa fase, continua, então, sendo mal planejada para o futuro?

 

TL: Sim, continua! Não acompanhei muito o projeto da Câmara para discutir planejamento urbano, mas o que eu verifico no dia-a-dia é que não se pode dizer que houve um plano diretor aprovado. Por exemplo, onde moro, na Brasilândia, há uma área de estrangulamento de trânsito, porque tem um supermercado num espaço de somente três quarteirões. Aí, de repente, apareceu nessa área, com permissão, a construção de duas torres de apartamentos. Na hora que essas duas torres estiverem prontas, aí que você não anda mesmo, vai demorar de meia hora a 40 minutos para fazer três quarteirões! Quem autorizou isso? Como pode autorizar um negócio desse num espaço que já está estrangulado? E ali todo mundo vê o que está acontecendo. Como fica a cidade com essas intervenções? Cadê esse plano diretor para que se diga que aqui não pode construir prédio?

 

O cara tem o terreno, quer investir, então você tem que lidar com esses conflitos de interesse, o que é difícil. Estamos num momento em que se vê surgirem essas questões para todo lado, e cadê, efetivamente, esse plano diretor? Ou como ele permite determinadas intervenções que estrangulam tudo?

 

CC: E, quando surgem esses conflitos, a prefeitura atua mais de que lado?

 

TL: Fecha os olhos. Não percebe que as coisas vão acontecer e permite que se transformem em fato consumado. Veja o caso do shopping. Estão dizendo que a área construída é maior que o previsto, ao menos em altura. Espera aí, tem poder público! Vamos chamar assim, né? Sendo assim, esse poder tem de ser exercido permanentemente, pois não é porque vai ter um shopping que chama a atenção e é uma maravilha que não vai ser exercido. Tem de ser exercido para fazer as pessoas respeitarem, resultando em uma cidade em melhores condições. Liberar a coisa de qualquer jeito, esperando respeito, só vai permitir o estrangulamento da cidade.

 

CC: Esse problema, claro, não é de hoje.

 

TL: Olha, acho que está piorando. E eu fico preocupada, porque a gente faz discussões e vê que são coisas muito pontuais, imediatistas. Vem a candidatura para prefeito, para governador, aí fazem essa discussão, para fazer promessas e propostas do tipo "ah, eu resolvo". Mas não vai resolver. No imediato não. Tem que construir um processo, que não é só de momento eleitoral, mas sim permanente, de discussão, compreensão dessa realidade em conjunto. É necessária uma integração política, de todos os agentes políticos, até partidários, mas que permanentemente estejam convivendo com essa realidade e discutindo o que está acontecendo, senão não tem jeito.

 

CC: Os vários problemas estruturais da cidade não criam também sérios bloqueios para que se resolva o problema específico dos transportes?

 

TL: Bom, não vejo uma discussão muito clara dessa questão. Por exemplo, quanto à carga e descarga, está sendo pensada uma alternativa para a marginal e para o centro: não é assim que estão pensando? Eu olho a cidade como um todo. Há vários fatores, a cidade cresceu, o comércio se expandiu e, consequentemente, as pessoas começam a abrir botequinho, comércio, tudo quanto é tipo de coisa em qualquer buraco. Depois vemos caminhão de cerveja, refrigerante, de material de construção, tendo que fazer entregas em uma rua onde o caminhão não passa...

 

Lidamos hoje com uma cidade que teve um crescimento não só em termos de status, mas sofreu uma mudança do ponto de vista do comércio. As pessoas têm um problema financeiro, querem ganhar um dinheiro e vêem na TV que, se fizerem esse bolinho, começarem a vender qualquer coisa, vão ganhar dinheiro. Todo mundo começa, então, a vender coisa pra lá e pra cá. Precisa-se compreender a realidade para saber como fazer a integração correta da carga e descarga e não sei se isso está sendo compreendido e estudado.

 

A política de carga e descarga está tão espalhada e seccionada - não se pode entrar em tal lugar em tal hora, não se pode trafegar em outra hora etc. – que se cria outro problema. Eu não tenho esse estudo para dizer se essa é uma solução, mas espero que estejam fazendo uma análise para perceber a realidade. Porque, muitas vezes, o técnico tem uma observação que não é baseada no cotidiano. Também tomei essa medida quando fui secretária em 89, mas agora teria de reestudá-la, para dizer quais horários são bons e como fazer isso. Precisa haver esse estudo, saber que demanda existe de carga e descarga, avaliar o tamanho dos caminhões etc.

 

Por isso o poder público tem de observar, permanentemente, a realidade no seu dinamismo, para saber quais intervenções devem ser feitas.

 

CC: E essa mudança de horário de cargas e descargas pode acarretar em outro problema, pois, no mínimo, o estado teria de investir em mais segurança.

 

TL: Também. De repente, cria-se um problema de barulho adoidado. Porque hoje se mescla comércio com área de moradia. Tem muito comércio hoje e, além da segurança, se cria problema a respeito de saber quem fica no serviço para carregar e descarregar, entre outras coisas. Por isso que falo: é preciso ter noção de todas as interferências que vão ser provocadas para dizer que essa é a grande solução.

