A “revolução democrática” de 64 e a formação ideológica das forças armadas

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Estamos em uma data significativa, trinta e um de março. Data que representa o vermelho do sangue de homens dignos derramado arbitrariamente por nossos militares. Isso mesmo! Pelos militares, justamente aqueles que deveriam defender a pátria brasileira. Trinta e um de março de sessenta e quatro, o dia do golpismo. Data que não deve ser apagada da memória dos brasileiros. E não deve ser esquecida para que golpismo e arbitrariedades como aquele não aconteçam jamais.

 

É interessante, e poucos refletem sobre isso, o perigo da formação ideológica de uma categoria que tem sob suas mãos o poder das armas. Por possuir poder dessa imensidão, é justa e prudente a neutralidade política no máximo que for possível da instituição que a exerce. Por que, então, nossos militares recebem formação direitista e conservadora dentro das academias das forças armadas? A que interesses essa formação serve?

 

Falo com conhecimento de causa, pois passei alguns anos nas fileiras do exército como oficial temporário. Passamos por tentativas de doutrinação a favor do pensamento político direitista conservador, a ponto de tentarem nos convencer, com convicção, dos erros intencionais cometidos pelos historiadores ao contar a história do Brasil durante o Regime Militar. É inconcebível, na caserna, alguém ousar demonstrar um mínimo de simpatia por partidos, movimentos ou pessoas ligadas a tendências populares ou progressistas.

 

Em uma instituição que preza a hierarquia e disciplina, e faz isso corretamente por ter a força das armas, não raramente presenciei atos de desrespeito ao chefe maior das forças armadas, o Presidente da República. Analfabeto, burro, guerrilheiro, alcoólatra e despreparado eram as formas de se referirem ao presidente Lula. Desrespeitoso foi também como o comandante de minha unidade se referiu ao chefe Nelson Jobim, Ministro da Defesa, ao chamá-lo de despreparado em frente aos seus oficiais, durante uma reunião com os mesmos – o famoso Bom Dia.

 

]No Exército, descobri que não houve golpe, mas uma "revolução democrática". Revolução que suspendeu e cassou direitos políticos, impediu os moradores de cidades consideradas estratégicas de elegerem seus prefeitos; depuseram governadores eleitos democraticamente; censuraram a imprensa; torturaram e mataram cidadãos que lutavam pela dignidade, justiça, liberdade e paz em nosso país; mantiveram presos e/ou exilados personalidades como Paulo Freire, Frei Betto, Betinho e tantos outros cidadãos que tanto contribuíram para o desenvolvimento intelectual, artístico e cultural de nossa nação. Tudo isso fez a "Revolução Democrática de 64", que eu prefiro chamar de golpismo.

 

Mesmo assim o governo federal do presidente Lula, concede a esta categoria, em seus seis anos de governo, aumento de mais de 30% em seus soldos. Aumento que o ex-presidente Fernando Henrique, idolatrado por parte das forças armadas (porque outra parte ainda o achavam muito progressista), em seus mais de 8 anos de governo, não concedeu. Aliás, quais as categorias do funcionalismo público receberam aumento deste nível? Mesmo assim, os militares ridicularizam o presidente e vários de seus ministros que lutaram pela redemocratização do Brasil nos anos de pau-de-arara. Lula e seus ministros mostraram hombridade suficiente para superar os traumas de perseguidos e presos políticos tentando uma reaproximação com os militares na perspectiva do diálogo para o desenvolvimento do país. Reaproximação materializada na questão salarial e no reaparelhamento das forças armadas, que nas últimas décadas (Sarney, Collor, Itamar e FHC) ficou renegada ao sucateamento.

 

Os militares, por puro conservadorismo direitista e autoritarismo doentio, continuam resistentes. Insistem em ver tudo o que é popular, tudo o que vem do povo como "ameaça comunista". O governo, segundo eles, é para ser governado somente pela elite, pois as vêem como a única capaz. Mas, afinal de contas, o que teve de bom o Brasil governado pelas elites pré-Lula? Em que ficamos melhores? Nossos sistemas de saúde e de educação são melhores que o cubano? Nossas forças armadas são melhores aparelhadas que a chinesa?