 

As pessoas, diante de um situação, fazem as propostas sem muita consistência, como aquela intervenção que ele (Kassab) resolveu fazer colocando um corredor de motos na avenida 23 de maio. Claro que não daria certo! Porque foi resolvido seccionar uma avenida que possui interferência de outra. Quem vem dessa avenida mais os que estão nela entrando vão se afunilar em três pistas, para os condutores de motos passarem na quarta. O que é isso? Não se faz uma besteira dessas! Como você pega um povaréu que já vem vindo, mais os que entram, e fala que vão ficar segregados numa área? Vai dar congestionamento mesmo.

 

Imagino, assim, que não se estuda mesmo a realidade de forma concreta, para saber quais problemas serão criados.

 

CC: Estamos, além do mais, diante de medidas tomadas irresponsavelmente.

 

TL: Sim, e pode-se dizer, no caso dos caminhões, criativas também, já que podem criar novos problemas que não sabemos se teremos condições de controlar. Por exemplo: aonde os caminhões vão ficar parados? Não pode circular na marginal, mas vai pôr onde um caminhão que vem de Minas Gerais? Não tem onde parar, há um espaço sendo construído, mas como vão estacionar todos os caminhões que vierem? Não sei como estão estudando isso.

 

Podem dizer: "vamos estudar várias hipóteses e vamos discutir com o governo federal essa história de que agora você pode pagar o carro em 70 meses". É colocar a crise dos EUA no Brasil. Você tem garantia de emprego por 70 meses para pagar o carro? Não tem. Tem garantia de que vai ter dinheiro para pagar o IPVA? Não tem. É possível que estoure uma crise por conta disso.

 

É aí que se faz necessária a discussão. O poder público tem autoridade para fazer uma intervenção e reorganizar o transporte, principalmente o de ônibus, e, aí sim, teríamos muitas condições de alterar a qualidade. Não precisa de mais ônibus na rua. Às vezes, com os ônibus que já existem, reorganizando, redimensionando, de acordo com a origem e o destino, pode ser feita uma reformulação que dê condições de as pessoas usarem o transporte.

 

CC: É possível, portanto, motivar o paulistano a deixar o carro em casa e usar o transporte coletivo.

 

TL: Sim. Quando fui secretária, criamos uma linha só, na região de A. E. Carvalho. É a compreensão que eu tenho: muitas vezes dá para fazer linhas regionais que permitam que as pessoas circulem na região. Fizemos uma linha de 10 km em A. E. Carvalho, era pequena, mas andava pelos conjuntos habitacionais, centro comercial, postos de saúde, creche, terminal de ônibus e metrô. Conseguimos 4 ônibus e pusemos para rodar.

 

Entrava mais gente nesses ônibus o dia todo do que nos que iam de lá até o centro. Isso porque o povo viu que, para levar o filho do conjunto habitacional até a escola, ir até o centro comercial, havia um ônibus. Era também possível ir até o terminal pegar um ônibus para o centro da cidade.

 

Aqui na Brasilândia, quem tem de ir para a Cachoeirinha vai de carro. Como se chega ao hospital? Não tem como, só de carro. Quer dizer, é preciso observar essas possibilidades de circulação interna das regiões, evitando-se, daí, que a população se mova para pontos distantes.

 

Essa reestruturação parte de uma observação da realidade a ser trabalhada, de modo que a população possa fazer uso do transporte coletivo.

 

CC: Se você tivesse que atribuir uma culpa por essa situação chegar a tal ponto, atribuiria a quem?

 

TL: Ao poder público, que tem o poder de decidir, a quem mais?

 

CC: Por que o poder público deixou a situação chegar a esse ponto?

 

TL: Por influências, interesses dos empresários dos ônibus, cooperativas de peruas etc. Muitas vezes o governo, cooptado por esses interesses, não consegue enxergar, pensar de um outro jeito: "Só ganho dinheiro se sair daqui do bairro até o centro da cidade".

 

E quem tem esse poder de chegar e colocar outra proposta, perceber essa realidade? O poder público. A população organizada não enxerga tudo também. Num momento da história, na época em que tínhamos outra realidade no PT, estávamos conseguindo resolver essa situação. No último ano do governo Erundina, conseguimos começar a construir essa proposta de reestruturar o transporte da cidade conforme a origem e o destino. Depois veio o Maluf, acabou com tudo, posteriormente o Pitta e a Marta. O pessoal que dominou a área de transporte tem, agora, uma outra compreensão.

 

Um ponto que para mim foi uma experiência importante, que tive no PT, quando vereadora: na época, conseguimos entender a realidade do trânsito, ter uma noção clara do papel do poder público. É isso que é necessário, o principal objetivo do poder público é dar qualidade de vida a quem vive nessa cidade.

 

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Última atualização em Terça, 08 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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