 

Acordem militares! Ainda há tempo de repararem o sangue de inocentes por vocês derramados entre aquele 31 de março de sessenta e quatro e a "abertura" no ano de 84. É só trabalharem para que em nosso país se faça a construção da igualdade, da dignidade, da justiça e da paz! Quem sabe se aproximem das forças populares para que um novo Brasil aconteça, já que distante destas forças vocês fracassaram.

 

Marcelo Dorneles Michel é professor de Filosofia e de Sociologia – E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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Comentários   

0 #4 É necessário que todos sejam iguais....verceus 14-04-2008 13:57
A constituição reza que todos devem ser iguais! E certas categorias tem uma igualdade bem estranha. Suas filhas ganham aposentadoria integral durante a vida bastando que se mantenham solteiras! Eu gostaria de dar essa segurânça as minhas filhas também e de poder dizer que ninguém irá um dia me demitir e ainda reclamar que ganho pouco!.....Aumento para militares ora isso é pouco
perto do cartão corporativo, 32 ministérios, empréstimos milionários para o filho.
Se é estranho como escrevo sinto-me estranho sendo tratado como cidadão de segunda não sendo funcionário público!
Lula, Fernando 1º e Fernando 2º...Tudo a mesma coisa o imposto sindical obrigatorio continua e sindicalistas compram casas de 486m2, montam redes de hotéis com dinheiro que veio de fonte que o Sr Presidente vetou lei que permitiria a fiscalização....
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0 #3 A \"revolução democrática de 64 e a forOdon Porto de Almeida 08-04-2008 10:10
Com uma mentalidade destas, os States poderão convocar a provocação que quiserem contra a Venezuela ou armarem até coisa pior aqui dentro do Brasil.
Coitado do Povo Brasileiro!
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0 #2 A \"revolução democrática...\"Hélio Querino Jost 01-04-2008 15:31
Interessante que as categorias que mais bem ganham no País, são as que tem maior "poder de fogo". Exercito, Receita Federal, Juizes Federais, Ministério Público Federal. Sim, o Exército está sucateado em matéria de armamentos. Mas convenhamos, hoje não há uso para armas convencionais. Penso que é preciso pensar um novo papel para as Forças Armadas que, no geral, prestam grande serviço à Nação. O problema é que, pela sua formação, os Militares não conseguem ver que estão à serviço da Classe Dirigente. Mantem a paz interna e a defesa nacional para o proveito e gáudio, inclusive de multinacionais que vem aqui rapinar. Chávez abriu o olho e pos as forças militares a favor da Nação, do povo.
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0 #1 Controle sobre as Forças Armadas e não OSargento JCM 01-04-2008 00:20
Professor. Considero parte de seu comentário bem apropriado e pertinente, pois é nítido que nas Forças Armadas, principalmente entre os oficiais, prevalece um pensamento elitista e inclinado para a direita. E como o senhor bem colocou “eles” ainda teimam em camuflar as barbaridades cometidas durante a ditadura “jogando o lixo para debaixo do tapete pra mostrar a casa limpa\". Porém, o sr esqueceu que é impossível, na atual conjuntura, construir um projeto de nação sem Forças Armadas capacitadas. Pelo que entendi, o sr acha que os militares não deviam ter recebido os míseros 30% de reposição salarial (não foi aumento) dado pelo governo Lula, nem tão pouco necessidade de um reaparelhamento para a Marinha, Exército e Aeronáutica. Saiba professor que essa estratégia desastrada, que o sr pensa que é apropriada, vem sendo adotada pelos quatro últimos governos, que, na verdade, só reflete a incompetência deles, frente aos setores conservadores das Forças Armadas, que nunca sofreram, sequer, uma tentativa de confrontação ou mudança nas estruturas de poder. Na verdade, os governos já deveriam ter promovido uma reestruturação no meio militar, não por opressão, mas sim, por meio de leis claras e concisas capazes de estabelecer o total controle sobre as Forças Armadas, no entanto, ao contrário de outras democracias como a da Espanha, até hoje no Brasil os governos não conseguiram estabelecer esse controle, certamente, por medo ou incompetência. Minar a dignidade de uma categoria que tem o poder das armas, na minha opinião, é uma estratégia que pode se tornar desastrosa para um governo. Espero que o presidente Lula, com sua sabedoria entenda e crie mecanismo de controle e que seja diferente dos que as elites adotam para controlar as massas, que por estranho que pareça, é exatamente esse que o sr expôs.
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